Descrição de chapéu Queda do Muro, 30

Alemanha está unificada, diz democrata-cristão e arquiteto do tratado

Líder do Bundestag considera enganoso comparar dados do Leste e do Oeste para criticar a reunificação

Marcelo Leite
Berlim

Apenas nove dias depois da reunificação alemã, o democrata-cristão Wolfgang Schäuble, principal negociador ocidental do tratado que pôs fim à República Democrática Alemã (RDA, ou Alemanha Oriental), teve a vida transformada de maneira ainda mais radical que a do país. Seguiria como um dos políticos mais importantes da grande Alemanha que ressurgia, mas numa cadeira de rodas.

Naquele 12 de outubro de 1990, o então ministro do Interior levou três tiros após um evento eleitoral em Oppenau, na Floresta Negra, e ficou paraplégico. Com disciplina, continuou na vida pública, tornou-se um poderoso ministro das Finanças e ainda hoje, aos 77 anos, exerce grande influência como presidente do Bundestag (Parlamento).

Wolfgang Schäuble, 77, discursa durante uma conferência em Berlim
Wolfgang Schäuble, 77, discursa durante uma conferência em Berlim - Sebastian Kahnert - 8.dez.2011/AFP

Schäuble defende com vigor, como seria de esperar, o processo de unificação. Considera enganoso comparar os dados socioeconômicos da antiga Alemanha Ocidental com os da Alemanha Oriental, ainda desiguais, para concluir que a união é imperfeita.

“Existem no Leste da Alemanha regiões que prosperaram mais do que regiões mais fracas do Oeste. Mas, à semelhança de todos os outros países, também na Alemanha não teremos condições inteiramente equilibradas”, diz.

“Os habitantes da antiga RDA tiveram de enfrentar mais transformações do que os da RFA —além das fundamentais que já aconteciam no mundo todo, como a globalização e a digitalização.”

O sr. acompanhou de perto e teve papel central na reunificação da Alemanha. Diria que foi o acontecimento histórico principal a marcar a sua carreira política? 

Sim, posso confirmar, sem limitações. Para minha geração, uma reunificação alemã não era possível nem de imaginar, e foi quase incrível que tenha acontecido.
 
E que papel o sr. desempenhou? 

Na época da queda do Muro de Berlim eu era ministro do Interior, no governo do chanceler Helmut Kohl.

Anteriormente fui seu chefe de gabinete e nessa função responsável, entre outras, pelas relações com a RDA [República Democrática Alemã, nome oficial da Alemanha Oriental]. Eram relações especiais entre os dois Estados alemães, porque a RDA nunca foi por nós reconhecida como país estrangeiro. Eu tinha um bom conhecimento da situação política na RDA.

Quando o Muro então caiu e os acontecimentos se aceleraram de maneira realmente rápida, até chegar o momento em que se impôs a reunificação, eu como ministro responsável tive de me ocupar de como essa questão da reunificação se processaria de forma pacífica e ordeira e como iríamos criar um direito único e leis únicas.

Desenvolvi aí a ideia de estabelecer negociações com o novo governo da RDA, já então legitimado por eleições livres para a Volkskammer [Câmara do Povo, o Parlamento da Alemanha Oriental] e de tratar em pé de igualdade, praticamente, as condições sob as quais os deputados da Volkskammer poderiam aceitar aderir à República Federal da Alemanha.

Como ministro do Interior, o sr. negociou com Günther Krause, da RDA, o tratado de reunificação. Qual foi o maior obstáculo e quais foram os momentos mais difíceis dessa negociação? 

Os problemas na fase de negociação não surgiram tanto entre as delegações negociadoras da RDA e da RFA, mas sim no seio da delegação da Alemanha Ocidental.

Era um ano eleitoral, e havia interesses muito opostos, opiniões políticas muito diferentes tanto no governo de Kohl como na oposição do SPD [Partido Social Democrata]. Mas, como precisávamos de uma maioria de dois terços para aprovação do tratado, a oposição tinha de ser incluída.

Além disso, também os estados alemães tinham de participar, com um papel muito importante a desempenhar. Os interesses políticos eram amplamente diversificados.

Talvez o maior desafio tenha sido aproximar, de forma relativamente rápida, as condições econômicas e sociais entre os dois Estados, para evitar o esvaziamento da RDA.

Nessa altura, milhares de cidadãos partiam do Leste para o Oeste. As decisões tomadas trouxeram grandes alterações para a população da Alemanha Oriental, que mais tarde conduziram também a altas taxas de desemprego. Estas já se registravam na fase de privatizações de empresas estatais pela Treuhandanstalt [instituição fiduciária encarregada de conduzir a privatização das companhias estatais da RDA].

Um dos obstáculos de conteúdo durante as negociações de 1990 foi o regulamento das questões de patrimônio.

Na RDA, após o fim da Segunda Guerra Mundial, os proprietários geralmente haviam sido expropriados de suas terras e outros bens patrimoniais. Aqui se colocou a questão de saber se os antigos proprietários deveriam receber de volta o patrimônio ou se se deveria deixar tudo no atual estado —sobretudo tendo em consideração que muitos dos antigos proprietários já tinham falecido ou mudado para a RFA, nesse meio tempo.

Já era previsível que a população na RDA não iria aceitar que se regressasse às relações de propriedade do imediato pós-guerra. Por outro lado, foi difícil a sua aceitação na Alemanha Ocidental. A decisão por fim tomada, de indenizar os antigos proprietários, foi correta, apesar de não ter sido satisfatória para todos.
 
O sr. diria que a reunificação já se completou e que a Alemanha é hoje, de fato, uma nação unificada? Muito se ouviu nos anos seguintes à reunificação que as Alemanhas ainda se encontravam separadas nas cabeças de seus habitantes.

Naturalmente as quatro décadas de separação marcaram as pessoas que passaram boa parte de suas vidas em dois mundos diversos. Nas últimas décadas, os habitantes da antiga RDA tiveram de enfrentar mais transformações do que os da RFA —além das fundamentais que já aconteciam no mundo todo, como a globalização e a digitalização. Apesar de todas as diferenças que ainda continuam de existir, somos uma nação unida.

Houve muito desenvolvimento econômico no lado oriental da Alemanha, assim como maior liberdade para viajar, opinar, votar e assim por diante. Mas as pesquisas de opinião ainda mostram muita insatisfação nos estados do Leste. Pode-se dizer que o custo social mais alto da unificação recaiu sobre os alemães-orientais?

Eu não diria dessa maneira. Foram efetuadas significativas transferências monetárias do Oeste para o Leste, mas, como disse, a dimensão das transformações para as pessoas do Leste foi muito maior. Elas tiveram de lidar com mudanças mais profundas e enfrentar por mais tempo, após a reunificação, uma alta taxa de desemprego.

Muito do que parecia garantido e seguro se perdeu, e essas mudanças levaram a que muitos tivessem a sensação até hoje de que, em comparação com a Alemanha Ocidental, tiveram de carregar um fardo maior.
 
As taxas de desemprego e subemprego ainda são muito diferentes dos dois lados da antiga fronteira. Trinta anos não foram suficientes para fazer essa desigualdade desaparecer? Isso ainda é resultado da ineficiência econômica na antiga RDA?

A economia planificada na RDA não era competitiva. A introdução do D-Mark [marco alemão, moeda do lado ocidental] com a união monetária, no verão de 1990, foi decisiva para a união, mas em primeiro lugar foram perdidos um grande número de postos de trabalho industriais na Alemanha Oriental.

Com a moeda conversível tudo se podia comprar, dali em diante, mas era preciso ser competitivo. Os mercados na Europa e no mundo já eram disputados, e não foi fácil para todos os setores da antiga RDA conquistarem novas fatias.

Foi ainda mais difícil do que imaginávamos em 1990, apesar de alguns setores da antiga RDA terem progredido de forma positiva, e outros não. Também temos de levar em conta que todas as grandes empresas alemãs tradicionais transferiram suas sedes para o lado ocidental na época da separação, depois da Segunda Guerra Mundial. E nenhuma delas, após a reunificação, estava disposta a corrigir isso. Por essa razão ainda subsistem desvantagens estruturais no território da antiga RDA.

A renda média do trabalho ainda é muito diferente no Leste e no Oeste. Qual seria a melhor maneira de equilibrar isso?

Só é possível por meio de inovação e investimento. Por isso, à semelhança dos últimos 30 anos, deveríamos continuar a apostar na formação de polos de desenvolvimento tecnológico moderno, em cooperação com as universidades e centros de formação profissional, para colocar novos produtos e polos de inovação na Alemanha Oriental, aumentando dessa forma a sua produtividade.

A diferença nas respectivas rendas corresponde aproximadamente, ainda, à diferença na produtividade por hora de trabalho entre as duas partes da Alemanha.

Existe alguma estimativa sobre quantos anos ou décadas serão necessários para equiparar as condições de vida em toda a Alemanha? 

Como já disse, em parte as condições de vida já se equipararam. Existem no Leste da Alemanha regiões que prosperaram mais, economicamente, do que regiões mais fracas do Oeste. Mas, à semelhança de todos os outros países, também na Alemanha não teremos condições inteiramente equilibradas.

A herança traumática da Stasi [polícia política] no lado oriental pode ser considerada superada? Ou a prática extensiva de vigilância, colaboracionismo e delações deixa ainda cicatrizes dolorosas entre familiares, amigos e colegas de trabalho? 

Em alguns casos deixaram cicatrizes dolorosas, é claro. Mas na sua essência acho que esse problema já foi superado. 

A ultradireita atual parece obter mais apoio na parte Leste do país. Pode-se dizer que seja o subproduto de algum descontentamento com a desigualdade persistente, comparável talvez com um sentimento de inferioridade?

Que a ultradireita tenha no geral um pouco mais de apoio no Leste do que no Oeste da Alemanha tem a ver com o fato de que, naturalmente, nas regiões em que os problemas sociais são maiores, os partidos dos extremos do espectro político sempre têm um apoio mais forte.

Na realidade, o fortalecimento da extrema direita no Leste da Alemanha se deu em paralelo com o enfraquecimento da extrema esquerda, que aqui sempre foi forte.

Para o fortalecimento da extrema direita não só na Alemanha, mas em outros países europeus, também contribuíram as preocupações de um influxo demasiado alto de imigrantes provenientes de outros continentes. E as experiências vividas em toda a Europa confirmam que a resistência contra a imigração é maior onde existe menos experiência com pessoas de outras partes do mundo.

A queda do Muro de Berlim se tornou um símbolo mundial para a derrocada do socialismo. Hoje são algumas sociedades capitalistas que veem a necessidade, real ou ilusória, de erguer muros para separar pessoas —em Israel, nos Estados Unidos, nas fronteiras da Europa, em bairros ricos e pobres na América Latina. O que falta para derrubar os novos muros?

Creio que precisamos de uma maior compreensão, principalmente nas partes mais abastadas de nosso mundo, de que nós não teremos um bom futuro se as menos abastadas não progredirem —e que a solução não podem ser muros, mas maior desenvolvimento econômico e mais solidariedade.

Onde estava o sr. e o que fez em seguida ao receber a notícia da abertura do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989?

Eu estava com os líderes das bancadas parlamentares do Bundestag [Parlamento alemão-ocidental] numa reunião na Chancelaria, em Bonn. O assunto era como alojar os numerosos refugiados provenientes da RDA. Durante a reunião chegou a notícia que a RDA tinha anunciado a abertura das fronteiras.

E qual foi sua reação? 

Precisamos de alguns instantes para poder acreditar que a informação era correta. Fomos então juntos para o Bundestag e interrompemos o debate em curso para anunciar que um evento histórico estava ocorrendo. Foi uma noite de muita emoção.


Wolfgang Schäuble, 77
Nasceu em Friburgo, sudoeste da Alemanha. Estudou economia e direito nas universidades de Friburgo e Hamburgo. Deputado no Bundestag desde 1972 pela União Democrata-Cristã (CDU), foi chefe de gabinete do chanceler Helmut Kohl e ministro das pastas de Interior e de Finanças. Após a queda do Muro de Berlim, foi o principal negociador do tratado de reunificação. Hoje preside o Bundestag.

 
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