Descrição de chapéu Queda do Muro, 30

Muro de Berlim não teria caído sem protestos no Leste, dizem ativistas

Revolução contra a ditadura precedeu queda do muro, que faz 30 anos

Marcelo Leite
Berlim

Assim como Angela Merkel em Leipzig, Marianne Birthler, 71, era militante do movimento alemão-oriental por direitos civis que precedeu a queda do Muro, mas em Berlim. Filiada à esquerda democrática da Bündnis 90 (Liga 90), hoje aliada dos Verdes, ela considera a reunificação, “apesar de tudo, um sucesso”.

“Eu me tornei cidadã de um país livre”, comemora. “Meus filhos puderam fazer o vestibular alemão, o ‘Abitur’. Com uma mãe na oposição, isso não era possível.”

Seção ainda em pé no Memorial do Muro de Berlim, na Bernauer Strasse - Fabrizio Bensch/Reuters

Birthler critica, contudo, a visão que atribui toda a mudança à abertura do Muro de Berlim, em 9 de novembro, e obscurece a chamada Revolução Pacífica que a precedeu.

 

“Sem essa revolução não teria havido a queda do Muro. E sem a queda do Muro não haveria a reunificação alemã”, ressalva. “A liberdade veio porque as pessoas da Alemanha Oriental fizeram uma revolução contra a ditadura.”

​Exato um mês antes da queda do Muro, centenas de milhares de manifestantes tomaram as ruas, partindo das igrejas de São Nicolau, em Leipzig, e Gethsêmane, em Berlim. Desafiavam a violenta repressão infligida pela polícia socialista nos dias e semanas anteriores, mas ela não se repetiu.

Os manifestantes concluíram que a ditadura do partido SED estava à beira da rendição. “Era o dia 9 de outubro. Para as pessoas que participaram, essa data foi muito mais importante que o 9 de novembro”, relembra Birthler.

Essa foi a ordem correta dos fatos, concorda Wolfgang Thierse, alemão-oritenal que presidiu o Parlamento (Bundestag) pelo partido de centro-esquerda SPD. Primeiro, a ação dos alemães-orientais, depois a abertura do Muro, e só então o processo de reunificação.

Ambos atribuem a essa revolta democrática o fato de os arquivos secretos da Stasi, a polícia política do SED, ficarem abertos e permanecerem disponíveis para consulta das vítimas de perseguição.

“Queríamos fazer diferente de 1945, depois da ditadura nazista. Queríamos que as vítimas pudessem entender o que aconteceu, quem eram os responsáveis”, diz Thierse. “Foi um processo que impediu funcionários da polícia secreta de abusar do poder com as informações que tinham.”

​​Birthler, que por dez anos dirigiu a repartição encarregada de preservar e dar acesso aos arquivos, conta que os departamentos da Stasi foram ocupados pelos revoltosos e só por isso esses documentos foram preservados.

“Isso foi muito importante nos anos 1990, e nas décadas seguintes, para impedir que antigos delatores trabalhassem depois como professores ou políticos.”

Para o cientista político Max Freitag, a falta de reconhecimento do papel desempenhado por alemães-orientais leva água para o moinho da AfD: “Muitos eleitores se sentem perdidos no discurso alemão-ocidental, em que suas histórias de vida não são levadas em conta, ou em que, quando se fala de Alemanha Oriental, só se fala da Stasi, de como tudo era tão ruim”.


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