Após maré alta histórica, Veneza faz referendo sobre separação

Moradores defendem divisão de parte continental para enfrentar problemas específicos, como cruzeiros turísticos

Michele Oliveira
Veneza

A segunda maior enchente da história de Veneza já se desfez, mas os efeitos da “acqua alta”, como os italianos dizem, ainda afluem pela cidade. Eles podem ser pouco perceptíveis, como os danos da umidade e do sal, mas também se tornaram ruidosos, como a reação dos moradores contra políticos e turistas.

O caso mais frágil é o da Basílica de São Marcos, o ponto mais visitado da cidade, com 3,5 milhões de pessoas por ano. Erguida a partir do século 11, tem colunas de mármore e peças decorativas ainda mais antigas, levadas de Constantinopla (hoje Istambul) após a Quarta Cruzada, em 1204.

Dentro e fora do prédio, a lista de pontos prejudicados e protegidos por grades e tapetes cresceu. Logo na entrada, a base de uma coluna parece prestes a esfarelar. No interior, à direita, o piso decorado com um mosaico medieval com a figura de dois pavões estufou e perdeu pastilhas de cerca de 1 cm.

A cripta, que já é normalmente sem objetos, ficou inteira alagada. As bombas permanentes que ajudam a expelir a água não deram conta. Na capela Zen, tijolos foram acrescentados às pressas no muro de contenção perto da janela, mas a água acabou entrando por outra porta e atingiu 30 cm, fazendo soltar das paredes placas de revestimento.

“Esses são os danos imediatos, ocorridos sobre aqueles já deixados pelas inundações anteriores. Aquilo que vemos é o que continuará a acontecer, de forma cada vez mais exasperante”, conta Mario Piana, que há três anos coordena o trabalho de proteção da basílica. Segundo o arquiteto, o pior são os efeitos a longo prazo.

“Muitos danos não se manifestam imediatamente. Digo que a ‘acqua alta’ é como se uma pessoa recebesse dose de radiação maciça. No dia seguinte, não se vê nada, mas logo depois começa a perder o cabelo, em seguida começam a surgir problemas no sangue e assim progressivamente.”

Piana estava na basílica na noite de terça, 12 de novembro, quando a enchente histórica aconteceu. “Fizemos um plano de proteção pela manhã, porque a previsão era de maré alta controlável. Falava-se no máximo de 145 cm. Mas as condições foram piorando.”

Por volta das 23h, a maré atingiu 187 cm e avançou sobre Veneza, alagando quase todo o centro histórico. Duas pessoas morreram na ilha de Pellestrina. Foi a segunda maior marca desde os primeiros registros oficiais, dos anos 1920. A pior enchente ocorreu em 1966, com 194 cm.

Três condições causaram a inundação naquela noite de chuva e Lua cheia. Veneza estava no auge da maré de sizígia, quando a Terra fica entre a Lua e o Sol. Além disso, havia baixa pressão atmosférica, o que também eleva o nível da água. Por fim, o vento de Scirocco “empurrava” o mar Adriático para dentro da laguna. 

“Foi uma noite terrificante. Não foi só a subida da maré que nos assustou. Foi a força do vento que ajudou a criar esse desastre”, conta Stefano Stipitivich, diretor artístico do Caffè Florian, que em 2020 completa 300 anos de atividades na praça de São Marcos.

Lá dentro, a água ficou a 45 cm do chão e causou danos estimados em 200 mil euros (R$ 925 mil). Além dos sofás de veludo vermelho, o café perdeu máquinas de lavar e refrigerar, computadores e instalações elétricas. 

Para tentar preservar paredes e espelhos, os funcionários realagaram, no dia seguinte, os ambientes com água doce para remover o excesso de sal. Foram quatro dias fechados ao público, estimado em 500 mil pessoas por ano.

Stefano tem 68 anos e é veneziano, “nascido e crescido”, como frisa. Ele se lembra da inundação de 53 anos atrás e, como muitos moradores, espera desde os anos 1980 que a solução para as enchentes cada vez mais frequentes venha do projeto Mose (módulo experimental eletromecânico). 

A obra, aprovada em 2003, já custou cerca de 5,5 bilhões de euros (R$ 25,5 bi) à Itália. São barragens móveis instaladas na entrada da laguna que seriam acionadas para impedir inundações das marés altas. 

Se teria funcionado na noite de 12/11, ninguém sabe. Previsto para 2016, o projeto sofreu diversos atrasos, esteve no centro de um escândalo de corrupção e está prometido para 2021. Há quem diga que já está defasado. 

Dono de loja de cristais de Murano, Franco Zuffo, 65, lembra da inundação de 1966. “Nós, venezianos, estamos acostumados. Conhecemos a água e sabemos nos organizar. Mas, dessa vez, ninguém esperava uma água tão alta assim.” 

“Estava preparado para uma maré de 160 cm —até essa altura não me acontece nada. Mas os 27 cm a mais encheram e estragaram parte da loja. Foi muito rápido, a água subiu em menos de meia hora.”

Os estabelecimentos comerciais de Veneza, que ocupam a maior parte do térreo dos edifícios, estão preparados para a água: deixam o que é possível em prateleiras e usam barreiras nas portas para ajudar a conter o fluxo. Na loja de cristais, as tomadas também ficam elevadas, a 60 cm do chão.

Zuffo perdeu um ar-condicionado e bijuterias, estimados em 5.000 euros (R$ 23 mil), mais o prejuízo por deixar a loja fechada, deixando de faturar, segundo ele, 400 euros (R$ 1.850) diários. Na última quinta-feira, quase dez dias depois da inundação, ainda estava com as portas abaixadas.

“Acho que nada teria evitado. O Mose é a maior enganação da história. Nós, cidadãos, sabemos muito bem que ele não teria dado conta. Infelizmente, esse projeto foi uma escolha política errada”, diz. 

A enchente fez reacender em Veneza a discussão sobre as barragens e sobre a situação administrativa da cidade.

Veneza e Mestre, a porção em terra firme logo em frente, são um só município. Mas parte dos moradores defende a separação, com a justificativa de que cada uma tem problemas diferentes e que ambas estão sendo prejudicadas pela união. Anunciado em setembro, um referendo será realizado em 1º de dezembro.

A Basílica de São Marcos inundada, em Veneza - Elisa Lingria - 18.nov.19/Xinhua

​Veneza está em clima de eleições, com panfletagem e cartazes espalhados pelas ruas estreitas. O Movimento Venezia Autonoma defende a separação como meio de evitar que a cidade “vire uma Disneylândia” e tenha novos hotéis e para barrar a circulação de navios de cruzeiro.

Outro cartaz, do movimento Fridays for Future, pede que Veneza seja “salva” do Mose, dos cruzeiros, do prefeito atual e das mudanças climáticas, apontadas como causa das enchentes. Um ato está marcado para este domingo (24).

Os cruzeiros, considerados pelos moradores poluentes e predatórios, foram criticados inclusive pelo patriarca da cidade, a maior autoridade da Igreja Católica local.

Na missa que celebrou a festa da Madonna della Salute, no dia 21/11, importante feriado religioso veneziano, Francesco Moraglia começou falando da enchente e citou dois acidentes provocados por navios de cruzeiro em junho e julho deste ano, na laguna.

“A cidade que amamos não pode ser mais considerada como qualquer coisa de onde retirar só lucro. Deve oferecer trabalho e renda, especialmente aos habitantes, mas não pode ser considerada mercadoria à venda”, disse. “Esperemos que esse enésimo e grave alarme ressonado gerem efeitos concretos e positivos em todos, incluindo o mundo da política.”

Piana, o arquiteto restaurador da basílica de São Marcos, soa menos otimista. Ele defende a conclusão das obras do Mose, mas parece conformado com a progressão da fragilidade da igreja. “Alguns danos podem ser contidos, mas tudo acaba, cedo ou tarde. O importante é que acabe o mais tarde possível."

 
Erramos: o texto foi alterado

O arquiteto Mario Piana foi incorretamente identificado como restaurador da basílica de São Pedro, no Vaticano. Ele é, na verdade, responsável pelas obras de restauração da basílica de São Marcos, em Veneza. O texto foi corrigido.
 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.