Aposentados são símbolo da desigualdade no Chile

Grande parte ganha pouco mais da metade do salário mínimo

Patrícia Monteiro
Santiago

Assim como a maioria dos aposentados do Chile, Maria Luz Navarrete Alarcón precisa continuar trabalhando durante a velhice para pagar as contas e manter uma vida digna na casa onde mora, em Santiago, com os três filhos e uma neta.

Alarcón, 70, trabalhou por 30 anos como contadora no Instituto de Previsión Social, órgão do Ministério do Trabalho chileno, e sempre se posicionou contra o modelo de aposentadoria implementado no país em 1981, durante a ditadura militar de Augusto Pinochet.

As chamadas AFPs (Administradoras de Fundos de Pensão) gerenciam dinheiro dos contribuintes investindo no mercado financeiro. O sistema de aposentadoria chileno, baseado em capitalização, é um dos grandes pontos de insatisfação da população, que há semanas está nas ruas contra o governo do presidente Sebastián Piñera em uma das maiores crises no país dos últimos anos.

O conflito atual, impulsionado por um aumento na tarifa de metrô, leva jovens e idosos como Alarcón a se manifestarem e provocou uma resposta dura do presidente, que colocou o Exército para reprimir a população, algo que não acontecia desde o período do regime de Pinochet. 

Militante do movimento No+ AFP, ela trabalha hoje como zeladora em um edifício próximo à sua casa para complementar a renda e conseguir, entre outras coisas, terminar de pagar as prestações do imóvel, adquirido há 20 anos.

Por ter sido servidora pública e contribuído por mais tempo que o mínimo —20 anos—, sua aposentadoria, de 500 mil pesos (R$ 2.708), é considerada alta em relação ao que ganha a maioria, ainda que não seja suficiente. Com o trabalho de zeladoria, ela ganha mais 360 mil, somando um valor de R$ 4.660. 

Segundo a Fundação Sol, entidade que estuda e divulga dados relacionados a trabalho no Chile, 94% das mulheres chilenas aposentadas recebiam menos de 155 mil pesos chilenos (R$ 840) em 2016. Entre os homens, a taxa era de 87,5%.

Hoje, o salário mínimo é de aproximadamente 300 mil pesos chilenos (R$ 1.625). “Sou uma privilegiada em relação à bruta realidade da maioria. Mas vivo. A maioria subsiste.”

Alarcón luta contra uma depressão devido a uma artrose nos joelhos, que prejudica sua mobilidade e autonomia, além das dificuldades impostas pelo alto custo de vida chileno.

“É importante que as pessoas saibam que esse sistema não funciona. A AFP já me tirou tudo”, diz ela, mostrando um manequim que levava aos protestos, sem roupa, com o símbolo do No+ no peito. “Os donos das AFPs têm ganhos escandalosos [com a especulação financeira] e nós temos perdas”, diz ela.

Isso porque o sistema, além de impor uma contribuição obrigatória de 10% do salário a todos os trabalhadores, também vai sendo recalculado todos os anos, aumentando a expectativa de vida do trabalhador —e, por isso, diminuindo o valor que o aposentado recebe por mês.

“Temos que pagar comissões (para que as AFPs administrem o dinheiro) e calculam que vivemos 110 anos. Eu tive estabilidade e um bom cargo, mas minha pensão é 50% do que foi meu salário, e cai todo ano.” 

Mais do que um simples aumento na tarifa do metrô, o descontentamento da população chilena é fruto de uma sociedade extremamente desigual e onde todos os serviços —educação, transporte e saúde— são privatizados. 

Mesmo tendo uma alta renda per capita, de quase US$ 16 mil (R$ 67.140), a desigualdade social no Chile é muito grande e, segundo Alarcón, a qualidade de vida da maioria trabalhadora ainda é muito baixa.

“As pessoas são mal pagas, o transporte é caro e incômodo. As pessoas vivem na periferia e perdem horas no trajeto”, comenta ela, que, ao lado de sua neta e filhos, hoje acompanha a pé os protestos da sociedade chilena, já que mais de 40 estações de metrô foram danificadas pela revolta popular.

Apesar das dores e do cansaço, ela não perde as esperanças de um Chile menos desigual. 

“Ao longo dos anos temos sido ignorados, humilhados. Aprendemos a lição. Se com caos o governo ainda não entende o que queremos, teremos que incendiar o país.”


Aposentadorias no Chile

Tipo de sistema: capitalização. Trabalhadores depositam sua poupança em contas individuais e financiam sua própria aposentadoria.

Entidade pagadora: Administradoras de Fundos de Pensão (AFPs), que são entidades privadas.

Contribuição: Trabalhador colabora com 10% do seu salário. Patrões e o governo não contribuem.

Benefício: O valor pago para a maioria dos chilenos varia de 30% a 40% do salario mínimo no país, que é de 300 mil pesos chilenos (R$ 1.625).

Exceções: A partir de 2008, o governo criou um modelo de repartição em separado, financiado pelo Estado, para atender às pessoas abaixo do nível da pobreza.

Vantagem: Praticamente não há déficit previdenciário no Chile, já que só recebe quem poupa. Além disso, o dinheiro depositado nos fundos de pensão vai para a economia, estimulando crédito, investimentos e emprego.

Desvantagem: Boa parte dos aposentados recebe benefícios com os quais é impossível ter uma condição de vida digna. 

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