'As pessoas estavam aterrorizadas', conta moradora de Cochabamba

Região foi palco de um dos confrontos mais sangrentos na crise atual na Bolívia

Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)

Uma cidade em suspenso, acompanhando por transmissões ao vivo em redes sociais um dos enfrentamentos mais sangrentos dos conflitos recentes na Bolívia, ocorrendo a 18 quilômetros dali. Assim ficou Cochabamba, na Bolívia, onde na noite desta sexta ao menos oito pessoas morreram quando um grupo de cocaleiros apoiadores do ex-presidente Evo Morales se chocou com a polícia em uma ponte.

Familiar chora ao lado de caixão de manifestante morto em confronto com a polícia em Cochabamba
Familiar chora ao lado de caixão de manifestante morto em confronto com a polícia em Cochabamba - STR/AFP

Eles tentavam entrar na cidade e diziam que fariam um protesto pacífico. A polícia porém, afirma que eles estavam armados com escopetas e explosivos.

Moradora da cidade, a jornalista boliviana Fabíola Chambi, 36, disse que a população ficou aterrorizada. Ela é editora no jornal Los Tiempos, o maior da região, e deu seu depoimento à Folha:

"Digo com segurança que este foi o momento mais duro que vivemos na cidade desde que o conflito começou.

Naquele dia, as aulas voltaram depois de ficarem suspensas por duas semanas e vários negócios abriram, porque na véspera choveu e parecia que a tensão social tinha se aplacado. De repente, soubemos que viria esse grupo de cocaleiros para exigir a renúncia da presidente interina, Jeanine Añez, e respaldar Evo Morales. Eles estavam em Sacaba, a 15 minutos de Cochabamba.

Foi terrível. A forte presença policial e militar gerou muitíssima tensão, e quem estava ali não levava propriamente bandeiras brancas. Tinham pedras e armas, e há registro disso em diferentes vídeos. Era uma quantidade impressionante se aproximando.

As pessoas estavam aterrorizadas, pediam que a polícia não os deixasse entrar. Mais cedo a polícia fez uma revista exaustiva nessa estrada com todos os carros, por causa das denúncias de que há grupos subversivos de estrangeiros, sobretudo venezuelanos, cubanos e colombianos, que estariam operando na Bolívia. Às 17h30 aconteceu tudo. Já estive em três enfrentamentos, mas esse foi o mais complicado.

 

Eles diziam que querem expressar sua voz e ficou parecendo que foram reprimidos. Mas era uma contradição, pois, se fosse marcha pacífica, não viriam armados.

Houve dias em que Cochabamba parecia uma cidade fantasma. Estamos órfãos de um líder local, e até um tempo atrás um grupo de jovens assumiu a defesa da cidade diante da inoperância da polícia. Hoje tudo amanheceu mais calmo. Vários negócios abriram, até porque esse conflito causou uma depressão econômica na cidade, em que a economia gira em torno do comércio informal. Mas teve um momento de paranoia em que todos fecharam as lojas por causa de uma manifestação de outro grupo de camponeses pró-Evo Morales, protestavam pelas mortes ocorridas ontem. Não aconteceu nada, e eles têm direito de serem escutados sem serem reprimidos.

Essa polarização é insustentável. Nunca tinha visto as pessoas dessa forma, armando barricadas, ativando alarmes, se aliando a vizinhos para fazer vigilância e se preparar para um ataque. Você já não vive com tranquilidade. Isso pode gerar atos de racismo em relação às pessoas de outro lado. Vai ser muito difícil reconstruir um país dessa maneira."

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