Evo Morales sofreu ou não golpe? Especialistas em política opinam

Renúncia do agora ex-presidente boliviano levantou discussão se sua saída foi forçada

São Paulo

A renúncia de Evo Morales na Bolívia levantou uma discussão de se ele teria ou não sofrido um golpe de Estado. A Folha ouviu especialistas para saber o que pensam do assunto. 


Oliver Stuenkel
(professor de relações internacionais da FGV)
“A definição de um golpe de Estado é, a princípio, a derrubada de um governo por meios não democráticos. A questão chave é se a renúncia foi ou não forçada. Quando as Forças Armadas intervêm de forma direta, podemos falar, sim, de golpe, independentemente de entregarem o poder a civis. Em função da ordem cronológica dos eventos, parece ter sido o que aconteceu, ou seja, golpe. Isso não absolve Evo Morales, que tem clara inclinação autoritária. De fato, houve erosão democrática muito antes do domingo.”

Evo Morales deitado em local onde, segundo ele mesmo contou nas redes sociais, teria dormido na primeira noite após a renúncia
Evo Morales deitado em local onde, segundo ele mesmo contou nas redes sociais, teria dormido na primeira noite após a renúncia - Evo Morales no Twitter

Yascha Mounk
(cientista social e professor associado da universidade Johns Hopkins)
“Quando um número enorme de bolivianos vai às ruas protestar contra uma flagrante tentativa de roubar uma eleição e esse processo tem sucesso para tirar o ditador do governo, isso não é um golpe. Isso é, até onde se sabe, uma vitória para a democracia. Evo tem atacado as instituições democráticas há muito tempo. Na fase inicial de uma rápida mudança política, é difícil saber os detalhes da situação. Seria inaceitável se os militares assumissem o governo ou entrassem em ação em tempos de paz para derrubar um presidente. Pelo que observamos, eles só deixaram claro que não participariam da tentativa de reprimir os protestos. Dito isso, é muito importante ser vigilante quanto aos militares não tomarem um papel maior na política e quanto a organizar eleições livres e justas.”

Fernando Bizarro
(pesquisador do Centro de Estudos Latino-Americanos de Harvard)
“É óbvio que foi golpe. Na ciência política, a definição de golpe é a remoção inconstitucional do chefe de governo por atores de dentro do próprio governo. Nesse caso, não houve impeachment, ele foi forçado pelas Forças Armadas. Não é menos golpe porque o Exército não tomou o poder ou por Evo ter contrariado a constituição. Pode haver golpe contra líderes autoritários.” 

Rubens Barbosa
(ex-embaixador e presidente do Inst. de Relações Internacionais e Comércio Exterior)
“Não houve golpe nenhum. A renúncia foi resultado da insatisfação da população com as manobras anticonstitucionais de Evo Morales. Ele fez um referendo para mudar a Constituição, perdeu, reverteu isso no tribunal, cometeu fraude na eleição. O Exército não assumiu, não botou um militar no poder. Foi um processo parecido com o de outros países, como o Líbano: a população insatisfeita, principalmente os jovens.”

Maria Hermínia de Almeida
(pesquisadora do Cebrap - Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)
“Há uma zona cinzenta, mas Evo não terminou o mandato a dois meses do fim por pressão militar, e isso pode ser chamado de golpe. Na verdade, houve dois golpes. O primeiro foi quando Evo se candidatou e fraudou as eleições. O segundo, quando ele foi forçado a renunciar, porque tudo indica que ele foi.”

Fernando Schuler
(professor do Insper) 
“O que ocorreu foi uma solução problemática para um processo mais problemático ainda. É triste ver os militares exercendo poder de moderação novamente na América Latina. Mas houve anteriormente um processo de erosão das instituições. Na raiz da questão está a pretensão de Evo de permanência indefinida no poder. Quando há um movimento da sociedade contra um governo que quebrou as regras, ainda pode ser chamado de golpe? Está muito no calor dos acontecimentos para responder a essa pergunta. A história vai dizer."

Santiago Anria
(professor do Dickinson College e autor de livro sobre o partido de Evo Morales)
“Entendo que haja várias leituras porque houve diferenças em relação a outros golpes. Teve uma mobilização ampla da sociedade a favor da democracia, não foi só uma ação de militares, e eles não tomaram o poder. Mas quando as Forças Armadas intervêm com uma sugestão de que um governante abandone o poder, configura todas as fichas de um golpe. Isso não anula as irregularidades cometidas por Evo Morales. Tem que ver onde começa a cadeia de responsabilidades.”

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