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Três décadas após unificação, Alemanha discute vida pós-Merkel

Liderança construída pela chanceler permanece tão inabalável quanto o portão de Brandemburgo

Marcelo Leite
São Paulo

Em meio aos festejos pelo 30º aniversário da ruptura do Muro de Berlim, a Alemanha debate se a reunificação foi mesmo um sucesso e se a liderança construída por Angela Merkel na Europa e no mundo permanece tão inabalável quanto o portão de Brandemburgo.

A chanceler de origem alemã-oriental que governa a quarta potência mundial há 14 anos anunciou aposentadoria para as eleições de 2021.

Seu período de estabilidade teve três marcas sobre as quais agora pairam dúvidas: economia pujante, vanguardismo na questão do clima e ousadia na política de imigração.

A força da economia alemã se apoia em austeridade fiscal, disciplina que o país tanto contribuiu para impor à União Europeia, e competitividade da indústria manufatureira de exportação, automobilística à frente, pilares abalados por incertezas. O crescimento alemão contraiu-se até perto de zero. A estimativa para o PIB em 2019 é de 0,5%. Para 2020, o governo baixou a previsão de 1,5% para 1%.

Surgem pressões para relaxar o controle férreo sobre a despesa pública e aumentar o investimento em infraestrutura para reanimar a economia.

A exportação de manufaturados caiu 8% em 12 meses. A de automóveis, 17% em 2018. Ministros de Merkel culpam o cenário internacional—brexit e disputa comercial entre EUA e China— pelo retrocesso, mas há outras razões.

A chanceler de origem alemã-oriental Angela Merkel - AFP
O escândalo de montadoras como Volkswagen e Audi, que ocultaram emissões de poluentes de motores, abalou o prestígio do setor e lhe impôs multas bilionárias. A fixação dos fabricantes alemães com motores a diesel supostamente “limpos” os atrasou na adaptação à voga montante de veículos elétricos.

A imagem verde do país também entrou em crise quando ficou evidente que teria dificuldade para cumprir a meta ambiciosa de cortar 55% as emissões de carbono de 1990 até 2030. Após o desastre de Fukushima, a Alemanha anunciou a decisão de abandonar a energia nuclear, mas isso aumentou sua dependência do carvão mineral.

A economia alemã é a sexta maior emissora de carbono do mundo. Quase um terço da eletricidade ainda vem de termelétricas movidas a carvão (12,8%) e linhito (22,5%), um tipo inferior e ainda mais poluente do combustível fóssil.

Uma comissão apresentou em janeiro o plano de extinguir essa dependência fechando a última usina a carvão até 2038. Antes disso, em 2030, a meta é ter 65% da matriz energética alimentada por fontes renováveis e uma frota de 7 a 10 milhões de veículos elétricos abastecidos numa rede de 1 milhão de pontos de recarga.

Para chegar a tanto, a Alemanha recorrerá à precificação paulatina do carbono, começando em 2021 a 10 euros por tonelada de gás carbônico (CO2) emitido, inclusive nos setores de transportes e aquecimento predial, para chegar a 35 euros em 2025.

O governo oferece subsídio de até 40% para troca de sistemas de calefação.

Libertar-se do linhito, contudo, terá custo social e político. As maiores reservas estão localizadas no Leste, em território correspondente à antiga República Democrática Alemã (RDA), país socialista que deixou de existir em 1990.

O fechamento das minas agravará o desemprego ali, que já é maior (6,9%, contra 4,8% nos estados do Oeste e 5,2% na média do país).

Parece certa a intensificação do ressentimento de trabalhadores orientais desfavorecidos, que deploram o dispêndio de recursos públicos para acolher imigrantes. Eles tendem a votar no xenófobo AfD (Alternativa para a Alemanha, na sigla germânica).

A decisão de Merkel em 2015 de receber 1 milhão de refugiados é considerada a maior pedra no sapato que deixa para a sucessora na CDU, Annegret Kramp-Karrenbauer, ao lado dos desafios nas políticas econômica e ambiental.

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