Descrição de chapéu Queda do Muro, 30

Tínhamos medo de não ser verdade, conta guia turístico sobre Queda do Muro

Moradores da Alemanha Oriental contam ter demorado a criar coragem para visitar lado ocidental

Berlim

Jovens martelando o Muro de Berlim, outros bebendo até cair. Uma festa sem fim numa noite de incertezas, notas de boas-vindas de 100 marcos beijadas por oprimidos pobretões do lado comunista de um país artificialmente dividido.

Tudo isso aconteceu de uma maneira ou de outra a partir de 9 de novembro de 1989 na Alemanha, mas é apenas um recorte limitado e colorido da realidade que afetou os 16,11 milhões de habitantes da então República Democrática Alemã, o satélite soviético estabelecido em 1949.

O guia turístico Hans Jörg Wiegand, que foi diretor de escola na República Democrática Alemã, em Magdeburgo
O guia turístico Hans Jörg Wiegand, que foi diretor de escola na República Democrática Alemã, em Magdeburgo - Igor Gielow/Folhapress

“O que tínhamos era medo de aquilo não ser verdade ou poder ser revertido a qualquer momento”, lembra Hans Jörg Wieland, um guia turístico de 72 anos ativo em Magdeburgo, capital do antigo estado oriental da Saxônia-Anhalt.

A vida, afinal, era uma versão bastante próxima do visto no roteiro do vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro “A Vida dos Outros” (Florian Henckel von Donnersmarck, 2006). Ou seja, uma constante vigilância da polícia política, a temida Stasi, de cada detalhe cotidiano. “Não sabíamos quem estava vendo nosso movimento”, conta.

Com efeito, ele levou duas semanas para tomar coragem e visitar Berlim Ocidental. “Visitei meus sogros em Potsdam e de lá, fomos eu e minha mulher a pé até o portão de Brandemburgo. Ganhamos 100 marcos cada um na chegada. Era surreal”, conta.

Wieland era professor de inglês e chegou a diretor de um colégio em Magdeburgo. Em uma ocasião, visitou o País de Gales com alunos, num programa de intercâmbio, o que levanta a suspeita mais tarde entre outros alemães do grupo com que conversava de que ele mesmo poderia ser uma pessoa ligada à Stasi.

Questionado, ele nega. “A gente tinha de se fazer de rabanete. Vermelho por fora, branco por dentro. Fiquei surpreso em saber quantos na minha escola eram da polícia. Quando o regime começou a cair, no fim de 1989, eles sumiram, foram para o campo, para outras cidades”, diz.

Ele não sente nostalgia, algo que muitas pessoas mais velhas atestam nas cidades do antigo leste. “Eu entendo, a vida era mais previsível, havia emprego ruim para todo mundo. Às vezes, até coisas boas”, diz ele, sorridente.

A falta de referência atingiu Christine Voegel, moradora de Erfurt que hoje tem uma loja de produtos orgânicos no centro da cidade —que registrou, com Leipzig, os primeiros grandes protestos por mudança de regime na Alemanha Oriental em 1989.

“Eu tinha dez anos e minha mãe dizia que devíamos esperar”, lembra. “De repente, umas duas semanas depois da queda do muro, vimos um grupo de alemães vestidos com jaquetas de couro passando na nossa rua, acenando para a gente. Era verdade”, conta.

História semelhante é relatada por um ex-soldado soviético postado em Rathenau, perto de Berlim, literalmente naquilo que seria o primeiro ponto de confronto entre soviéticos e americanos caso a Guerra Fria se tornasse quente.

“Não soubemos de nada. Duas semanas depois, vimos jovens ocidentais em motos Harley-Davidson passeando pelas ruas, passando perto do quartel”, conta Alexander Kessel, que tinha 19 anos e pilotava um então moderno tanque T-80 na unidade, que tinha cerca de 2.000 homens.

Hoje Kessel é um cineasta bem-sucedido na Rússia, tendo produzido a primeira série do país a ser comprada pelo serviço de streaming Netflix, a ficção científica sobre robôs “Melhor que Humanos”.

“A vida na Alemanha Oriental era bem melhor do que na União Soviética, mas nada parecida com o que se via do lado ocidental. Parecia haver de tudo lá”, conta ele, que foi embora com seu regimento em 1990, após a reunificação.

A perspectiva não só de maior liberdade, mas de acesso a bens de consumo de qualidade foi um dos fatores que estimularam o jovem Peter Barsch a virar uma lenda entre os fugitivos do lado oriental.Aos 16 anos, em 1972, ele pegou o trem urbano que ligava as duas Berlim com um amigo e decidiu ir até o fim da linha, no lado ocidental.

“Obviamente, no final só tinha a gente e uns soldados que iam ficar na fronteira no vagão. Fomos presos imediatamente”, conta, rindo, numa conversa patrocinada pelo governo alemão com jornalistas estrangeiros em Berlim.

Menos engraçados foram os dois anos de cadeia que pegou. “Decidi que iria embora, para Paris”, disse. “Eu passava os dias olhando, da escola, para a outra margem do Spree [rio que corta Berlim]. Uma amiga minha que estava grávida era nadadora e disse para tentarmos atravessar.”

Incrédulo, ele topou o desafio e ambos nadaram, numa noite de 1978, para a liberdade. “Não foi fácil. Você paga algo para ser livre, sente falta das pessoas.” Ele foi para a França e, depois, para os EUA.

Casado e trabalhando em projetos de manutenção, ele estava na Califórnia quando viu o muro cair pela TV. “Eu chorava sem parar”, contou.

Depois de algumas visitas, voltou à capital alemã há sete anos. “Ainda não é um país unificado, há diferenças óbvias, mas é melhor do que quando havia um muro.”

O jornalista viajou a convite do governo alemão

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