Com big data, político de centro corre risco de sumir, afirma especialista

Para Giuliano Da Empoli, moderados têm de se adaptar à política de dados para triunfar

São Paulo

No novo mundo do tecnopopulismo nacionalista, os políticos de centro correm o risco de entrar em extinção. Se não se adaptarem às campanhas que usam big data e insistirem em mensagens mornas, que não despertam emoção nos eleitores, os moderados dificilmente conseguirão derrotar os populistas.

Esse é o recado do jornalista franco-italiano Giuliano Da Empoli, autor de “Os Engenheiros do Caos: Como as Fake News, as Teorias da Conspiração e os Algoritmos Estão Sendo Utilizados para Disseminar Ódio, Medo e Influenciar Eleições”, recém-lançado no Brasil pela editora Vestígio.

Por trás de líderes como Matteo Salvini, Donald Trump, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán, Nigel Farage e Beppe Grillo, há marqueteiros, chamados por Empoli de engenheiros do caos, que entenderam que “o populismo é filho do casamento entre a cólera e os algoritmos”.

“Mesmo que esses líderes e movimentos pareçam absurdos e digam despautérios, é importante entender que há uma lógica e um grande esforço tecnológico por trás”, disse Empoli à Folha.

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Giuliano Da Empoli, autor de livro sobre big data na política - Brigitte Baudesson

O próprio modo de funcionamento das redes sociais faz com que políticos —e ideias— moderados não sejam populares hoje em dia. Na política velha guarda, quem quisesse atingir o maior número de eleitores tinha de recorrer a mensagens moderadas, com ideias que pudessem ser abraçadas pela maior parte das pessoas.

No tecnopopulismo, o jogo é outro. O objetivo passa a ser identificar os temas que são importantes para cada um, e explorá-los em campanhas de comunicação individualizadas, explica o autor. “Se o cruzamento de dados nos diz que uma pessoa é particularmente sensível ao tema da segurança, será possível enviar a ela mensagens adaptadas (pelo Facebook, por exemplo), enfatizando o rigor de uns ou a covardia de outros sem que o grande público e as mídias saibam.”

Como define Empoli, não se trata mais de “unir eleitores em torno do denominador comum, mas, ao contrário, de inflamar as paixões do maior número possível de grupelhos para, em seguida, adicioná-los —mesmo à revelia deles”.

Enquanto a velha política marginalizava os extremistas, afirma Empoli, a política movida a dados valoriza esses elementos marginais. “Para conquistar uma maioria, não se deve mais convergir para o centro, mas adicionar os extremos.”

Empoli relata como Trump, nas eleições de 2016, explorou de forma magistral as possibilidades de usar os dados das pessoas para segmentar mensagens. A equipe de Trump testou 5,9 milhões de mensagens diferentes no Facebook, diante de 66 mil de Hillary Clinton.

Trump não usou as mensagens apenas para empolgar segmentos específicos do seu eleitorado, mas também para suprimir votos de democratas, desestimulando-os de irem às urnas (o voto não é obrigatório nos EUA).

“Os candidatos tradicionais, moderados, perderam o bonde dos avanços tecnológicos e também a capacidade de proporcionar emoções ou diversão a seus eleitores”, diz.

Todo esse avanço tecnológico, obviamente, não seria suficiente se os nacionalistas-populistas não tivessem captado o espírito do tempo.

A crise financeira de 2008 e seus efeitos duradouros, a sensação de que a globalização beneficiou apenas alguns poucos, o ressentimento contra elites que impõem visões politicamente corretas e abraçam imigrantes que disputam postos de trabalho —tudo isso se uniu em um sentimento anti-establishment e antipolíticos tradicionais que foi maximizado pelas redes sociais.

Segundo o autor, os engenheiros do caos compreenderam antes dos outros “que a raiva era uma fonte de energia colossal e que era possível explorá-la para realizar qualquer objetivo, a partir do momento em que se decifrassem os códigos e se dominasse a tecnologia”.

“Quando Bolsonaro diz uma coisa que é factualmente falsa e todo mundo começa a corrigi-lo, ele consegue atingir pelo menos quatro objetivos: o primeiro é que todo mundo está falando sobre o que ele está falando, e não sobre o que outros estão; o segundo é que ele mostra que não é parte do establishment, é algo diferente; o terceiro é que ele demonstra liderança, ao moldar sua própria realidade com sua vontade política, e o quarto é que une a tribo das pessoas que acreditam nessas fake news, e isso une as tribos muito mais do que notícias verdadeiras”, diz Empoli.

“Mas combate ou correção de fake news não pode ser discurso político. É importante ter seu próprio discurso e não ir atrás dos nacionalistas populistas e cair na armadilha deles.”

A nova tecnopolítica veio para ficar, mesmo que populistas percam eleições ou saiam de cena, diz Empoli. “Quando os líderes atuais saírem de moda, é pouco provável que os eleitores, acostumados às drogas fortes do nacional-populismo, peçam a camomila dos partidos tradicionais. A demanda será por algo novo e talvez ainda mais forte.”

Mesmo assim, declara, a história mostra que é possível derrotar populistas. O melhor exemplo, para ele, é o ex-presidente americano Franklin Delano Roosevelt (1933-1945). Governando durante e após a Grande Depressão, viu-se pressionado por populistas de direita e de esquerda, que cobravam medidas demagógicas e radicais.

Moderado, Roosevelt adotou as novas tecnologias —na época, o rádio— para se comunicar com os eleitores e transmitir sua visão. Ao promover a transmissão de suas “conversas ao pé da lareira”, criava intimidade com os ouvintes, que chamava de meus amigos, e inaugurava uma forma de comunicação política.

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