Grevistas fazem cortes de energia para forçar Macron a cancelar reforma da Previdência

Ao menos 150 mil casas foram afetadas na França, além de empresas, hospitais e shoppings

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Paris | Reuters

Os sindicatos na França passaram a cortar o fornecimento de energia de milhares de casas, empresas e até do Banco da França para tentar forçar o governo a cancelar o projeto de reforma da Previdência. A administração diz que não voltará atrás, mas declarou estar disposta a discutir melhorias no projeto.

Os cortes de energia, que atingiram ao menos 150 mil casas, ampliaram a sensação de caos no país, que vive a segunda semana de greve nacional que paralisa os transportes, fecha escolas e já levou mais de 500 mil pessoas às ruas para protestar contra a reforma proposta pelo governo de Emmanuel Macron.

Homens vestidos com roupas de bombeiro protestam em Paris - Bertrand Guay - 17.dez.2019/AFP

"Houve cortes [de energia] a grandes empresas, prefeituras, centros comerciais, clínicas, quartéis dos bombeiros. Isso está muito longe do modo normal de fazer greve", questionou Elisabeth Borne, ministra dos Transportes. 

Perguntado por uma rádio se os cortes elétricos, ilegais por lei da França, eram uma ação que passava dos limites, Philippe Martinez, líder do sindicato CGT, disse que a medida é necessária para forçar Macron a recuar. "São cortes direcionados. Você entenderá que cuspir no serviço público pode deixar alguns de nós nervosos."

Seus comentários coincidiram com um comunicado no qual o gabinete de Macron disse que o presidente descartou abandonar seus planos de reforma, mas que está disposto a oferecer melhorias em conversas com os sindicatos antes de um novo dia de tratativas entre seu primeiro-ministro, Édouard Philippe, e líderes sindicais.

Após um encontro com oficiais do governo nesta quarta, Martinez deu sinais de que novos cortes podem ocorrer. O líder do sindicato moderado CFDT afirmou que o governo mostrou mais abertura durante a reunião, mas que um acordo ainda está longe de ocorrer. 

Macron condenou os blecautes "com os termos mais fortes" durante um encontro de seu gabinete, um porta-voz do governo afirmou.

Há poucos dias, o presidente teve um revés: a renúncia de Jean-Paul Delevoye, responsável por redigir a reforma, que deixou o cargo após denúncias de conflitos de interesse.

A proposta de Macron foi apresentada na semana passada. O governo francês deseja unificar os 42 esquemas de aposentadoria existentes no país em um único sistema de pontos, de modo a eliminar vantagens de alguns setores, como enfermeiros e ferroviários. 

O governo fez concessões aos manifestantes e propôs que a reforma não seja aplicada aos franceses nascidos antes de 1975. Trabalhadores das forças de segurança, como os policiais, manterão o direito de se aposentar antes. Ele disse também que apenas as pessoas que entrarem no mercado de trabalho a partir de 2022 terão de seguir todas as novas regras. 

Apesar das concessões, os protestos continuam e ameaçam causar transtornos durante as viagens de fim de ano. Os sindicatos descartaram fazer uma pausa nos protestos nesta época do ano. 

Segundo o jornal Le Parisien, as lojas do centro de Paris registram queda de 30% nas vendas, em plena época de Natal. Nos hotéis, entre 30% e 50% das reservas foram canceladas nas primeiras semanas de dezembro.

Os cortes de energia são uma antiga tática sindical que começou na virada do século anterior e foi usada após a Segunda Guerra Mundial, mas caiu em desuso mais tarde devido aos temores de uma reação pública, disse Stephane Sirot, historiador da universidade Cergy-Pontoise.

"Nos anos 90, a maioria foi deixada de lado porque alguns membros do sindicato estavam preocupados com a possibilidade de transformar a opinião pública contra eles", disse Sirot à Reuters. "Então eles adotaram outros métodos, como cortes apenas em casas da elite."


ENTENDA A REFORMA DA PREVIDÊNCIA NA FRANÇA

Um fundo para todos 
Os 42 fundos de pensão administrados de forma independente serão fundidos em um único, com regras iguais para todos. Atualmente, se uma pessoa contribui para mais de um fundo, ela recebe mais de uma pensão. Sob a proposta, isso não será possível.

Fim de regimes especiais 
O projeto acaba com regimes especiais de ferroviários, militares e bailarinos da Ópera de Paris, por exemplo. Esses funcionários públicos conseguem se aposentar antes dos 60 anos e recebem pensões maiores.

Sistema de pontuação 
A ideia é adotar um sistema de pontuação no qual cada dez euros contribuídos equivalem a um ponto. Serão concedidos pontos bônus em casos excepcionais, como licença-maternidade.

Pela nova proposta, quanto mais anos um trabalhador ficar no mercado, mais pontos ele acumula, e maior será sua pensão. Quem trabalhar até os 64 anos, independentemente dos pontos obtidos, terá pensão mínima de mil euros.

Quem trabalhar além dessa idade pontua mais: aos 65, ganhará 5% a mais de pontos por ano; aos 66, mais 10%, e assim por diante.

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