Morta em terremoto, Zilda Arns deixou herdeiros do trabalho social no Haiti

Pastoral da Criança, fundada pela médica, acompanha cerca de 5.400 crianças no país

Curitiba

“A impressão era de que o terremoto tinha sido no dia anterior”, resume a assessora da Pastoral da Criança Internacional, Lady Anne Cardoso, sobre a impressão que teve do Haiti durante sua última visita à região, em 2019.

Ligada à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), a instituição brasileira promove ações preventivas de saúde e nutrição e atividades de educação e cidadania para crianças de zero a seis anos. Hoje, a Pastoral acompanha cerca de 5.400 delas no país caribenho.

Cardoso é uma das várias herdeiras do trabalho da médica pediatra e sanitarista Zilda Arns. Fundadora da Pastoral, ela morreu há exatamente dez anos, vítima de um dos terremotos no Haiti, enquanto
participava de um evento católico na capital, Porto Príncipe, e acertava detalhes para o início da atuação do órgão no local.

Zilda Arns, lider da Pastoral da Criança que morreu em um terremoto - Juca Varella - 03.abr.02 / Folhapress

“Não há substituto [para Zilda], ela fazia muita questão de que a obra continuasse independente dela”, conta o filho, Nelson Arns Neumann, coordenador internacional da Pastoral.

Entre os líderes de comunidades —que coordenam as ações em cada estado brasileiro—, Zilda também havia deixado o recado antes da missão haitiana, como lembra Maria Goretti Krieger, na instituição desde 1991. “Ela dizia: ‘a responsabilidade é tua, mas pode delegar funções a outras pessoas’. A missão continuou porque ela soube semear”, diz.

Desde a morte da precursora, a Pastoral da Criança praticamente dobrou o número de atendimentos no exterior. Ao todo, são 26.200 crianças atualmente acompanhadas em dez países da África, Ásia, América Latina e Caribe. 

No Haiti, ressalta Cardoso, há muito o que se fazer. Na missão no ano passado, ela se deparou com problemas básicos, como falta de água e de acesso aos serviços de saúde.

Ainda guarda na memória a cena de uma criança comendo uma sacola plástica. “Eu puxava a sacola e ela puxava de volta porque estava realmente com fome”, relata. Outra mãe contou à assessora que dava água com sal para o filho sentir sede ao invés de fome durante a noite.

A visita ocorreu em meio aos protestos contra o presidente do país, Jovenel Moïse. A situação gerou desabastecimento na região, o que assustou Cardoso, que não sabia se conseguiria voltar para casa. Para chegar ao aeroporto, os voluntários da capital doaram combustível e ajudaram a comitiva a ultrapassar as dezenas de barricadas no caminho.

“Diante daquela realidade, entendi a necessidade da doutora Zilda em ir [ao Haiti]. Aí você entende que a missão é isso. Entende porque ela se empenhou tanto e porque a missão da Pastoral é tão importante para tantas famílias”, resume a líder, que começou na entidade aos 15 anos, acompanhando o trabalho da mãe como voluntária no Pará.

Já no Brasil, a Pastoral teve a atuação enxugada desde 2010. Os voluntários diminuíram pela metade, chegando a cerca de 137.300 no ano passado. O número de crianças cadastradas passou de 1,5 milhão para perto de 836 mil. 

Os dados, como aponta Neumann, refletem a nova realidade das famílias do país, que diminuíram a quantidade de filhos, por exemplo, mas também decorrem da sistematização das informações pela própria entidade. “Hoje a gente acompanha os dados de atendimento de cada criança e cada voluntário inclusive via aplicativo de celular. Antes, era tudo oral”, explica.

Os desafios, ele conta, também ficaram mais complexos. Enquanto  nos primeiros anos a Pastoral se preocupava principalmente com a desnutrição infantil, hoje a obesidade é um dos problemas a se combater. Doenças consideradas extintas, como sarampo, também retornaram aos manuais de atendimento dos voluntários.

“Tínhamos 19 cartelas de orientação, hoje são mais de 750. Ou seja, o que era fácil, como ensinar o soro caseiro, passou. Hoje, é muito mais complexo trabalhar os vários aspectos de desenvolvimento da criança”, resume Arns.

Para Goretti, outro desafio enfrentado na base é o crescimento do número de famílias nas periferias das cidades. “Também é difícil achar a mãe em casa, porque está no trabalho, a criança está na creche ou na casa de outro”, aponta.

Para os coordenadores, essa nova realidade gerou ainda um maior isolamento das pessoas, o que mudou a abordagem da Pastoral. “Como as famílias estão só dentro de casa, o problema do vizinho, que todo mundo via e se unia para ajudar, acaba sendo uma surpresa”, diz Neumann.

Pastoral nasceu para combater mortalidade infantil no Brasil

A Pastoral da Criança nasceu em 1983, em Florestópolis, norte do Paraná, como projeto-piloto para um difícil desafio da época: combater a mortalidade infantil no Brasil, que chegava a 69,1 mortes de crianças com menos de um ano de vida para cada 1.000 nascidos.

As medidas, idealizadas pela médica Zilda Arns, eram simples: acompanhamento domiciliar de gestantes e filhos nas comunidades mais distantes, distribuição de suplementos alimentares naturais, como
farinha com casca de ovo, e do soro caseiro para combater diarreias.

Em pouco tempo, com a criação de uma rede de voluntários, a atividade da Pastoral —hoje com sede em Curitiba— se expandiu para todos os estados brasileiros, chegando a milhões de famílias atendidas.

Em 2007, Zilda deixou a direção nacional para se dedicar à atuação da entidade em outros países. Reconhecida, recebeu vários títulos, como o Prêmio Woodrow Wilson de Serviços Públicos (2007) e o de Heroína de Saúde Pública das Américas (2002), da Organização Pan-Americana da Saúde. Sua obra foi indicada três vezes ao Nobel da Paz, assim como ela própria, postumamente, em 2011.

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