Descrição de chapéu The New York Times

Quem foi Qassim Suleimani, general iraniano morto pelos EUA

Mestre da intriga do Irã, ele construiu um eixo de poder xiita no Oriente Médio

Tim Arango Ronen Bergman Ben Hubbard
Nova York | The New York Times

Ele mudou o formato da guerra civil síria e reforçou o controle do Irã sobre o Iraque. Esteve por trás de centenas de mortes americanas no Iraque e de ondas de ataques de milícias contra Israel. E durante duas décadas todos os seus gestos acenderam as redes de comunicações —e alimentaram as obsessões— de agentes de inteligência em todo o Oriente Médio.

Na sexta-feira (3), o major-general Qassim Suleimani, o poderoso e sombrio mestre de espionagem de 62 anos, chefe da máquina de segurança do Irã, foi morto por um ataque de drone dos Estados Unidos perto do aeroporto de Bagdá.

Assim como suas realizações moldaram a criação de um eixo de influência xiita em todo o Oriente Médio, com o Irã no centro, é provável que sua morte seja central para um novo capítulo de tensão geopolítica em toda a região.

Suleimani estava na vanguarda da geração revolucionária do Irã, juntando-se à Guarda Revolucionária do país aos 20 e poucos anos, após o levante de 1979 que consagrou a teocracia xiita do país.

Ele subiu rapidamente durante a brutal guerra Irã-Iraque nos anos 1980. E desde 1998 foi o chefe da influente Força Quds da Guarda Revolucionária, o braço voltado para o exterior do aparelho de segurança do Irã, fundindo o trabalho de inteligência com uma estratégia militar de fomentar forças substitutas em todo o mundo.

 
Manifestante protesta contra morte de Qassim Suleimani - Nazanin Tabatabaee/West Asia News Agency/Reuters

No Ocidente, ele era considerado uma força clandestina por trás da campanha iraniana de terrorismo internacional. Ele e outras autoridades iranianas foram designados terroristas pelos Estados Unidos e por Israel em 2011, acusados de uma conspiração para matar o embaixador da Arábia Saudita, um dos principais inimigos regionais do Irã, em Washington. No ano passado, em abril, toda a Força Quds foi listada como grupo terrorista estrangeiro pelo governo Trump.

Mas no Irã muitos o viam como um grande herói, principalmente nos círculos de segurança. Histórias sobre seu ascetismo e carisma silencioso se somaram para criar uma imagem de um guerreiro-filósofo que se tornou a espinha dorsal da defesa de uma nação contra uma série de inimigos.

Ele era próximo do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, que na sexta-feira divulgou uma declaração pedindo três dias de luto público e "vingança obrigatória", o que significou uma ameaça de retaliação contra os Estados Unidos.

"Sua partida para Deus não termina seu caminho ou sua missão", disse o aiatolá.

Os primeiros anos do mandato de Suleimani, no final dos anos 1990, foram dedicados a dirigir o grupo militante Hizbollah contra a ocupação militar israelense no sul do Líbano. Suleimani, juntamente com o comandante militar do Hizbollah, Imad Mugniyah, conduziu uma sofisticada campanha de guerrilha, combinando emboscadas, bombas em estradas, homens-bomba, assassinatos de autoridades israelenses e ataques a postos de defesa israelenses.

Afinal, o preço para Israel foi alto demais, e em maio de 2000 o país se retirou do Líbano, marcando uma grande vitória para Suleimani, sua Força Quds e o Hizbollah.

A Primavera Árabe no Oriente Médio e, posteriormente, a luta contra o Estado Islâmico, transformaram Suleimani de uma figura obscura em importante ator na geopolítica regional, disse Tamir Pardo, ex-chefe do serviço de inteligência israelense, Mossad.

"A vida profissional de Suleimani pode ser dividida em dois períodos", afirmou. "Até a Primavera Árabe, ele comanda uma força que tem filiais em várias partes do mundo, ativas principalmente na Síria, Líbano e Iraque, mas no fim das contas é uma organização operacional secreta cujo principal objetivo é o terrorismo."

"Do choque que ocorreu no Oriente Médio após a ascensão do EI, ele muda de rumo", continuou Pardo. "Torna-se um grande protagonista regional, sabendo com grande talento explorar a infraestrutura secreta que estabeleceu há tantos anos para alcançar objetivos não secretos —lutar, vencer, estabelecer presença."

Nos últimos anos, o homem cujo rosto raramente foi visto tornou-se o rosto das operações estrangeiras do Irã.

Na Síria, ele supervisionou uma enorme operação de apoio ao governo do presidente Bashar Assad, cujas tropas haviam sido esgotadas por deserções generalizadas e ferozes lutas com rebeldes que tentavam derrubar o governo desde 2011. Seu domínio da língua árabe ajudou a tranquilizar os comandantes locais enquanto ele os unia em uma rede de suporte a Assad.

Ao longo de vários anos, agentes iranianos guiados por Suleimani recrutaram combatentes de milícias de países —incluindo Iraque, Afeganistão e Paquistão— que foram transportados de avião para a Síria para apoiar as forças de Assad em batalhas importantes.

Muitos desses milicianos receberam treinamento em bases militares no Irã ou na Síria por agentes libaneses do Hizbollah, organização que Suleimani ajudou a desenvolver ao longo dos anos.

Quando as forças iranianas e apoiadas pelo Irã se tornaram grandes combatentes contra o EI, depois que o grupo dominou cerca de um terço do Iraque em 2014, fotos de Suleimani, muitas vezes feitas no campo de batalha e de uniforme, começaram a ser amplamente divulgadas nas redes sociais. A publicidade gerou rumores de que Suleimani estava tentando ampliar sua fama para uma possível disputa pela presidência do Irã; ele os negou, dizendo que sempre se considerou apenas um soldado.

Esse conflito, de 2014 a 2017, foi um caso raro do Irã e dos Estados Unidos lutarem nominalmente no mesmo lado. Em várias ocasiões, os americanos atacavam pelo ar alvos do Estado Islâmico, enquanto Suleimani dirigia forças terrestres contra os militantes.

Governos anteriores dos EUA resistiram a atacar Suleimani diretamente, por causa de preocupações operacionais ou por medo de que matá-lo pudesse desestabilizar ainda mais a região e levar a uma guerra total entre os Estados Unidos e o Irã.

Pelo menos uma vez, porém, autoridades israelenses assumiram a possibilidade de atacá-lo em sua estrutura de comando. Foi em fevereiro de 2008, quando agentes de inteligência israelenses e americanos estavam rastreando Mugniyah, o comandante do Hizbollah, na esperança de matá-lo, segundo oficiais de inteligência graduados americanos e israelenses. As operações avistaram o comandante do Hizbollah conversando com outro homem, que eles rapidamente determinaram ser Suleimani.

Suleimani em Teerã, em 2016. O major-general ajudou a consolidar o poder de xiita na região
Suleimani em Teerã, em 2016. O major-general ajudou a consolidar o poder de xiita na região - Divulgação/New York Times

Animados com a possibilidade de matar dois arqui-inimigos de uma só vez, os israelenses telefonaram para autoridades graduadas. Mas o primeiro-ministro Ehud Olmert negou o pedido, pois havia prometido aos americanos que apenas Mugniyah seria alvejado na operação.

Talvez mais que qualquer outro indivíduo, Suleimani foi a base para os planos americanos no Iraque, que, como o Irã, é predominantemente xiita.

Depois que os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003, milicianos iranianos e seus aliados iraquianos travaram uma guerra clandestina contra as tropas americanas, lançando foguetes contra bases e atacando comboios. As milícias também tiveram um papel importante ao inflamar as tensões sectárias que causaram a guerra civil no Iraque em 2006 e 2007, entre xiitas e sunitas, levando o presidente George W. Bush a ordenar um aumento de tropas no país.

Suleimani e outros líderes de sua geração foram moldados pela brutal guerra entre o Irã e o Iraque na década de 1980, um conflito tão cruel, com guerra de trincheiras e armas químicas, que alguns compararam com a devastação da Primeira Guerra Mundial. Quase 1 milhão de pessoas morreram dos dois lados, e Suleimani passou grande parte dessa guerra nas linhas de frente.

Para ele e seus companheiros soldados, a guerra foi um momento "nunca mais". Garantir que o Iraque fosse fraco e incapaz de representar novamente uma ameaça ao Irã tornou-se o principal objetivo da política iraniana em relação ao Iraque após a derrubada de Saddam Hussein, a quem os Estados Unidos apoiaram durante sua guerra com o Irã na década de 1980.

Durante anos após a invasão do Iraque pelos EUA em 2003, o Irã criticou o que via como uma agressão dos EUA na região, preocupado que os Estados Unidos voltassem sua atenção para a mudança de regime no Irã depois da queda de Hussein.

As autoridades americanas culparam o Irã por matar centenas de seus soldados durante a guerra, muitos deles com bombas sofisticadas de carga modelada que conseguiam atravessar veículos blindados.

Enquanto os Estados Unidos tentavam negociar um acordo com o Iraque para permitir que as forças americanas permanecessem no país após o prazo de 2011, foi Suleimani quem implacavelmente pressionou as autoridades iraquianas a se recusarem a assinar, usando uma mistura de ameaças e a promessa de mais recursos financeiros e ajuda militar, segundo autoridades americanas e iraquianas.

Sob suas ordens, as equipes de engenharia iraquianas começaram em 2014 a construir uma estrada para suprimentos e milicianos iranianos, um pequeno pedaço do que talvez fosse o projeto mais importante do general: estabelecer uma rota terrestre de Teerã para o Mediterrâneo, do Iraque e da Síria para o Líbano, onde o Irã há muito tempo apoia o Hizbollah, uma ameaça primária a Israel.

Qassim Suleimani nasceu em 1957 em Rabor, no leste do Irã, e depois se mudou para a cidade de Kerman. Ele era filho de um fazendeiro e começou a trabalhar como operário na construção civil aos 12 anos. Seu nível mais alto de educação era o ensino médio, e depois trabalhou no departamento municipal de água de Kerman, segundo um perfil publicado pela mídia estatal iraniana.

De acordo com uma biografia de 2012 em "The New Yorker", o pai de Suleimani ficou sobrecarregado com dívidas sob o xá. Quando veio a revolução, ele simpatizou com a causa e entrou para a Guarda Revolucionária logo depois. Era casado e tinha filhos, embora houvesse histórias conflitantes na mídia iraniana sobre quantos.

No Irã, ele era visto como exercendo mais influência sobre a política externa do país do que o próprio ministro das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif.

Suleimani, na morte, senão na vida, parece ter levado os partidos políticos rivais do Irã a se unirem atrás da bandeira. As políticas expansionistas do Irã na Síria, no Iraque e no Líbano têm sido controversas entre os iranianos comuns e alguns políticos reformistas, que viram dinheiro e recursos desviados do Irã para financiar as missões de Suleimani.

Mas na sexta-feira houve apenas elogios e tristeza. Autoridades iranianas de todo o espectro político emitiram declarações de condolências e condenaram os Estados Unidos.

A poderosa Guarda Revolucionária, da qual a Força Quds é um componente, disse que há planos para um enorme funeral público.

"Ele era tão grande que realizou seu sonho de ser martirizado pelos Estados Unidos", escreveu o político reformista e ex-vice-presidente Mohammad Ali Abtahi.

Suleimani recebeu a maior honra militar do país, a Ordem de Zolfaghar, criada em 1856 sob a dinastia Qajar. Ele se tornou o único comandante militar a receber a honraria na República Islâmica.

Khamenei colocou a medalha no peito de Suleimani em fevereiro passado e, em comentários que hoje parecem proféticos, disse: "A República Islâmica precisa dele por muitos anos ainda. Mas espero que, no final, ele morra como um mártir".
 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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