Descrição de chapéu The Washington Post

Primeira nevasca em uma década surpreende iraquianos

Refugiados sofrem com frio porque não podem reforçar paredes de seus abrigos

Liz Sly Louisa Loveluck
Bagdá | The Washington Post

Os flocos de neve tremularam silenciosamente pelas luzes das ruas de Bagdá e, no amanhecer de terça-feira (11), as palmeiras da cidade estavam brancas.

Alguns iraquianos nunca tinham visto neve. Outros, não nesse volume. "Não podíamos acreditar. Meus filhos pressionaram o rosto contra as janelas e ficaram olhando", disse Mustafa Ali, pai de três crianças, que disse ter sido despertado pelos gritos de alegria.

"Eles disseram que parecia mágica."

Neve na cidade de Karbala, a sudoeste de Bagdá, no Iraque - Atta Kenare - 11.fev.2020/AFP

Em Bagdá, as famílias acordaram com a primeira neve em mais de uma década. Em Mossul, 400 quilômetros ao norte, as margens dos rios ficaram esbranquiçadas, e a neve cobriu os montes de entulho que ainda entopem um setor da cidade velha, pulverizado durante a luta contra o Estado Islâmico.

Nas duas cidades, a surpresa climática provocou alegria e ofereceu um alívio bem-vindo dos ventos políticos imprevisíveis que atingiram o Iraque depois de protestos de jovens serem reprimidos violentamente e a decisão do presidente Donald Trump, de matar o general iraniano Qassim Suleimani, em Bagdá, levar o país à beira da guerra.

A neve é mais comum nas montanhas das regiões norte do Iraque e bastante rara no centro e no sul do país.

Na praça Tahrir, um enclave dos manifestantes em Bagdá, jovens homens e mulheres atiravam bolas de neve e rabiscavam slogans contra o governo no chão. Estava congelante dentro das barracas, mas lá fora era "igual ao cinema", disse Ghaith Ali, 24.

"Parecia que algo de bom estava acontecendo, e ficamos do lado de fora, apesar do frio", disse ele. "Valeu a pena."

Fotografias da neve caindo encheram as redes sociais iraquianas. Vários bonecos de neve estavam vestidos com tradicionais lenços kaffiyeh vermelhos e brancos, com legendas explicando que eram homens das tribos iraquianas.

"Você não vai derreter antes de almoçar", escreveu um comentarista, zombando do fato de que em muitas partes do Iraque deixar seus anfitriões antes de uma refeição pode ser interpretado como grosseria.

Mesquita sob neve em Mossul, no Iraque - Abdullah Rashid - 10.fev.2020/Reuters

Embora o clima incomum tenha entusiasmado muitos iraquianos, também aumentaram as dificuldades de centenas de milhares de civis que perderam suas casas na luta contra o EI, ou que estão tentando superar uma batalha cada vez mais intensa entre combatentes rebeldes e forças aliadas a Bashar Al-Assad, da vizinha Síria.

"Como suíça, senti-me em casa quando cheirei a neve nesta manhã. Mas me lembrei rapidamente dos muitos deslocados", escreveu Katharine Ritz, representante do Comitê Internacional da Cruz Vermelha no Iraque. Entre barracas e abrigos mal acabados, escreveu ela, os civis "não têm como se aquecer".

Segundo a ONU, mais de 689 mil sírios foram deslocados pelo conflito no noroeste da Síria nos últimos dois meses.

Imagens divulgadas na sexta-feira (7) pelo grupo de resgate Patrulheiros Livres de Burma mostraram pessoas se esforçando para segurar barracas que caíam durante uma forte tempestade de neve na cidade de Manbij, norte da Síria.

Os refugiados também lutaram para manter a neve fora das tendas na cidade libanesa de Arsal, cujas autoridades ordenaram aos sírios que desmontassem as casas improvisadas que construíram, por violarem as leis que proíbem os refugiados de construir estruturas sólidas.

A cidade foi isolada pela tempestade, deixando os refugiados famintos.

"A situação é terrível!", gritou um homem num vídeo enquanto tirava a neve da frente de sua barraca na nevasca. "Queremos pão! Liberem as ruas! Queremos pão!", gritou outro.

A província de Idlib, no noroeste da Síria, evitou o pior da neve, mas as temperaturas caíram até -8ºC, punindo ainda mais as pessoas forçadas a dormir ao ar livre, porque não há tendas suficientes.

"A neve pode ser divertida, especialmente para as crianças —mas não para as centenas de milhares de crianças sírias que fogem dos bombardeios diários sem ter para onde ir", escreveu Donatella Rivera, da Anistia Internacional, em um tuíte.

"O melhor que elas podem encontrar é uma barraca frágil que não as protege do frio."

À medida que a crise humanitária se intensificava na Síria, grande parte da neve do Iraque havia desaparecido ao meio-dia —derreteu ao sol ou formou poças de lama na beira das ruas. Na praça Tahrir, manifestantes se reuniram e disseram que retomavam as atividades de sempre.

Para a filha de 9 anos de Mustafa Ali, era como se um encantamento tivesse sido desfeito. "Parecia que o ar estava elétrico, e agora está normal novamente", disse ela ao pai. "Será que vai acontecer de novo?"

​Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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