Nos EUA, médicos pedem máscaras contra coronavírus nas redes sociais

Falta de material faz profissionais da saúde improvisarem e pressionarem políticos

Mariel Padilla
The New York Times

Uma enfermeira de UTI no estado de Illinois (EUA) foi orientada a fazer sua máscara protetora de uso único durar cinco dias.

Uma médica de um pronto-socorro na Califórnia contou que suas colegas começaram a guardar máscaras sujas em recipientes plásticos para reutilizá-las mais tarde com pacientes diferentes.

Uma pediatra no estado de Washington, em um esforço para fazer seu pequeno estoque de máscaras durar mais tempo, vem pulverizando cada uma com álcool depois de usá-la, até a máscara se decompor.

Enfermeira segura equipamento de proteção antes de realizar teste em hospital de Massachusetts
Enfermeira segura equipamento de proteção antes de realizar teste em hospital de Massachusetts - Joseph Prezioso - 18.mar.20/AFP

“A situação é terrível, realmente terrível”, disse a pediatra Niran al-Agba. “Não estávamos preparados.”

Ela é uma das centenas de profissionais de saúde que nesta semana lançaram um apelo ao público por ajuda no combate à pandemia de coronavírus, que já levou milhares de pessoas a adoecer e fez mais de 140 mortos nos Estados Unidos.

Com o encolhimento dos estoques hospitalares, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, pediu a empresas de construção para doarem máscaras, o porta-voz do governo federal para questões de saúde pública exortou a população a parar de comprar máscaras, e especialistas avisaram que quanto mais médicos e enfermeiros adoecerem, maior será a pressão sobre o sistema de saúde, que já está sobrecarregado.

Agora médicos, enfermeiros e outros estão se mobilizando nas redes sociais com a hashtag #GetMePPE –em referência aos equipamentos de proteção pessoal, como máscaras, roupas protetoras e protetor facial— para pressionar os políticos por mais equipamentos protetores para os profissionais de saúde conseguirem evitar o vírus.

Alguns deles sugeriram que as pessoas entrem em contato com o hospital mais próximo se tiverem máscaras ou outros equipamentos médicos para doar.

Os profissionais médicos precisam de grande estoque dessas máscaras porque entram em contato direto com pacientes infectados e precisam trocá-las com frequência.

As diretrizes da Organização Mundial da Saúde recomendam que profissionais de saúde usem máscaras cirúrgicas para cobrir o nariz e a boca, mas alguns hospitais pedem que sejam usadas máscaras conhecidas como N95, que são mais espessas, ajustam-se melhor em volta da boca e do nariz e bloqueiam partículas muito menores que as máscaras cirúrgicas.

Uma enfermeira de UTI em Illinois, Charnai Prefontaine, disse que está pedindo à população que implore aos políticos e ao governo que acelerem o processo de entregar equipamentos aos hospitais.

“Eu queria antever algum grande final feliz em que um caubói entra pela porta carregando uma tonelada de máscaras e somos todos salvos, mas não prevejo que isso aconteça no futuro próximo”, disse Prefontaine, 30, que interage frequentemente com pacientes com problemas respiratórios.

“Acho que as coisas ainda vão se agravar antes de começarem a melhorar.”

Uma médica de emergências no norte da Califórnia, que pediu anonimato, disse que o local já atendeu vários pacientes com Covid-19, obrigando funcionários expostos a esses pacientes a fazerem quarentena em casa.

A pediatra Vidya Ramanathanm, 43, de Michigan, disse que a necessidade de equipamentos protetores é urgente.

Segundo ela, não há lenços com gel em número suficiente para limpar os protetores faciais dos funcionários, e o estoque de máscaras de seu hospital está quase esgotado.

O hospital onde ela trabalha montou tendas fora do prédio principal e criou um sistema de triagem para que pessoas que não precisam de atendimento adicional possam ser mandadas para casa para ficar em quarentena.

O processo protege os pacientes e profissionais dentro do hospital e reduz o consumo do estoque de equipamentos protetores.

“Os profissionais de saúde estão trabalhando arduamente para barrar o avanço da pandemia”, disse Ramanathan. “Esperamos que todos levem isso tão a sério quanto nós estamos levando. As orientações cruciais para a população são praticar o distanciamento social e ficar em casa.”

A falta de materiais nos hospitais decorre principalmente da epidemia prolongada na China e da compra ampla de máscaras por cidadãos ansiosos nos EUA e em todo o mundo.

Metade da produção mundial de máscaras protetoras já ocorria na China, antes mesmo de o coronavírus surgir ali. Confrontado com uma epidemia, o país multiplicou sua produção de máscaras por quase 12, mas armazenou sua produção.

Diante disso, o receio de uma escassez de máscaras cresceu ao mesmo tempo em que a epidemia na Ásia rapidamente se converteu em uma pandemia que já atinge mais de 140 países e todos os 50 estados americanos.

No mês passado, o porta-voz do governo federal americano para questões de saúde pública, Jerome Adams, pediu à população que pare de comprar máscaras, avisando que isso priva os profissionais de saúde de equipamentos importantes para seu trabalho.

Nesta semana, o vice-presidente Mike Pence pediu a empresas de construção que doem suas máscaras N95 aos hospitais locais e parem de fazer novos pedidos das máscaras.

As pessoas correm risco maior de contágio quando tocam superfícies contaminadas do que por meio de uma gotícula aerotransportada, dizem especialistas em doenças infectocontagiosas, que também alertam sobre o risco de contaminação acidental quando se toca a parte externa de uma máscara.

Mas eles incentivam os profissionais de saúde a adotar precauções sérias, em vista do risco ao qual seu trabalho os expõe.

“Não temos imunidade; não temos exposição prévia; muitas pessoas são suscetíveis, e o vírus é altamente transmissível”, disse Lucy Wilson, professora de serviços de saúde emergencial na Universidade de Maryland Baltimore County.

“Acho que é uma situação inusitada nos tempos modernos. E estamos chegando ao ponto crítico.”

Tradução de Clara Allain

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