Descrição de chapéu Diplomacia Brasileira

Após fala de Trump, chefe da embaixada brasileira pede que EUA não proíbam voos do Brasil

Em carta ao governador da Flórida, diplomata defende importância da ligação entre os países

Brasília

O chefe da embaixada do Brasil nos Estados Unidos, Nestor Forster, enviou uma carta ao governador da Flórida, o republicano Ron DeSantis, em que defende a importância dos voos ainda em operação entre o Brasil e o estado americano e afirma que o governo Bolsonaro tem tomado ações para conter o avanço da pandemia do novo coronavírus.

A carta foi enviada por Forster um dia depois de o presidente Donald Trump ter afirmado, ao lado de DeSantis, que o Brasil está enfrentando um “grande surto” do novo coronavírus e ter indicado que pode estabelecer restrições de voos ao país.

Após as declarações de Trump, o Itamaraty entrou em contato com a Casa Branca para consultar se alguma medida restritiva de transporte aéreo estava de fato em elaboração.

Terminal de aeroporto de Miami fica vazio por causa do coronavírus
Terminal de aeroporto de Miami fica vazio por causa do coronavírus - Carlos Berria - 28.mar.20/Reuters

Segundo relataram interlocutores à Folha, os americanos disseram que, até o momento, não havia previsão de nenhum anúncio do tipo. A resposta das autoridades americanas foi vista como positiva por membros do governo brasileiro.

Em entrevista coletiva na Casa Branca nesta quarta (29), Trump voltou a citar o Brasil, mas sem mencionar a questão de voos. Ele disse apenas que o país está "passando por uma situação difícil".

Em outra frente da diplomacia brasileira, Forster, que como encarregado de negócios está à frente da missão diplomática em Washington, decidiu enviar a carta ao governador.

Ele colocou tanto a embaixada quanto o consulado-geral em Miami à disposição para qualquer informação sobre o combate à Covid-19 no Brasil.

O diplomata brasileiro também disse entender as preocupações levantadas por DeSantis, mas que o governo Bolsonaro promove ações para conter a disseminação do vírus.

Forster ainda argumentou, relataram interlocutores à Folha, que os voos ainda em operação entre São Paulo e a Flórida estão sendo usados principalmente por brasileiros que desejam retornar ao Brasil.

Segundo Forster, esses voos chegam aos EUA com poucos passageiros, porém têm um papel importante no transporte de cargas entre os dois países.

Atualmente, há rotas aéreas em operação entre Fort Lauderdale e Orlando, na Flórida, e a cidade de Campinas (SP).

Também está em funcionamento um voo entre Houston (Texas) e o aeroporto de Guarulhos (SP).

As possíveis restrições a voos do Brasil foram levantadas por Trump na terça (28).

O americano já tinha aventado a possibilidade de restringir voos brasileiros no final de março, mas acabou não impondo nenhuma medida.

Entre integrantes do governo brasileiro, a expectativa é que a fala mais recente do mandatário americano tenha o mesmo desfecho: uma declaração pública de impacto, mas que não se reverterá numa política específica.

Durante a entrevista coletiva com Trump, DeSantis foi questionado se estava preocupado com a situação de disseminação do coronavírus na América Latina, já que muitos moradores da região costumam viajar para a Flórida.

O governador disse que estava atento ao problema e afirmou esperar ver em breve um aumento no número de casos no Brasil. Na sequência, sugeriu a Trump obrigar viajantes da região a realizarem testes antes de embarcarem para os EUA.

"Você quer interromper [os voos do] Brasil?", perguntou Trump, cortando a fala do aliado.

“Não necessariamente interromper, mas se você vai voar para Miami, então a companhia aérea deveria te dar um teste rápido e só então deixar você entrar no avião", respondeu DeSantis.

"Você quer banir a entrada de alguns países?", prosseguiu o presidente.

"Se eles ameaçarem os EUA, com certeza", respondeu o governador. "Avise-nos", completou Trump.

Na sequência da entrevista, outro jornalista perguntou diretamente ao presidente se ele iria determinar a obrigatoriedade de testes rápidos para todos os viajantes internacionais, mas Trump respondeu citando apenas o Brasil.

"O Brasil está tendo um grande surto. Eles foram por um caminho diferente do da maioria da América do Sul. Quando você olha os gráficos, infelizmente percebe o que está acontecendo com o Brasil", afirmou.

"Estamos observando a situação lá e, em coordenação com os governadores, especialmente com Ron, vamos tomar uma decisão em breve."

Aliado de Trump, Jair Bolsonaro tem sido um dos poucos líderes da América Latina —e do mundo— a minimizar a gravidade da Covid-19. O presidente brasileiro chegou a compará-la a uma gripezinha.

Na noite de terça, Bolsonaro comentou, na portaria do Palácio do Alvorada, a declaração de seu aliado.

“Eu não concordo com nada nem discordo. O que ele [Trump] achar que tem que fazer no país dele, ele faz. Olha, rapaz, ele fala sobre o que teu país [dele] deve fazer, eu falo o que o meu país deve fazer.”

O chanceler Ernesto Araújo, por sua vez, conversou por telefone nesta quarta com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo.

O Itamaraty não informou sobre quais assuntos as autoridades conversaram, mas o americano publicou em seu Twitter uma mensagem dizendo que os dois países vão "juntos combater o coronavírus no hemisfério".

Além disso, o chefe da diplomacia americana escreveu que ambos países precisam continuar a trabalhar por uma transição democrática na Venezuela.

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