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Em Madri, brasileira cria projeto que conecta pacientes isolados e suas famílias

Em 15 dias, iniciativa distribuiu 700 tablets com acesso à internet por toda a Espanha

Bruxelas

Depois de uma semana sem poder sair de casa, a publicitária brasileira Giovanna Angiolillo, 44, estava subindo pelas paredes quando um pedido de ajuda na internet chamou a sua atenção. Uma enfermeira queria conectar pacientes com seus familiares.

Moradora desde 2001 de Madri, uma das cidades mais atingidas pela pandemia de coronavírus, a brasileira pôs em prática sua experiência de diretora comercial e montou o Acortando la Distancia, ação que em menos de 15 dias levantou 2.000 dispositivos com conexão de internet e já distribuiu 700 deles por toda a Espanha.

A empresa me mandou para casa, e depois de uma semana estava subindo pelas paredes. Sou diretora comercial, meu trabalho é de porta a porta, era impossível me reunir com clientes.

No domingo retrasado (22), acompanhando a “vizinha loira” [@lavecinarubia, influencer espanhola que divulga causas sociais], li o post de uma enfermeira [@mienfermerafavorita] que contava como era triste ver seus pacientes isolados morrerem sozinhos, sem poder dar adeus à família. Queria reproduzir na Espanha uma iniciativa que tinha visto na Itália, chamada “O direito de se despedir”.

Projeto conecta pacientes de Covid-19 na Espanha com seus familiares - Divulgação

A enfermeira estava se desdobrando para colocar, sozinha, depois da jornada no hospital, com seu próprio celular, pessoas para se despedir dos pais. Uma garota de 26 anos, que bom que existe gente assim. “Quem pode ajudar?”, perguntava a vizinha loira.

Eu estava justamente pensando o que poderia fazer com meu conhecimento e o tempo que agora sobrava. Abri o e-mail e escrevi para a enfermeira: “Não sou empresária, não posso doar tablets ou smartphones, mas conheço muita gente e posso dar forma ao projeto”.

Na segunda-feira pela manhã ela me telefonou do hospital. Meu projeto era ir além da morte, não servir apenas para despedidas, mas para conectar as pessoas.

Logo na segunda já compramos um domínio na internet, criamos o site e, na terça, fizemos o primeiro vídeo e soltamos nas redes. E então chegou ao coração de todos. A essa altura precisávamos de três coisas: dispositivos, conexão de internet e uma organização social, para a parte jurídica.

Naquele mesmo dia, a Másmóvil [empresa de telefonia] comprou 2.000 dispositivos e doou toda a conexão de que precisássemos. Termos um projeto desenhado agilizou muito. Não adianta sair correndo pela rua, um punhado de aficionados. Chamei um amigo para ajudar com a organização, e o apoio do município de Madri deu respaldo institucional.

Todos foram necessários. Os influencers para atingir muita gente —em 72 horas já tínhamos 10 mil seguidores. A enfermeira para garantir a parte técnica, determinar como o projeto pode entrar na rotina dos hospitais sem atrapalhar, como usar os equipamentos, desinfetar.

Na verdade, as próprias enfermeiras já estavam fazendo isso. Porque os familiares continuavam ligando para elas, quem trabalha em hospital não dorme, não desconecta nunca. Não são só os pacientes que vão morrer que estão isolados das famílias, e os parentes se angustiam, os enfermeiros também.

Já distribuímos mais de 700 aparelhos em menos de uma quinzena, não só em Madri e não só nos hospitais. Levamos também para os asilos, porque lá os idosos já estavam sem contatos uma semana antes da quarenta. São pessoas afastadas da tecnologia, já muito sozinhas, e que se desorientam.

Recebo e-mails muito tristes, outros muito bonitos. Gente agradecendo, outros dizendo que, infelizmente, não chegou a tempo porque a pessoa querida morreu antes. Gente contando como foi fundamental poder se despedir. Mandam vídeos, até entubadas as pessoas falam com os filhos.

Muitas pessoas não tinham celular, ou não sabiam onde estava, não tinham saldo para a conexão. Os mais velhos, ou os medicados, não conseguiam se lembrar do código. Alguns ficam perturbados com a doença, a internação.

E há os que escrevem para ajudar, querem dar dinheiro, dar o próprio tablet. É impressionante a cadeia de generosidade que existe.

Nos três primeiros dias, mal tomava banho. Via minhas filhas [de 7 e 10 anos] cinco minutos por dia, meu marido preocupado com a mãe, também internada com coronavírus [ela recebeu alta na quarta (1º)].

É muito difícil, tudo à flor da pele. Tive que aprender a não individualizar. O que chega de mensagem pedindo “por favor, manda o tablet para tal lugar, meu avô está morrendo”. E não pode ser assim, há todo um trâmite, o pedido tem que vir de uma instituição, em dois formulários, com e-mail oficial. Há uma cota de um dispositivo para 30 pessoas ou por local ou por unidade de cuidado intensivo, porque os próprios enfermeiros não podem ficar fazendo tantas chamadas.

Não dá para ir mais rápido porque por enquanto somos apenas sete pessoas, das quais três trabalham diariamente. Mas uma fundação nos procurou, e talvez possamos ampliar a escala. Mais do que de tablet, precisamos de gente para transformar o serviço em algo mais profissional.

Agora, o que aperta é a solidariedade, mas queremos manter o projeto nos asilos e nos hospitais, na oncologia infantil, por exemplo, ou onde a internação é mais longa.

Posso dizer que salvei muita gente, mas esse projeto também me salvou. Se a gente para e pensa, no meio de tanta dor, há muito aprendizado. Estou aqui longe do meu país, da minha mãe, e com o dilema sobre qual o limite de sair de casa para ajudar aos outros, qual o risco.

Para mim, esta é a Peste do nosso século, temos que nos adaptar, olhar para dentro de nós mesmos. É uma solidão em dobro. Estamos isolados e temos que nos acostumar a trabalhar diferente, a estar sempre com medo de que algo ocorra a nossos filhos, sem poder abraçar, consolar, se despedir. É tudo muito doloroso.

A cada vez que uma enfermeira agradece eu penso “meu Deus, como pode uma delas agradecer para mim, que não sou nada. Elas é que estão se expondo, limpando muco contaminado”. Mas sinto muito orgulho do que fui capaz de fazer com minha formação, minha rede de contatos. Baseado naquilo em que acredito, criatividade, solidariedade e tecnologia. Numa hora de tanta dor e distância, a gente conseguiu se juntar.

Agora é um momento de decidir o caminho a tomar. Terminar o projeto por aqui ou quem sabe levar para o Brasil e fazê-lo infinito. Porque o bem não tem fronteira. A solução veio acelerada e provocada por essa crise, mas fazer contatos é uma necessidade que existe sempre. Com apoio, poderíamos espalhar no Brasil rapidamente.

Radicada em Madri, a brasileira montou projeto que conecta pacientes de Covid-19 na Espanha com seus familiares
A publicitária Giovana Angiolillo - Acervo pessoal
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