Em meio à pandemia de coronavírus, cresce a busca por boas notícias

Audiência de sites que apresentam reportagens positivas disparou no último mês

Taylor Lorenz
The New York Times

Pode ser difícil enxergar além do dilúvio diário de manchetes arrasadoras hoje em dia, mas há muitas boas notícias no mundo agora —e elas despertam interesse enorme.

Contas de Instagram dedicadas a notícias positivas, como a @TanksGoodNews e a @GoodNews_Movement, viram seu número de seguidores subir vertiginosamente nas últimas semanas.

No final de março, o ator John Krasinski lançou no YouTube uma “rede de jornalismo para transmitir boas notícias”; em uma semana, a Some Good News já contava com mais de 1,5 milhão de assinantes e 25 milhões de visualizações.

Cartazes de apoio às equipes médicas colocados na frente de hospital de Nova York
Cartazes de apoio às equipes médicas colocados na frente de hospital de Nova York - Bruce Bennett - 15.abr.20/Getty Images/AFP

Faz um um mês que as buscas no Google por “boas notícias” não param de crescer.

“Nas últimas quatro semanas tivemos um crescimento sem precedentes”, comentou Lucia Knell, diretora de parcerias de marca da Upworthy, destacando que em março os seguidores da empresa aumentaram 65% no Instagram, enquanto as visualizações de páginas do site cresceram 47% em relação ao mês anterior.

A Upworthy foi fundada em 2012 com a missão de divulgar reportagens de teor positivo. Na época, o algoritmo do Facebook parecia favorecer manchetes inspiradoras, do tipo que atrem cliques; talvez você se recorde de ver exemplos delas em seu feed.

Mas as visualizações das páginas da Upworthy e outros sites de boas notícias caíram consideravelmente em 2013, depois que o Facebook ajustou seu algoritmo.

Grandes organizações de jornalismo (incluindo o New York Times) criaram suas próprias seções de notícias positivas ao longo dos anos. Neste momento, mais do que nunca, os leitores sentem necessidade delas.

“Uma avalanche de pessoas anda nos escrevendo e dizendo o quanto precisam dessas reportagens ou contando que elas leem um artigo e as lágrimas escorrem por seu rosto”, contou Allison Klein, editora do blog Inspired Life, do jornal The Washington Post.

“As pessoas nos agradecem constantemente por lhes mostrar alguma coisa que não as fez sentir-se péssimas.”

Oferta e demanda

David Beard, editor-executivo de newsletters na National Geographic, disse que nunca antes viu uma demanda tão grande por notícias positivas.

“As pessoas estão procurando uma razão para seguir vivendo”, disse.

Para atender à demanda, a National Geographic criou duas newsletters de notícias positivas. Uma é voltada para crianças e família. A outra é uma newsletter sem notícias sobre o coronavírus, intitulada Your Weekly Escape (sua fuga semanal).

“Eu a encaro como um aplicativo de meditação, mas é jornalismo”, disse Beard. Para ele, as duas newsletters “foram uma reação a esta enxurrada de notícias pavorosas”.

O Washington Post também está se esforçando para atender à demanda. Além de publicar reportagens otimistas regularmente no Inspired Life, a empresa mudou a periodicidade de sua newsletter de boas notícias, The Optimist (que Beard desenvolveu quando trabalhava na Redação do jornal), de uma para duas vezes por semana.

O jornal criou ainda o The Daily Break, que destaca uma reportagem edificante por dia.

As boas notícias também vêm sendo uma dádiva para editores independentes. Lori Lakin Hutcherson, fundadora e editora-chefe da Good Black News, disse que as reportagens publicadas em seu site vêm se disseminando “como incêndio na mata” ultimamente.

“Com base em quantas vezes foram compartilhadas e vistas, estas reportagens são 12 vezes mais populares que os textos comuns.”

A Good Black News sempre atraiu um público regular de leitores negros, disse Lakin Hutcherson, mas nos últimos dois meses ela flagrou um interesse crescente vindo de fora de sua base usual de leitores.

Branden Harvey, fundador da Good Good Good, disse que quando os leitores procuram esses artigos eles não estão necessariamente apenas buscando uma fuga do noticiário.

“Mais do que apenas ter sua atenção desviada da Covid-19, eles buscam uma ótica genuinamente esperançosa em resposta à doença”, explicou.

“Não é que as pessoas não queiram ver notícias sobre o coronavírus”, disse Lakin Hutcherson. “Mas querem notícias sobre o vírus que sejam mais positivas ou que mostrem pessoas se unindo para combater este problema e proponham maneiras em que as pessoas podem ajudar.”

Memes animadores para os tempos de Covid-19

Do mesmo modo como no início dos anos 2010 o Facebook incentivava boas notícias, hoje o Instagram virou o lugar onde relatos positivos proliferam.

Nas últimas semanas, boas notícias vêm sendo compartilhadas em contas de memes populares, e vários administradores de contas começaram a trocar relatos positivos em um bate-papo coletivo.

George Resch, presença constante no mundo dos memes no Instagram conhecido online como @Tank.Sinatra, criou uma conta de boas notícias em 2017, após a passagem do furacão Harvey.

Ele publica em várias plataformas, incluindo Twitter e Facebook, mas disse que é no Instagram que seus posts funcionam melhor.

“Minha página anda crescendo mais do que cresceu desde o primeiro ano”, comentou.

A equipe responsável pela conta World Record Egg lançou uma conta de boas notícias no Instagram chamada @Sunny_Side_News. Em uma semana, sem qualquer trabalho de divulgação, a conta acumulou mais de 162 mil seguidores.

As contas mais populares de boas notícias procuram divulgar notícias ligadas ao coronavírus que transmitam uma mensagem positiva, produtiva.

Alissa Khan-Whelan, fundadora da @Sunny_Side_News, disse que hoje pensa com cuidado sobre como apresentar as notícias, visando mitigar o estresse imposto aos leitores e incentivar o compartilhamento dos posts.

“Geralmente evitamos usar linguagem negativa”, disse. “Outro dia eu poderia ter usado a palavra ‘morte’, em um título. Pensei: ‘Vou querer que alguém leia aqui para encontrar a palavra ‘morte?’.

Em vez disso, coloquei ‘vidas perdidas’.” Mas os responsáveis por contas e publicações de boas notícias disseram que notícias apresentadas em tom excessivamente positivo também podem acabar sendo repudiadas pelos leitores.

“Há um limite”, disse Resch. “Você não pode ser interpretado como moralista ou sentimentaloide.”

Notícias para o bem público

Os publishers de notícias muitas vezes utilizam metadados para evitar que artigos relativos a tragédias contenham publicidade.

E, segundo o Wall Street Journal, as marcas que anunciam nos sites das publicações agora parecem estar adotando uma tática semelhante, utilizando softwares para impedir seus anúncios de sair ao lado de notícias sobre o coronavírus.

As boas notícias deveriam, teoricamente, ser um espaço seguro para as marcas, mas alguns sites de boas notícias também estão sentindo o recuo dos anunciantes.

“Nossos anunciantes não sabem o que vai acontecer dentro de um ou dois meses, por isso, neste momento, não estão desembolsando seu dinheiro”, explicou Harvey, da Good Good Good. “Estamos vendo menos anunciantes dispostos a se arriscar.”

Tradução de Clara Allain

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