Governo Trump pressionou espiões para ligar vírus a laboratório em Wuhan

Órgãos de inteligência afirmam que não há provas conclusivas dessa teoria

Washington | The New York Times

Autoridades graduadas do governo Trump pressionaram agências de espionagem dos Estados Unidos a procurar evidências sobre uma teoria segundo a qual um laboratório do governo chinês em Wuhan havia sido a origem do surto de coronavírus. A tentativa ocorre enquanto o presidente Donald Trump reforça uma campanha pública para culpar a China pela pandemia.

Alguns analistas de inteligência temem que a pressão do governo distorça avaliações sobre o vírus e que elas possam ser usadas como arma política em uma batalha cada vez mais intensa com a China sobre a doença que já infectou mais de 3 milhões de pessoas em todo o mundo.

A maioria dos órgãos de inteligência continua descrente de que se encontrem provas conclusivas de uma ligação com um laboratório, e cientistas que estudaram a genética do coronavírus dizem que há uma grande probabilidade de ele ter passado de um animal para o ser humano em um ambiente não laboratorial, como foi o caso do HIV, do ebola e do Sars.

Voluntários desinfetam entrada de teatro em Wuhan, cidade onde a pandemia de coronavírus começou
Voluntários desinfetam entrada de teatro em Wuhan, cidade onde a pandemia de coronavírus começou - Aly Song - 2.abr.20/Reuters

Assessores de Trump e congressistas republicanos tentaram culpar a China pela pandemia, em parte para afastar críticas sobre a má gestão da crise pelo governo dos Estados Unidos, que hoje tem mais casos de coronavírus que qualquer outro país. Mais de 1 milhão de americanos foram infectados, e mais de 60 mil morreram da doença.

O secretário de Estado, Mike Pompeo, um ex-diretor da CIA e o membro do governo mais firme contra a China, assumiu a dianteira na pressão aos órgãos de inteligência por mais informações, segundo as autoridades ouvidas.

Matthew Pottinger, vice-assessor de segurança nacional que fez reportagens sobre o surto de Sars como jornalista na China, pressionou as agências de inteligência de forma intermitente desde janeiro para obter informação que sustente alguma teoria ligada à origem em laboratório.

E Anthony Ruggiero, chefe do escritório do Conselho de Segurança Nacional que rastreia armas de destruição em massa, manifestou frustração durante uma videoconferência em janeiro porque a CIA não conseguiu confirmar nenhuma teoria sobre a origem do surto. Analistas da CIA responderam, na época, que simplesmente não tinham evidências para sustentar qualquer teoria.

A avaliação da CIA se baseou em parte no fato de que o governo chinês não deu sinais de acreditar que o surto tenha vindo de um laboratório. Pequim negou vigorosamente que o vírus tenha vazado de um ambiente de pesquisa, enquanto distribuía desinformação sobre sua origem, incluindo sugestões de que militares americanos o haviam criado.

Um relatório da inteligência dos EUA culpando uma instituição e autoridades chinesas pelo surto poderia prejudicar de modo significativo as relações com a China durante muitos anos. E o governo Trump poderia usá-lo para tentar levar outros países a afirmar publicamente que a China foi responsável pelas mortes por coronavírus, embora as origens exatas da pandemia não possam ser determinadas.

O Departamento de Estado dos EUA não respondeu a perguntas sobre o papel de Pompeo. Porta-vozes da Casa Branca e do Conselho de Segurança Nacional não quiseram comentar.

Em um comunicado divulgado na quinta-feira (30), o gabinete do diretor da Inteligência Nacional disse que a comunidade de inteligência "continuará examinando rigorosamente as informações e inteligência que surgirem para determinar se o surto começou através de contato com animais infectados ou foi consequência de um acidente em um laboratório em Wuhan".

Os órgãos de inteligência, segundo a agência, concordam "com o amplo consenso científico de que o vírus da Covid-19 não foi feito pelo homem ou geneticamente modificado".

A NBC News noticiou que autoridades do governo tinham instruído os órgãos de inteligência a tentar determinar se a China e a Organização Mundial da Saúde receberam informação antecipada sobre o surto.

Há meses, cientistas, espiões e autoridades se debatem com diversas teorias sobre como o surto começou, e muitos concordam sobre a importância de determinar a gênese da pandemia. No governo e no meio acadêmico, especialistas descartaram a ideia de que ele foi criado como arma biológica. E concordam que o novo patógeno começou como um vírus de morcego que evoluiu naturalmente, provavelmente em outro mamífero, tornando-se capaz de infectar e matar seres humanos.

Alguns especialistas em segurança nacional indicaram um histórico de acidentes de laboratório que infectaram pesquisadores para sugerir que isso pode ter acontecido neste caso, mas muitos cientistas descartaram essas teorias.

"Não acreditamos que qualquer tipo de cenário baseado em laboratório seja plausível", escreveram cinco cientistas em um trabalho publicado em março na revista Nature Medicine.

Trump falou publicamente sobre "investigações muito sérias" do governo sobre a origem do vírus e a culpabilidade da China. Esses inquéritos assumiram nova urgência no final de março, quando autoridades de inteligência apresentaram à Casa Branca informação que levou funcionários a reconsiderar a teoria do laboratório. A natureza exata da informação, baseada em parte em comunicações interceptadas entre autoridades chinesas, não é clara.

As autoridades ouvidas não disseram se Trump, que demonstrou pouca consideração pelas avaliações independentes, pressionou pessoalmente as agências de inteligência. Mas ele quer que qualquer informação que sustente a teoria do laboratório crie um clima para responsabilizar a China, segundo duas pessoas ligadas a ele.

O presidente manifestou interesse por uma ideia proposta por Michael Pillsbury, assessor informal da Casa Branca sobre a China, de que Pequim poderia ser processada por danos, com os EUA buscando indenização de US$ 10 milhões por pessoa morta. Em uma entrevista coletiva nesta semana, Trump disse que o governo está discutindo um processo de indenizações "muito substancial" contra a China —ideia que Pequim já denunciou.

"O presidente Trump está querendo saber a origem do vírus e o que Xi Jinping sabia sobre o encobrimento", disse Pillsbury.

Restam grandes lacunas no que se conhece sobre o patógeno, incluindo que tipo de animal infectou os humanos e onde ocorreu a primeira transmissão.

Richard Grenell, diretor em exercício da inteligência nacional, disse a suas agências para priorizarem a determinação da origem do vírus. Em uma reunião em 7 de abril, os representantes disseram que não podiam ainda chegar a um consenso sobre isso.

As autoridades de inteligência indicaram diversas vezes à Casa Branca que determinar a origem do surto é uma questão científica que não pode ser resolvida com espionagem.

Um ex-oficial da inteligência descreveu a ênfase repetida de assessores graduados na teoria do laboratório como "comprando uma conclusão", termo depreciativo entre analistas que lembra a pressão do governo Bush em 2002 por avaliações dizendo que o Iraque tinha armas de destruição em massa e ligações com a Al Qaeda —talvez o exemplo mais notório de politização da inteligência.

A CIA ainda não descobriu nenhum dado, além de evidências circunstanciais, que reforcem a teoria do laboratório, e a agência disse a políticos que não possui informação suficiente para confirmá-la ou refutá-la. Somente o acesso ao próprio laboratório e às amostras de vírus que ele contém poderia oferecer prova definitiva, se ela existir, disseram as autoridades.

A Agência de Inteligência da Defesa (DIA) mudou recentemente sua posição analítica para formalmente deixar em aberto a possibilidade de uma teoria de origem em laboratório. Oficiais graduados do órgão pediram que analistas examinem mais de perto os laboratórios.

O motivo da mudança não está claro, mas algumas pessoas a atribuíram às informações analisadas nas últimas semanas. Outras tiveram uma visão mais hostil: que a agência está tentando atrair o favor de autoridades da Casa Branca. Um porta-voz da agência, James Kudla, negou essa hipótese.

"Não é o papel da DIA tomar decisões políticas ou avaliar opiniões —e não fazemos isso", afirmou.

Algumas autoridades americanas estão convencidas de que Pequim não contou tudo o que sabe.

Entre os principais assessores de Trump, Pompeo em particular tentou atacar a China em relação ao laboratório. Na quarta-feira, ele disse que os EUA ainda não "tiveram acesso" ao campus principal do Instituto de Virologia de Wuhan, um dos dois locais visados pelos americanos que defendem a teoria do acidente em laboratório, juntamente com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças de Wuhan.

Laboratórios em Wuhan pesquisam vírus de morcegos e são conhecidos pelas autoridades americanas; eles fazem parte de um esforço coordenado global para monitorar vírus. O Instituto de Virologia recebeu verbas e treinamento de órgãos e cientistas dos Estados Unidos.

Nenhuma evidência apoia a teoria de que o coronavírus teve origem "em um laboratório, seja intencional ou acidentalmente", escreveu nesta semana Daniel Lucey, especialista em pandemias na Universidade de Georgetown.

Ele pediu que a China compartilhe informações sobre os animais vendidos em um mercado em Wuhan que foi relacionado a alguns dos primeiros casos de pessoas infectadas com o vírus, embora não a primeira. A informação limitada divulgada sobre amostras ambientais do mercado não resolve se a fonte foram os animais vendidos lá ou pessoas que trabalham ou visitaram o mercado, ou ambos, escreveu ele.

Mas Richard Elbright, um microbiólogo e especialista em biossegurança na Universidade Rutgers, afirmou que a probabilidade de um acidente em laboratório é "substancial", indicando um histórico de ocorrências que infectaram pesquisadores. Os laboratórios de Wuhan e outros centros internacionais que examinam vírus que ocorrem naturalmente têm regras de segurança questionáveis, disse ele. "Os padrões são frouxos e precisam ser reforçados."

Mark Mazzetti , Julian E. Barnes , Edward Wong e Adam Goldman

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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