Descrição de chapéu Coronavírus

Paraguaios que tentam sair do Brasil ficam retidos por dias na Ponte da Amizade

Centenas de pessoas dormem no local enquanto esperam ser avaliadas pelas autoridades paraguaias

Curitiba

Centenas de paraguaios tentam diariamente cruzar a fronteira para voltar ao seu país.

No entanto, como a fronteira está fechada por causa da pandemia do novo coronavírus, eles têm sido barrados na Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu (PR), que liga o Brasil ao país vizinho.

Até que os trâmites burocráticos sejam resolvidos, a espera chega a levar dias.

Entre os “refugiados sanitários” estão homens, mulheres e crianças que, sem abrigo, passam dias e noites aglomerados nos 550 metros de comprimento da passarela que cruza o rio Paraná. A falta de máscaras e de álcool em gel, além das condições higiênicas precárias, colocam em risco a saúde de quem espera.

Cidadãos paraguaios esperam na ponte da Amizade - Christian Rizzi - 13.abr.2020/Reuters

Com apenas nove mortes e 220 casos confirmados da doença no país, o Paraguai instalou um controle rigoroso nas fronteiras desde 18 de março.

Todo paraguaio que regressa é colocado em quarentena obrigatória por 14 dias em estruturas provisórias, como centros esportivos e albergues. A insuficiência de vagas nesses espaços causa filas na ponte.

Em média, 200 pessoas tentam cruzar a fronteira diariamente, de acordo com o governo paraguaio.

A maioria delas chega de ônibus de São Paulo, onde trabalham como diaristas ou alfaiates. Mas, com as empresas fechadas e a quarentena decretada, milhares ficaram sem empregos. Para muitos, a única alternativa é voltar para suas famílias.

O fluxo de pessoas ficou maior há cerca de duas semanas. Por sorte, os dias têm sido de sol e calor em Foz do Iguaçu, embora à noite o termômetro registre temperaturas mais baixas, em torno de 17°C.

A marquise de metal que, de dia protege do sol, de noite faz a umidade condensar e pingar em gotas sobre quem busca abrigo embaixo dela.

“Havia um rapaz que estava há seis dias na ponte, literalmente na ponte, na passarela. A Polícia Federal do Brasil acaba dando baixa [no passaporte], e eles ficam barrados entre as duas fronteiras”, explica Everton Mateus, vice-presidente da associação Amigos do Johnson Anjos da Madrugada, que toda noite leva ajuda aos refugiados.

Em vídeo gravado por Mateus, o paraguaio Ancelmo Cabral, que morava em Porto Alegre (RS) e perdeu o emprego por conta da pandemia, reclama das condições para atravessar a fronteira.

Ao agradecer a ajuda da associação, diz estar há quatro dias na Ponte da Amizade, aguardando a vez para poder reencontrar amigos e familiares.

“Outros países mandam buscar a sua gente. No Paraguai, mandam buscar paraguaios nos Estados Unidos com aviões. Classificaram sua gente entre primeira e segunda classe: na primeira estão as pessoas que vão buscar em aviões, os ricos; e nós, trabalhadores, consideram como de segunda classe”, desabafa no vídeo.

Voluntários dão comida a paraguaios que esperam liberação na ponte da Amizade - Associação Amigos do Johnson/Divulgação

Pão, café com leite, salada de fruta e água matam a fome e a sede de quem aguarda liberação. A organização fornece também álcool em gel e disponibiliza um trailer com duas duchas, para quem quer tomar um banho quente.

Banheiros químicos foram colocados no local para atender os refugiados. Colchões e cobertores dão um pouco de conforto à noite.

“Há crianças de um ano, dois anos, e a ponte é aberta no meio. Imagina se uma mãe acaba cochilando e uma criança escapa? Vai cair no rio”, alerta Mateus, que durante o dia monitora ao vivo o movimento no local por meio de uma câmera instalada sobre a ponte.

Com base no número de pessoas na fila, a associação prepara as refeições necessárias.

A Polícia Federal brasileira informou em nota que as equipes foram reforçadas no local e que o acompanhamento “se restringe às questões migratórias desses estrangeiros e segurança física das instalações públicas”.

Em nota divulgada na quinta-feira (23), o Ministério das Relações Exteriores do Paraguai afirmou que está fornecendo serviços básicos de higiene e alimentação às pessoas na espera e que todos os cidadãos devem passar por análise dos requisitos para entrar no país.

“As únicas situações que merecem a autorização para a entrada no território nacional são aquelas circunstâncias extraordinárias que apresentam situações humanitárias de saúde, com dificuldade e risco de vida humana, e situações de vulnerabilidade econômica”, explicou em nota o assessor de assuntos internacionais da Presidência do Paraguai, Federico González.

De acordo com o governo paraguaio, “entre as pessoas que se encontram na ponte há cidadãos expulsos pela Justiça brasileira (casos de contrabando) e pelo crime de tráfico de pessoas” e que, por isso, está sendo priorizada a entrada de mulheres e crianças.

A Folha procurou o Conselho de Defesa Nacional do Paraguai e o consulado paraguaio em Foz do Iguaçu, mas não obteve respostas até a publicação desta reportagem.

Do outro lado da ponte, brasileiros que estavam no Paraguai começaram a ser repatriados pelo Itamaraty na semana passada. Até sexta-feira (24), 300 brasileiros desembarcaram em Foz do Iguaçu, segundo a prefeitura da cidade.

Eles cruzaram a fronteira e passaram por avaliações médicas e exames. Os que não apresentam sintomas e tiverem condições de seguir viagem são liberados. Os demais podem aguardar em hotéis que disponibilizaram leitos ao município.

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