Fotógrafo registra Paris vazia na pandemia a partir de imagens clássicas de Eugêne Atget

Brasileiro Mauricio Lima fez fotos das ruas da capital francesa durante a quarentena

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O Boulevard de Bonne-Nouvelle, em Paris, em abril de 2020 Mauricio Lima/The New York Times

Adam Nossiter
Paris | The New York Times

Paris esteve vazia por boa parte dos últimos dois meses –seus cafés e lojas fechados, as ruas desertas. Milhões de turistas desapareceram de uma hora para outra.

Liberta de pessoas, a paisagem urbana começou a evocar uma Paris mais antiga. Ela tem trazido à mente especialmente a singular Paris de Eugêne Atget, um dos pais da fotografia moderna do início do século 20, com sua atenção nada sentimental aos detalhes.

Em milhares de imagens, Atget fotografou uma cidade vazia, levantando-se cedo todas as manhãs e carregando seu equipamento primitivo pelas ruas.

Em suas imagens, reduziu Paris à sua essência arquitetônica.

Mauricio Lima seguiu os passos de Atget, fotografando as mesmas cenas capturadas por seu predecessor famoso. Desta vez, porém, foi a pandemia de coronavírus que deixou as ruas desertas.

As recriações de Lima nos apresentam uma nova visão do trabalho de Atget –e do significado de uma cidade singular em sua beleza, mas também em sua frieza.

O crítico e filósofo Walter Benjamin, em observação que ficaria famosa, evocou cenas de crimes ao discutir as fotos de Atget. Ele apontava para o vazio delas, a atenção clínica aos detalhes da paisagem urbana, a rejeição absoluta de tudo que fosse sentimental ou grandioso.

Como destacou Benjamin, Atget estabelecia uma benéfica “distância entre o homem e seu ambiente”.

E as recriações atualizadas e levemente perturbadoras de Lima confirmam o "insight" inquietante do fotógrafo morto há muitos anos: Paris não se importa com sua presença. Ela é indiferente. Ela vai continuar sem você, com toda certeza.

Você pode sentir alegria por estar numa rua de Paris, mas o sentimento não é recíproco.

Nascido em 1857, Atget inicialmente tentou ser ator e pintor, sem sucesso. Em 1890, estabeleceu-se como fotógrafo para, como dizia uma placa sobre sua porta, fornecer “documentos para artistas”.

Ele sabia que os pintores precisavam de imagens para servir de modelos para seus trabalhos. E começou a fornecer essas imagens.

Atget passou quase três décadas caminhando pela cidade, carregando seu tripé pesado e documentando uma Paris de ruelas estreitas e edifícios baixos e encardidos que já estava desaparecendo.

Em 1920 ele escreveu: “Posso dizer que possuo toda a Velha Paris”.

O mundo ficou indiferente ao trabalho de Atget até que, alguns anos antes de sua morte, em 1927, ele conheceu uma jovem fotógrafa americana, Berenice Abbott, que estava trabalhando como assistente do artista Man Ray.

Abbot fotografou Atget, escreveu sobre ele, adquiriu muitas de seus originais e promoveu Atget incansavelmente por 50 anos.

Hoje Atget é reconhecido como grande nome da história da fotografia.

A Paris vazia de suas imagens surge à meia-luz de algo que parece ser um nevoeiro perpétuo. Seus edifícios independem de pessoas. Nem sequer precisam delas.

A mensagem parece ser que Paris continua. Ela é indiferente à presença individual. A cidade não é sentimental em relação à humanidade.

É verdade que vestígios da humanidade sempre estão presentes em suas imagens: cartazes publicitários rasgados, letreiros artesanais de lojas, caixas de legumes, fileiras de botas. Mas são apenas lembretes de que a cidade pode ter sido habitada uma vez. E há poucas pessoas nas imagens para confirmá-lo.

Na Paris de Atget, “a cidade está esvaziada, como um apartamento que ainda não encontrou seu novo inquilino”, escreveu Benjamin.

Compare-se isso com as imagens de hoje. As figuras mascaradas ocasionais são apenas secundárias à paisagem. O fato de usarem máscaras, ocultando parte do rosto, é uma negação adicional de sua humanidade.

A paisagem urbana afirma sua presença independentemente das pessoas. Na foto atual do ângulo estranho da esquina da rue de Seine, no hoje valorizado 6º “Arrondissement” –uma das imagens mais célebres de Atget—, o edifício parece se projetar do céu com arrogância, como uma espécie de escultura.

O ciclista solitário na rue de l’Hotel de Ville reforça o vazio da rua, assim como faz o cachorrinho diante do prédio do número 14, rue Servandoni.

A iluminação mais forte da foto atual enfatiza os ângulos frios e duros da pedra na rue de la Bucherie. Paris parece mais indiferente que nunca.

É também evidente nas fotos de hoje que Paris passou por uma faxina enorme. A sujeira e a fuligem acumulada de séculos, ainda presente nos anos 1960, foi lavada.

As fachadas enegrecidas que tanto chamavam a atenção em fotos de Paris durante a ocupação alemã, na Segunda Guerra Mundial, hoje são brancas.

Os cartazes publicitários que no passado forravam muitas das fachadas desapareceram há muito tempo. As paredes foram lixadas, rebocadas e repintadas.

Paris não é mais uma cidade de trabalhadores. Os carpinteiros, sapateiros, limpadores de chaminés, vendedoras de legumes e carregadores cuja presença é evocada nas fotos de Atget, embora nem sempre representada, se foram há muito tempo.

Com suas lojas sofisticadas e seus jardins na cobertura de prédios, a rue de Seine hoje é uma das partes mais valorizadas da cidade. Não é essa sua aparência na foto feita por Atget. Mas nas fotos de hoje, Paris foi embelezada e gentrificada.

Hoje é mais difícil evitar o “pitoresco” –que Atget rejeitava, como Benjamin destaca. Difícil mas, talvez, no tempo do coronavírus, não impossível.

Tradução de Clara Allain

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