Descrição de chapéu Coronavírus

Sozinha em Malta, grávida tenta levar a mãe antes de bebê nascer

No nono mês de gestação, ela pede ajuda ao Itamaraty para ter companhia no parto

Viçosa (MG)

No nono mês de gestação, a milhares de quilômetros da família e sem rede de apoio nem o suporte do pai da criança, uma brasileira que vive em Malta está numa corrida para tentar viabilizar a chegada de sua mãe antes do parto em meio à pandemia de Covid-19.

Há dois meses, Mariana (que pediu para não ser identificada), 38, busca um caminho para que sua mãe viaje ao país europeu, que desde março está com as fronteiras fechadas para não cidadãos.

Pessoas voltam às ruas em Malta
Pessoas voltam às ruas em Malta - Jonathan Borg - 4.mai.20/Xinhua

Vivendo há um ano em Malta, a brasileira, que trabalha com marketing, engravidou de um ex-namorado, que não quis assumir a criança.

“‘Não estou preparado para ser pai. Ou você aborta ou tem o filho sozinha’. Foi a última frase que ele me falou”, conta. “Abortar nunca me passou pela cabeça. Então falei: 'Tudo bem, vou fazer isso sozinha então'.”

Diagnosticada há anos com útero infantil, um problema que dificulta muito uma gestação, ela não esperava ter filhos. Tanto que só descobriu em fevereiro, quando já estava grávida há cinco meses. “Foi um milagre.”

Ela diz que sua família tem lhe dado suporte e que a mãe planejou cuidadosamente a ida do Brasil para Malta, para acompanhá-la no parto e no pós-parto.

“Ela fez questão de fazer enxoval no Brasil. A mala da minha filha está fechada, com tudo lavadinho, embaladinho. Minha mãe está desde abril trancada em casa, em quarentena, só esperando para vir.”

Mariana também não pode viajar ao Brasil, já que está no fim da gravidez e, de qualquer forma, não estão saindo voos com essa rota. Outros brasileiros retidos em Malta afirmam que há cerca de 30 deles aguardando repatriação, alguns em situação crítica.

No momento, só chegam a Malta voos vindo de três outros países da Europa, mas apenas malteses podem viajar neles.

Mariana tenta uma autorização especial para que a mãe embarque em um desses voos e há dois meses entra em contato com diversos órgãos do governo local e com a embaixada do Brasil em Roma, responsável pelo país, sem retorno.

Nesta semana, ela conseguiu falar com a embaixada e enviou um relato para que seu caso seja analisado.

Questionado pela Folha, o Itamaraty diz que não pode comentar casos específicos, mas afirma que a embaixada em Roma acompanha a situação dos brasileiros retidos na Itália e em Malta e "presta todo apoio possível aos seus nacionais, mantendo contato constante" com esses brasileiros.

Afirma ainda que as autoridades brasileiras não podem emitir autorização de ingresso em outro país, mas que mantém contato com o governo maltês e trabalha para poder "repatriar os brasileiros que manifestaram o interesse em fazê-lo, sempre respeitando a competência local para enfrentamento da pandemia".

Não há previsão de voos de repatriação de Malta no futuro próximo, informou o órgão.

Outra possibilidade é que o aeroporto de Malta reabra em junho, já que o governo anunciou que ao menos até 31 de maio ficará fechado para voos regulares.

Mas a chance é incerta, já que o fechamento pode ser prorrogado e, mesmo que não seja, as notícias são de que apenas serão permitidos voos vindos de países europeus onde a Covid-19 está controlada.

Há mais de dois meses sem sair de casa por ser grupo de risco, ela diz que está muito vulnerável emocionalmente com toda a situação.

“Não peço voo de graça, só quero que os governos se falem para que eu consiga uma autorização para minha mãe vir, tomando todos os cuidados sanitários e de segurança. Como vou parir sozinha, cuidar de um bebê sem nenhuma ajuda? Ninguém parece se importar. Não consegui curtir ou ter um momento de alegria ainda, e enquanto minha mãe chegar talvez eu não tenha.”

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