Diário de confinamento: 'O augúrio chinês'

Muito antes do resto, os chineses de Barcelona já se preparavam para a crise

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #71 – Sábado, 23 de maio. Cena: homérica fila de ciclistas no Passeig de Sant Joan.

Minha loja de produtos orientais favorita em Barcelona reabriu nesta semana.

Nesse galpão profundo de mil gôndolas coloridas, emoldurado por um letreiro amarelo e vermelho onde se lê XIN YANG KUANG e que dá pro conhecido y movimentado Passeig de Sant Joan, eu encontro o que antes buscava no bairro da Liberdade, em São Paulo, e mais: conservas, algas, temperos coreanos, verduras mil que não se vê nos supermercados, surpresas do Sudeste Asiático que trago pra casa em latas e vidros de curtidos, apetrechos pra fazer um bom gohan.

Antes do coronavírus (a.C), era comum topar ali com uma turma bem variada: chineses locais comprando grandes quantidades para seus restaurantes, adolescentes curiosos levando bebidas de aloe vera e salgadinhos pink de camarão, turistas analisando meditativamente as etiquetas em espanhol que recobriam os rótulos em chinês.

Ramblas, ponto turístico de Barcelona, vazias em março por causa das medidas de confinamento para conter a disseminação do novo cornavírus
Ramblas, ponto turístico de Barcelona, vazias em março por causa das medidas de confinamento para conter a disseminação do novo cornavírus - Nacho Doce - 16.mar.20/Reuters

Os mercados e as lojas "chinas" são onipresentes na paisagem espanhola. O Santo Graal de qualquer busca doméstica. Quer algo pra casa, quebrou o relógio, busca um esmalte, caderno, biquíni, brinquinho de strass, tubo de PVC? Ali tem. Pela metade do preço ou menos.

Os imigrantes chineses chegaram em massa há relativamente pouco tempo, pouco antes dos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992. De 12 mil em 1998, superam em 2020 os 200 mil em toda a Espanha.

São também campeões dos “golden visa”, as autorizações de residências para estrangeiros não europeus que montam empresas em território espanhol, imigram como"profissionais altamente qualificados" ou investem pelo menos 500 mil euros (R$ 3 milhões) em imóveis no país: 1.686 só em 2019, seguidos pelos indianos (947, principalmente como profissionais qualificados) e, ora-veja, pelo Brasil em terceiro lugar, com 549 vistos.

Justamente na véspera do estado de emergência espanhol, em meados de março, eu me lembro de estar em uma fila numa superloja chinesa de variedades perto de casa, que oferecia de velas perfumadas a móveis.

Naquele dia, por conta, provavelmente, da histeria pré-confinamento, mil pessoas se agarravam a tapetes de banheiro, banquinhos de madeira, joguinhos pra crianças... Eu havia ido pra uma missão concreta: álcool em gel —e uma fôrma de bolo.

Como se vê muito nos negócios chineses aqui, os funcionários eram intergeneracionais: provavelmente, família. O jovem no caixa levava um topete muito bem cuidado que tapava seus olhos, e pouco mais eu via —já estava paramentado em mangá-mode com máscara e luvas. Muito antes de todos nós.

Chineses em Barcelona são reconhecíveis de longe: desde sempre, muitos deles usam máscaras —principalmente os turistas, mas também alguns locais.

Não surpreendeu que fossem o primeiro grupo a adotá-la em massa também domesticamente, crianças incluídas, bem antes do confinamento, em fevereiro.

No princípio de março, um cartaz à entrada de um restaurante perto do Yang Kuang poderia inclusive soar um pouco paranóico: "Sentimos por usar máscaras para trabalhar. O motivo é proteger melhor toda a população, porque o vírus tem um período de incubação em que estamos assintomáticos. O uso de máscaras durante esse período atenuaria a propagação".

Dias antes do decreto que levou o país ao confinamento domiciliar e ao fechamento de portas, muitos negócios chineses em Barcelona já haviam baixado as persianas, deixando pra trás mensagens bilíngues em que diziam que voltariam "depois das férias". Assombrações de Wuhan.

Os chineses locais foram também dos primeiros a impedir que os filhos saíssem, antes mesmo do fechamento das escolas.

O que em outros tempos poderia ser (mal) interpretado como um anedótico excesso de zelo deveria ter nos servido como vaticínio/augúrio.

Não funcionou: teve que aparecer o premiê Pedro Sánchez com sua cara garbosa-consternada na tevê falando que a partir da segunda seguinte nevermore, e todo mundo entrou em seu devido estado de perplexidade encaixotado, de última hora, como se nunca.

Yang Kuang faz parte de um quadrilátero de negócios chineses entre os bairros de Sant Pere e Fort Pienc. É uma espécie de abreviado bairro da Liberdade em Barna.

Produtos de construção, cabeleireiros, supermercados, lojas de noivas, escolas, imobiliárias, restaurantes.

Até o "lockdown", sempre circulavam por ali muitos turistas misturados com os locais. Alguns bares comprados por chineses ainda guardam seus nomes originais de bodegas espanholas. No menu, comida típica (pato, sopas, bolinhos) e tortilla de batata.

Nós temos também outra Chinatown, mas o nome (minha opinião, pães, opiniães) é uma distorção infeliz.

Tem menos a ver com chineses do que fish & chips. Trata-se do histórico e multicultural bairro do Raval, onde a maior parte dos estrangeiros são "magrebis", indianos, africanos e paquistaneses.

O bairro recebeu o batismo informal em 1925, quando um cronista da época comparou a efervescência boêmia do bairro com a Chinatown de Manhattan, então outro complexo caldeirão de vida noturna, prostituição, tráfico e pobreza.

Segundo Lam Chuen Ping, presidente da União de Associações Chinesas de Catalunha, "talvez mais de 20%" dos negócios não voltarão a abrir pós-crise. Mas não o Yang Kuang: depois de uma diligente espera de 15 minutos em uma concorrida fila, saio feliz com meus bok choy e missô japonês.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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