Promotoria alemã afirma acreditar que Madeleine está morta

Polícias de três países, porém, dizem não ter provas para condenar suspeito e lançam pedido de informação

Bruxelas

Autoridades alemãs consideram que a menina Madeleine McCann, que desapareceu em Portugal quando tinha três anos de idade, em 3 de maio de 2007, está morta.

“O gabinete do promotor público está investigando um cidadão alemão de 43 anos por suspeita de assassinato. Com isso, você pode ver que assumimos que a garota está morta”, disse a jornalistas nesta quinta (4) Hans Christian Wolters, porta-voz da Promotoria da região de Braunschweig, na Alemanha.

A polícia britânica, porém, que trabalha com a alemã e a portuguesa no caso por se tratar de uma cidadã do Reino Unido, disse não ter "evidências definitivas" de que ela tenha morrido e continua investigando seu “desaparecimento”.

Repórter fotografa casa onde suspeito de sequestrar Madeleine vivia em Portugal
Repórter fotografa casa onde suspeito de sequestrar Madeleine vivia em Portugal - Rafael Marchante/Reuters

Identificado pela imprensa alemã como Christian B., o suspeito está preso em Kiel, no norte do país. O jornal Bild, que chegou a publicar uma foto do suspeito, o descreve como branco, de cabelos loiros e curtos, com 1,80 metro e magro.

No final do ano passado, B. foi condenado a sete anos de prisão, pelo estupro em 2005 de uma americana de 72 anos na praia da Luz, a mesma em que Madeleine desapareceu.

Segundo o Serviço Federal de Polícia Criminal da Alemanha (BKA), B. viveu na região do Algarve português de 1995 e 2007, com várias idas e vindas entre Portugal e seu país natal. Segundo o jornal britânico Guardian, no período ele foi suspeito de crimes sexuais, tráfico de drogas, furtos e falsificação de documentos.

Durante a investigação sobre o estupro da americana, testemunhas disseram já ter visto o alemão entrando por janelas de apartamentos durante a tarde ou a noite e ouvido B. relatar furtos de câmeras, passaportes e dinheiro. Mas o caso foi arquivado por falta de provas, em 2006.

Em 2007, quando Madeleine desapareceu do apartamento em que a família passava as férias na praia da Luz, ele morava numa casa a cerca de 3 km do local..

A polícia afirma que o suspeito trabalhava como garçom e barman em bares da região e fazia bicos de mecânico ou vendia laranjas que colhia de fazendas vizinhas ou bolas de golfe que recolhia de campos da região turística.

Kate McCann, mãe de Madeleine, durante entrevista coletiva em Londres para lançamento de livro sobre o desaparecimento
Kate McCann, mãe de Madeleine, durante entrevista coletiva em Londres para lançamento de livro sobre o desaparecimento - Chris Helgren - 12.mai.11/Reuters

O mistério do desaparecimento de Madeleine provocou caçadas policiais em parte da Europa e, segundo o jornal britânico Guardian, o esforço mais recente já custou mais de 11 milhões de libras (mais de R$ 66 milhões) à polícia do país desde 2011.

Os próprios pais, que na época disseram estar jantando com amigos em um restaurante próximo, chegaram a ser tratados como suspeitos, mas a investigação passou a considerar que a menina havia sido sequestrada.

Na noite desta quarta, Christian Hoppe, investigador do BKA, afirmou em um programa de TV alemão que a polícia havia seguido o rastro do suspeito em 2013, quando os pais de Madeleine apareceram no mesmo canal pedindo informações que levassem ao paradeiro da menina, mas que não havia informações suficientes para uma investigação, muito menos para uma prisão.

A polícia suspeitou de B. porque ele tinha um histórico judicial ligado ao abuso sexual de crianças —a primeira condenação foi em 1994, aos 17 anos.

Em 2017, sofreu nova condenação por abuso sexual de uma criança e acabou sendo preso em Milão em 2018 e extraditado para a Alemanha.

Apesar do arquivamento da investigação pelo estupro da americana em 2006, o nome de B. voltou à baila anos depois, quando um homem preso por furtar óleo diesel entregou à polícia um vídeo do crime, que teria sido filmado pelo alemão. Foi essa nova pista que levou à condenação em dezembro do ano passado, sentença da qual recorreu.

A polícia alemã, no entanto, diz que não tem provas para condenar Christian B. pela morte de Madeleine e lançou um pedido de informações, junto com fotos de uma casa e dois carros que seriam ligados ao suspeito —um deles, um Jaguar, foi transferido para o nome de outra pessoa no dia seguinte ao do desaparecimento da menina.

Também foram divulgados o número do telefone que o suspeito usava na noite em que Madeleine desapareceu e o de uma pessoa que falou com ele entre as 19h32 e as 20h02. A menina teria sido levada entre as 21h10 às 22h.

As polícias dos três países oferecem uma recompensa de 20 mil libras (cerca de R$ 120 mil) para quem tiver informações que levem à condenação do suspeito.

Antes da declaração da Promotoria alemã de que considerava Madeleine morta, Clarence Mitchell, porta-voz da família McCann, disse que os pais da menina, Kate e Gerry, consideravam o anúncio de um suspeito "potencialmente muito significativo".

Segundo o porta-voz, que representa a família desde o desaparecimento da menina, a polícia nunca havia sido “tão específica” sobre um suspeito.

"De todos os milhares de pistas e possíveis suspeitos mencionados no passado, nunca houve algo tão claro quanto o de não apenas uma, mas três forças policiais", afirmou no telejornal matutino BBC Breakfast, da TV britânica.

A outro telejornal da rede britânica um policial que participou da investigação inicial, Jim Gamble, também afirmou que era a primeira vez em 13 anos em que “ousava ter esperança”.


Cronologia do caso Madeleine

maio de 2007

Madeleine desaparece no dia 3 de maio, no Complexo de Oceans Beach, na praia da Luz, em Portugal, onde a família McCann passava férias.

Poucos dias depois, os pais da menina abrem um fundo para receber doações e contratam investigadores privados com o dinheiro arrecadado.

junho de 2007

Um dos chefes da polícia portuguesa admite que provas vitais podem ter sido destruídas porque o Complexo não foi protegido adequadamente.

julho de 2007

A polícia britânica envia cães farejadores para ajudar na investigação, e são realizadas inspeções no apartamento e no carro alugado dos McCann.

setembro de 2007

Kate McCann, mãe de Madeleine, é ouvida pela polícia como suspeita, e dias depois a família retorna para o Reino Unido. Procuradores afirmam depois que não há evidências para considerá-los suspeitos.

Turistas afirmam ter visto Madeleine em Marrakesh, no Marrocos.

2008

A família McCann divulga esboços de um suspeito, com base na descrição feita por um turista britânico de um "homem assustador" visto no resort.


2011

Os pais da menina publicam um livro sobre o caso. A Polícia Metropolitana de Londres dá início às investigações, após a polícia portuguesa não obter sucesso.

2013

A Scotland Yard abre uma investigação sobre o caso e identifica 41 potenciais suspeitos. A polícia de Portugal reabre a investigação.

2015

O governo britânico anuncia que as investigações sobre o caso custaram mais de 10 milhões de libras (R$ 64 milhões).


2017

Em maio, quando o desaparecimento de Madeleine completava 10 anos, a polícia britânica informa que havia investigado 40 mil documentos e 600 pessoas.


junho de 2020

A polícia alemã anuncia que investiga um cidadão de 43 anos por suspeita de assassinato de Madeleine.

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