Homens também sofrem violência sexual na guerra da Síria, diz relatório

Entrevistas com vítimas mostram que estupros e outras agressões atingem especialmente os LGBT

Viçosa (MG)

A violência sexual durante o conflito da Síria não é uma forma de tortura e humilhação dirigida apenas às mulheres: homens também são vítimas, especialmente os LGBT.

Um relatório publicado nesta quarta-feira (29) pela organização internacional Human Rights Watch (HRW) traz relatos de homens que sofreram estupros, assédios, mutilação dos órgãos genitais e outros tipos de abusos no Exército sírio, em prisões e postos de controle do regime ou por parte de grupos terroristas como o Estado Islâmico.

Sírios deslocados pelo conflito em um campo que abrigava principalmente homens que fogem do Estado Islâmico na província de Hasakeh
Sírios deslocados pelo conflito em um campo que abrigava principalmente homens que fogem do Estado Islâmico na província de Hasakeh - Ayham al-Mohammad - 13.ago.17/AFP

Denominado “Eles nos tratavam de formas monstruosas”, o relatório entrevistou 44 refugiados, a maioria dos quais no Líbano, além de médicos, psicólogos e assistentes sociais que lidam com o tema.

Quatro vítimas entrevistadas são homens heterossexuais, e os demais são homens gays e bissexuais e mulheres transgênero —incluídas na pesquisa por serem vistas como homens afeminados na Síria e alvo das mesmas violências. Alguns eram menores de idade no momento em que foram maltratados.

O impacto do trauma sobre a saúde física e mental permanece meses ou anos depois do que sofreram: eles descrevem sinais de depressão, estresse pós-traumático e pensamentos paranoicos, além de dores severas no reto e nos genitais e sangramentos no corpo.

Alguns contraíram infecções sexualmente transmissíveis, inclusive pelo vírus HIV.

Mulheres são inquestionavelmente mais afetadas pela violência sexual em conflitos, mas homens também são vítimas. Segundo estudos e relatórios da ONU e de organizações humanitárias, o tema é subnotificado.

"O assunto pode parecer invisível, mas ocorre com muita frequência, e os números não refletem a realidade", disse à Folha Pınar Erdem, autor do relatório.

"Homens e meninos que sobrevivem à violência sexual relutam em falar por vergonha e pelo estigma envolvendo a violência sexual e a vulnerabilidade masculina."

Outro ponto levantado é que muitas vezes esse tipo de agressão é documentado nas pesquisas apenas como tortura, e não como violência sexual relacionada a conflitos.

"Quisemos jogar luz sobre a natureza sexual e de gênero desse tipo de violência e a necessidade de serviços voltados para atender esses sobreviventes, com suas necessidades específicas", diz Erdem.

O pesquisador lembra que essa tática de dominação em situações de guerra é usada também em outros países, como na República Centro-Africana, na República Democrática do Congo, na Somália, no Sudão do Sul e contra o povo muçulmano rohingya em Mianmar.

No caso da Síria, homens heterossexuais também estão sujeitos a esse tipo de agressão, mas gays e bissexuais —ou que são percebidos como tal, mesmo sem ser— estão particularmente em risco, assim como as mulheres transgênero. Isso porque, numa sociedade em que a heterossexualidade é ligada ao poder e à força da família e da comunidade, eles são percebidos como fracos.

Minorias sexuais e de gênero na Síria sofrem discriminação e perseguição desde muito antes da guerra.

O código penal sírio determina que “qualquer relação sexual não natural deve ser punida com prisão de até três anos” e que crimes “contra a decência pública” praticados em público estão sujeitos a até três anos de prisão.

Esse tipo de legislação costuma ser usada contra pessoas LGBT, como mostra um relatório que documenta anualmente a criminalização da homossexualidade no mundo.

Mas o conflito, que começou em 2011 e se estende até hoje, desencadeou uma onda generalizada de violência que também fez crescer a vigilância e as agressões contra esses grupos especialmente vulneráveis.

Nas prisões e nos postos de controle do regime, por exemplo, apesar de todos os homens estarem sujeitos a práticas como choques elétricos nos genitais, nudez forçada e estupro com objetos, os entrevistados pela HRW contam que, quando os guardas percebiam sua orientação sexual —por fotos encontradas em seus celulares, por exemplo— , intensificavam o grau de violência e perversão contra eles.

Os depoimentos são fortes e envolvem estupros coletivos e repetitivos, humilhações por meio da nudez e tortura envolvendo seus órgãos genitais. Um deles presenciou, aos 15 anos, o namorado sendo jogado do alto de um prédio por jihadistas do Estado Islâmico —prática comum desse grupo terrorista contra homossexuais.

Eles afirmaram que não buscaram ajuda após o ocorrido porque não confiavam nos serviços médicos ou de saúde mental na Síria e por terem vergonha e medo da estigmatização e de serem novamente discriminados. Uma vez no exílio, no Líbano, também não encontram muito apoio de organizações humanitárias, que muitas vezes zombam deles e os menosprezam.

Para a HRW, prestadores de serviços e organizações humanitárias deveriam treinar seus funcionários para atender não só mulheres, mas também homens vítimas desse tipo de violência.


Alguns depoimentos das vítimas

"Eles checaram nossos celulares e nos disseram: ‘Vocês não são só contra o que é certo; vocês também são ‘bichas’. As agressões foram multiplicadas por dez, eu diria. Eles faziam aquilo felizes. Nos estupravam com bastões."

"Tive infecções internas, porque os objetos que eles inseriam em mim eram muito sujos. Aconteceu em várias ocasiões. Você não tem nenhum direito lá."

"Olho para trás quando estou andando. Ainda acordo à noite. E se acontecesse de novo? Uma vez, a polícia [na Holanda] me parou só para checar se eu estava bem. Fiquei estático, sem saber o que dizer. Foi um aviso de que [o trauma] não foi embora."

Yousef, 28

"Fui detido pelo Estado Islâmico por três meses, por fazer parte dos protestos. Eu tinha 15 anos. Fui preso junto com meus amigos. Meu namorado foi jogado de um prédio alto pelo Estado Islâmico."

Khalil, 21

"Era uma cela individual. Achei que estaria sozinha, mas eles deixavam alguém entrar todo santo dia, uma ou duas pessoas. Guardas, prisioneiros, oficiais de alta patente que trabalhavam na delegacia de polícia. No fim eu perdi a força para resistir. Apenas me rendi. Eu ficava coberta de sangue o tempo todo."

Naila, 21, mulher transgênero

"Uma vez minha irmã foi parada em um posto de controle. O soldado pediu seu celular e viu uma foto minha usando short, sem cabelos no meu corpo. Ele perguntou: 'Quem é este?', e ela respondeu: 'Meu irmão'. Eles vieram na nossa casa e me levaram. Quando cheguei, ele me pediu para tirar a calça e a blusa. Depois minha cueca. Aí ele me fez dormir com ele. Ele me manteve assim por dez dias, fazendo sexo com ele três ou quatro vezes ao dia."

Rima, 20, não binário

"Na prisão militar, os guardas nos batiam, riam da gente, nos amarravam no chão, nos obrigavam a tirar a roupa em frente de quatro soldados enquanto eles cuspiam na gente, nos humilhavam e insultavam nossas irmãs, mães e o resto da nossa família. Eu preferia ter morrido a ouvir aquelas palavras. Só o fato de ter que ficar nua em frente a quatro pessoas olhando para mim já era muito doloroso."

Sabah, 40, mulher transgênero

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