Beirute tem segundo dia de protestos violentos após grande explosão

Além dos confrontos, dois ministros apresentaram suas renúncias ao cargo

Beirute | Reuters

No segundo dia de intensos protestos contra o governo do Líbano, manifestantes atiraram neste domingo (9) pedras nas forças de segurança nos arredores do Parlamento do país e invadiram os ministérios da Habitação e do Transporte.

Além disso, os ministros das pastas da Informação e do Meio Ambiente apresentaram suas renúncias aos cargos.

Os libaneses acusam o governo de negligência no caso da enorme explosão que ocorreu na terça (4) na região portuária de Beirute e deixou ao menos 158 mortos, além de cerca de 6.000 pessoas feridas —no local do incidente abriu-se uma cratera de 43 metros de profundidade.

Manifestantes entram em confronto com a polícia pelo segundo dia seguido, em Beirute
Manifestantes entram em confronto com a polícia pelo segundo dia seguido, em Beirute - Joseph Eid - 9.ago.20/AFP

Policiais usando armaduras e carregando cassetetes entraram em confronto e atiraram gás lacrimogêneo contra manifestantes, que responderam com gritos de "revolução", em cenas caóticas no centro de Beirute.

"A polícia atirou em mim. Mas isso não nos impedirá de protestar até que mudemos o governo de alto a baixo", disse Younis Flayti, 55, um oficial aposentado do Exército, neste domingo.

Milhares de pessoas se reuniram na Praça do Parlamento, onde houve um incêndio em uma área isolada pela polícia, e na Praça dos Mártires, onde manifestantes agitavam bandeiras libanesas e cantavam músicas patrióticas. "Queremos que todo o governo saia, queremos eleições agora", afirmou o jovem Yusef Dour.

A explosão que deixou metade da capital libanesa devastada e 300 mil desabrigados somou-se a um cenário político complexo —marcado pela corrupção, o descontentamento com a administração governamental e uma crise econômica profunda— e engrossou a demanda de manifestantes, que pedem a renúncia do governo.

A ministra da Informação, Manal Abdel Samad, retirou-se neste domingo, citando a explosão e o fracasso do governo em realizar reformas.

"Peço desculpas aos libaneses, não soubemos responder às expectativas", disse. Pouco depois, foi a vez do titular da pasta do Meio Ambiente, Damianos Kattar.

O principal clérigo cristão maronita do país, o patriarca Bechara Boutros al-Rai, também sustenta que o gabinete renuncie, pois não pode "mudar a forma como governa". Ele declarou que apenas o desligamento de um parlamentar ou de um ministro não é suficiente.

A reconstrução do Líbano é estimada em bilhões de dólares. Economistas preveem que os reflexos do desastre possam acabar com até 25% do PIB do país.

Uma conferência de doadores realizada neste domingo com líderes mundiais levantou quase € 253 milhões (R$ 1,6 bilhão) em apoio ao país, segundo o governo francês, que co-organizou o evento ao lado da ONU.

Entre os participantes, estavam o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, governantes da Jordânia, do Egito e do Qatar e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

Na abertura, o presidente francês Emmanuel Macron, que visitou Beirute há quatro dias, disse que a resposta internacional deveria ser coordenada pela Organização das Nações Unidas.

A preocupação internacional é transferir recursos para um governo que sofre acusações de corrupção e está sob influência do grupo xiita Hizbullah, ligado ao Irã.

A França montou uma ponte aérea e marítima para potencializar a ajuda internacional e entregar mais de 18 toneladas de ajuda médica e quase 700 de alimentos. O Líbano e a França têm relações históricas: o país do Oriente Médio foi administrado pelo europeu de 1923 a 1943.

Também no domingo, o papa Francisco pediu ao povo libanês que trabalhe junto para dar origem a uma nova coexistência, "livre e forte". No discurso semanal na Praça de São Pedro, o pontífice afirmou que a convivência de culturas ficou muito mais frágil com a explosão.

No sábado, Beirute foi palco de cenas violentas no maior protesto desde outubro.


Cerca de 10.000 pessoas se reuniram na Praça dos Mártires, que foi transformada em uma zona de batalha à noite entre a polícia e os manifestantes, que tentaram quebrar uma barreira ao longo de uma rua que levava ao Parlamento.

Durante o dia, manifestantes também invadiram os ministérios das Relações Exteriores, da Energia e da Economia, além da Associação de Bancos do Líbano.

Segundo a Cruz Vermelha, ao menos 110 pessoas foram feridas e 55 levadas ao hospital. Um policial morreu ao cair no poço do elevador de um prédio após ser perseguido, de acordo com a versão de seu colega.

Em resposta ao ato, o primeiro-ministro libanês, Hassan Diab, disse que convocará eleições parlamentares antecipadas --porém não anunciou uma data para a realização do novo pleito e se esquivou da crise ao dizer que não é culpado pelos problemas econômicos e políticos do país.

O Exército disse que a esperança de encontrar mais sobreviventes da explosão está diminuindo, informou o canal Al Jadeed. Segundo o Ministério da Saúde, 21 pessoas continuam desaparecidas.

O incidente no porto, cujas circunstâncias ainda não estão claras, teria sido causado por um incêndio que afetou um enorme depósito que armazenava 2.750 toneladas de nitrato de amônio, um composto químico usado para a produção de fertilizantes e de explosivos.

Informações preliminares indicam que o material estava no porto havia cerca de seis anos, trazido por um navio que fez uma parada em Beirute e acabou retido devido às suas más condições de manutenção.

O veículo foi então abandonado pelos donos e pela tripulação, e o governo recolheu a carga para um depósito.

Após a explosão, o governo ordenou a prisão domiciliar de ao menos 16 autoridades do porto. O governo prometeu responsabilizar os culpados, mas há uma desconfiança grande da população em relação a isso.

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