O futuro do Líbano está em jogo, diz Macron em conferência virtual

Reunião com líderes mundiais debate ajuda para o país após explosão que devastou Beirute

Fort Bregançon (França) | Reuters e AFP

As potências mundiais devem deixar de lado suas diferenças e apoiar o povo libanês, cujo futuro está em jogo depois da grande explosão que devastou Beirute, disse o presidente francês, Emmanuel Macron, em uma conferência de doadores neste domingo (9).

A economia do Líbano, atolada em dívidas, já estava mergulhada em crise e enfrentava os efeitos da pandemia do coronavírus antes da explosão no porto da capital que matou ao menos 158 pessoas.

Mas os governos estrangeiros têm receio de assinar cheques em branco para um governo considerado corrupto pela população local e se preocupam com a influência do Irã por meio do grupo xiita Hizbullah.

Emmanuel Macron participa de conferência virtual com outros líderes mundiais a respeito de ajuda para o Líbano - Christophe Simon -09.ago.2020/Pool via AFP

No discurso de abertura da conferência virtual de doadores que co-organizou, Macron disse que a resposta internacional deveria ser coordenada pela Organização das Nações Unidas no Líbano.

"Apesar de diferenças de opinião, todos devem ajudar o Líbano e seu povo", disse ele por videoconferência, de seu retiro de verão, na Riviera Francesa. "Nossa tarefa é agir com rapidez e eficiência."

Israel sinalizou disposição em ajudar, acrescentou Macron, mas, assim como o Irã, não estava representado no encontro virtual, que reuniu cerca de 15 líderes.

Entre os participantes estava o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, governantes de Jordânia, Egito e Qatar e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

O presidente francês afirmou que a oferta de assistência inclui apoio a uma investigação imparcial sobre a explosão ocorrida no último dia 4. As acusações de que o governo foi negligente no processo que gerou o incidente levaram milhares de libaneses a se manifestarem para derrubar os líderes políticos do país.

A explosão destroçou bairros inteiros, deixando 300 mil pessoas desabrigadas, arrasando empresas e destruindo armazéns de grãos. A reconstrução de Beirute provavelmente custará bilhões de dólares, e economistas prevêem que o episódio pode acabar com até 25% do PIB do país.

A UE prometeu 30 milhões de euros (R$ 192 milhões) em apoio de emergência. O financiamento será distribuído para agências da ONU e ONGs em uma operação "estritamente monitorada", informou a Comissão Europeia.

O Reino Unido prometeu 20 milhões de libras, além dos 5 milhões de libras já liberados —o que totaliza R$ 177 milhões—, além do envio de especialistas. Alemanha, Espanha e Suíça também anunciaram envio de ajuda monetária. Os EUA disseram que prestarão ajuda, mas não se comprometeram financeiramente.

Ao todo, a rodada levantou quase 253 milhões de euros (R$ 1,6 bilhão), segundo o governo francês.

Muitos libaneses estão irritados com a resposta do governo e dizem que o desastre expôs a negligência de uma elite política corrupta. No sábado (8), manifestantes invadiram ministérios do governo em Beirute e destruíram os escritórios da Associação de Bancos Libaneses.

Macron foi o primeiro chefe de Estado a visitar Beirute. Ao chegar à cidade, o líder francês se posicionou como um articulador para organizar a cooperação internacional, mas defendeu a necessidade de reformas políticas e econômicas no país e pediu que reforço no combate à corrupção.

"A prioridade hoje é ajuda, apoio incondicional à população. Mas há reformas indispensáveis ​​em certos setores que a França exige há meses, anos", disse Macron. "Não podemos fazê-las sem apontar algumas verdades inconvenientes. Se essas reformas não forem feitas, o Líbano continuará a afundar."

Antes da conferência deste domingo, a ministra da Informação do Líbano, Manal Abdel Samad, anunciou sua renúncia, citando o fracasso do governo em realizar reformas e a explosão catastrófica.

Também no domingo, o papa Francisco pediu ao povo libanês que trabalhe junto para dar origem a uma nova coexistência, "livre e forte". No discurso semanal na Praça de São Pedro, o pontífice afirmou que a convivência de culturas ficou muito mais frágil com a explosão.

Beirute amanheceu de ressaca, após os maiores protestos desde outubro levarem cerca de 10 mil pessoas às ruas no dia anterior, em um grande levante contra o governo, que incluiu a invasão a três ministérios e confrontos com a polícia.

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