Explosão atingiu mais da metade de Beirute e deixou 300 mil desabrigados

Um dia após tragédia, capital libanesa busca vítimas e sobreviventes e estima prejuízos bilionários

Belo Horizonte | AFP e Reuters

Em luto, um dia após a megaexplosão que já deixou 135 mortos e mais de 5.000 feridos, a cidade de Beirute vai precisar lidar com mais de 300 mil desabrigados.

"Mais da metade de Beirute está destruída ou danificada", disse o governador Marwan Abboud.

Autoridades libanesas ainda aguardam uma avaliação mais precisa feita por especialistas e engenheiros, mas o governador estima que os danos podem chegar a valores entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões (entre R$ 15 bilhões e R$ 23 bilhões).

Chorando, Abboud comparou a destruição à causada pelas explosões nucleares em Hiroshima, 75 anos atrás. "A situação é apocalíptica. Beirute nunca viveu isso em sua história."

Vista da região portuária de Beirute, no Líbano, destruída pela explosão que deixou mais de 100 mortos e milhares de feridos - Anwar Amro - 5.ago.20/AFP

O executivo libanês Mohamad Najem, 39, estava sozinho em seu apartamento, no 12º andar, quando ouviu a primeira explosão. Ele conta à Folha que foi até a sala tentar entender o que havia ocorrido quando foi lançado pelo segundo impacto, que derrubou todas as janelas.

“Se eu estivesse mais perto do vidro, poderia ter morrido ou ter me ferido”, diz ele, que lembra ter sentido o prédio inteiro se mexer.

“Eu sou considerado um sem-teto, junto com outras 300 mil pessoas”, afirma. “Algumas pessoas estão consertando suas casas, mas muitos prédios são perigosos agora e não estão seguros para voltar.” Najem está na casa da irmã.

A professora libanesa Jessica Elias, 29, que vive na Holanda, tinha chegado ao Líbano para visitar a família fazia três dias e cumpria quarentena, devido à pandemia de coronavírus, no apartamento de um conhecido em Beirute.

A explosão aconteceu assim que ela saiu de casa para encontrar a irmã. “Eu não conseguia falar com ela por telefone, porque houve um blecaute na conexão. Eu tentei chegar até ela pegando carona com estranhos. Eu estava sangrando, mas não sentia dor, porque queria saber se ela estava a salvo”, conta.

A irmã teve apenas ferimentos leves.

No dia seguinte ao desastre, mesmo com alertas de risco de gases tóxicos no ar, muitas pessoas foram às ruas para avaliar os estragos, antes de começar a reconstrução.

“Quanto mais perto chegávamos do porto, mais desastroso parecia. É uma cena apocalíptica mesmo. Assustador”, diz à Folha Catherine Otayek, 25, voluntária na ONG Offre Joie (dar alegria, em francês), que passou a quarta-feira nas ruas tentando ajudar.

A intensidade das explosões chegou a ser detectada pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), que monitora atividades sísmicas em todo o mundo. O impacto em Beirute foi registrado como equivalente a um terremoto de magnitude 3.3.

Segundo testemunhas, o estampido da explosão foi ouvido até na cidade costeira de Larnaca, no Chipre, a cerca de 200 km da costa libanesa.

De acordo com o primeiro-ministro do Líbano, Hassan Diab, o incidente foi causado por 2.750 toneladas de nitrato de amônio estocadas na região portuária há seis anos "sem medidas preventivas".

A substância é comumente usada como fertilizante, mas também na confecção de artefatos explosivos e pirotécnicos. De acordo com especialistas, há risco de explosão se a substância entrar em contato com altas temperaturas, fogo, combustível ou alguma fonte de ignição, por exemplo.

No epicentro da tragédia, o panorama é desolador: carros foram incinerados e lixeiras parecem latas de conserva retorcidas. Nas ruas de Beirute, soldados ainda retiram moradores atordoados, muitos ensanguentados, com camisas amarradas ao redor da cabeça para conter os ferimentos.

Paredes de prédios foram destruídas, janelas quebraram, carros foram virados de cabeça para baixo e destroços bloquearam várias ruas, forçando feridos a caminhar em meio à fumaça até hospitais.

"Vi muitas cenas repugnantes", conta Ibrahim Yousef, funcionário de uma loja no centro de Beirute. "Vi pessoas mortas, vi pessoas correndo e gritando enquanto carregavam seus filhos, pessoas que perderam seus filhos, outras procurando pela mãe. Foi horrível, foi difícil."

debilitado por anos de dificuldades políticas e econômicas, o Líbano agora depende de ajuda internacional para tentar se reerguer.

O sistema de saúde, sobrecarregado pelo atendimento a pacientes contaminados pelo coronavírus, luta para conseguir atender as vítimas da explosão.

Países como França, Alemanha, Turquia, Rússia, Qatar e Irã anunciaram o envio de assistência médica, profissionais de saúde, hospitais de campanha, equipamentos cirúrgicos e equipes de busca e salvamento.

Localmente, uma rede de solidariedade também começou a se fortalecer nas redes sociais. Perfis em diferentes plataformas têm feito publicações para ajudar a localizar os desaparecidos e oferecer moradia aos milhares de desabrigados.

"Entre em contato comigo se você ou alguém que você conhece precisar de abrigo", escreveu uma usuária no Twitter. "A casa da minha família não foi afetada e está aberta. Também podemos providenciar transporte."

Outro perfil, antes destinado a monitorar os protestos que se espalharam pelo país, agora faz um mapeamento dos locais disponíveis para abrigar aqueles que perderam suas casas.

Usando a hashtag #ourhomesareopen (nossas casas estão abertas), o movimento se espalha pelas redes para tentar amenizar a grave crise humanitária.

Enquanto as causas da explosão ainda são inestigadas, a segurança alimentar dos libaneses também está ameaçada.

De acordo com o ministro da Economia, Raoul Nehme, a explosão destruiu o principal silo de grãos do país, deixando o Líbano com menos de um mês de reservas de trigo.

O ministro afirmou que há navios a caminho para cobrir as necessidades a longo prazo. O porto de Beirute, entretanto, era a principal porta de entrada para os alimentos importados.

"Tememos que haja um enorme problema na cadeia de suprimentos, a menos que haja um consenso internacional para nos salvar", disse Hani Bohsali, chefe do sindicato dos importadores.

Agências da ONU estão reunidas nesta quarta-feira para coordenar os esforços de socorro a Beirute, disse Tamara al-Rifai, porta-voz da agência palestina de refugiados.

"As pessoas são extremamente pobres, é cada vez mais difícil para qualquer um comprar comida, e o fato de Beirute ser o maior porto do Líbano torna a situação muito ruim."

Segundo ela, o porto de Trípoli, a segunda maior cidade do país, localizada a 85 km da capital, é a principal alternativa no momento, mas pode não ser capaz de atender as demandas dos libaneses.

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