Militares que deram golpe no Mali prometem realizar eleições em 'tempo razoável'

Conselho de Segurança da ONU exige liberação de autoridades e volta da ordem constitucional

Bamaco (Mali), Johanesburgo, Washington e Brasília | Reuters

Um dia após terem dado um golpe de Estado, militares do Mali prometeram que haverá eleições no país, ainda que não tenham estabelecido uma data para realizar a votação.

"Não estamos ansiosos pelo poder, mas sim pela estabilidade do país, que nos permitirá realizar eleições gerais dentro de um tempo razoável", disse o coronel Ismael Wague em discurso na TV estatal.

O grupo que tomou o poder se identificou como Comitê Nacional para a Salvação do Povo —nesta quarta (19), um coronel até então desconhecido do universo político no país, Assimi Goita, apresentou-se como líder da junta militar que comandou o motim.

Soldados circulam em rua de Bamaco, capital do Mali, no dia seguinte ao golpe de Estado
Soldados circulam em rua de Bamaco, capital do Mali, no dia seguinte ao golpe de Estado - Annie Risemberg/AFP

O golpe se consolidou nesta terça (18), após os amotinados prenderem o presidente, Ibrahim Keita, o primeiro-ministro, Boubou Cissé, ministros de Estado e generais do país, gerando repúdio generalizado da comunidade internacional.

Depois de ser detido, Keita renunciou e dissolveu o Congresso. Ele disse que tomou a decisão para evitar o derramamento de sangue.

"O Mali se encontra em uma situação de crise sociopolítica e de segurança. Não podemos errar mais", afirmou Goita, cercado de homens armados durante uma entrevista coletiva. "Com a intervenção de ontem, o que fizemos foi colocar o país acima de tudo."

O anúncio aconteceu logo após o Conselho de Segurança da ONU condenar a ação. O órgão instou os amotinados a soltarem as autoridades e pediu aos soldados que retornassem aos seus quartéis.

O conselho também disse ser urgente a necessidade de restaurar o estado de direito e de colocar o país de volta ao caminho da ordem constitucional.

Também nesta quarta, a França, por meio de Jean-Yves Le Drian, ministro das Relações Exteriores, exigiu novamente a libertação de Keita e das outras autoridades, mas disse reconhecer a renúncia do presidente.

O Itamaraty emitiu uma nota afirmando que "acompanha, com grande atenção, a situação no Mali e conclama ao diálogo amplo entre as forças políticas do país, em um processo pacífico de resolução das tensões internas".

"O Brasil, tendo em conta as ótimas relações que vem mantendo com o Mali, saúda os esforços em curso na busca de uma solução pacífica, no quadro da institucionalidade democrática", diz o texto.

Antes da confirmação da prisão dos líderes do país, o embaixador brasileiro para o Mali, Rafael Vidal, havia afirmado à Folha que o Brasil seguia apoiando a "ordem institucional" e o "presidente legitimamente eleito do país, Ibrahim Keita".

Vidal havia dito que "Keita tem sido hábil negociador e tem trabalhado duro pela estabilidade política, preservação da democracia e retorno da segurança na luta contra o terrorismo".

Desde o golpe, organismos internacionais e países também condenam a ação militar.

A União Africana, entidade que reúne 55 países do continente, e a Cedeao (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental) suspenderam o Mali dos blocos até que a ordem constitucional seja restabelecida.

A Cedeao também determinou o fechamento das fronteiras de seus integrantes com o Mali. A entidade disse que não toleraria golpes na região e pretende enviar uma missão ao país para tentar negociar a volta à democracia.

A liderança do grupo Sahel G5, que reúne o Mali e seus vizinhos, pediu a soltura de Keita. Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul, também criticou o ato militar e exigiu a volta imediata ao poder civil.

Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, condenou duramente o golpe e pediu a volta do governo constitucionalmente eleito.

Charles Michel, presidente do Conselho Europeu (um dos órgãos de comando da União Europeia), disse que a derrubada de Keita gera fortes preocupações e pode desestabilizar toda a região oeste da África. Ele também pediu a libertação dos líderes presos.

Antes de Goita surgir como líder da junta militar, os amotinados haviam feito um discurso pela manhã na TV estatal —retirada do ar durante as ações desta terça.

O coronel Ismael Wague tentou arrefecer a pressão internacional ao afirmar que os exércitos de países vizinhos, as forças francesas que lideram uma coalizão internacional de combate a jihadistas no norte do país e as forças de manutenção de paz da ONU são "parceiros pela estabilidade e para a restauração da segurança".

Países da região e potências mundiais temem que a instabilidade no Mali prejudique a luta contra grupos extremistas islâmicos que protagonizam conflitos na região oeste do Sahel —faixa de clima semi-árido abaixo do deserto do Saara e acima da floresta tropical africana.

Uma intervenção militar internacional foi lançada em janeiro de 2013, por iniciativa da França, para conter grupos radicais islâmicos que dominam o território desde 2012.

Os franceses têm mais de 5.000 militares nessa região como parte de esforços internacionais bilionários, que ainda não conseguiram acabar com o conflito na região. A Minusma, forças de manutenção da paz da ONU, já enviou mais de 13 mil militares para a missão no país, contabilizando 209 mortos.

Esse é um dos motivos pelo qual os líderes do país eram pressionados a renunciar.

Os manifestantes reclamavam da corrupção no governo, da crise econômica no país e da ineficiência da coalizão que tenta combater os extremistas islâmicos há oito anos.

Desde junho, grandes protestos tomaram as ruas de Bamaco. Os atos se mantinham pacíficos até que a polícia passou a reprimir os manifestantes, deixando ao menos 14 mortos em um fim de semana.

A partir de então, o movimento passou a pedir a renúncia do presidente.

A Cedeao tentou apaziguar a situação no Mali em três oportunidades. Na última, após uma conferência extraordinária com todos os Estados-membros, o bloco fez uma série de recomendações para pacificar a oposição e os manifestantes.

Entre elas, a formação de um governo de união nacional que incluísse a oposição e a renúncia de 31 deputados eleitos após uma controversa decisão do Tribunal Constitucional do país que favoreceu o governo de Keita, além da recomposição da próprio tribunal, dissolvido em resposta aos atos.

O governo tentou colocar as recomendações em prática, mas a oposição não cedeu e seguiu pedindo a queda do presidente e de seu governo. Keita foi eleito presidente em 2013 e reeleito em 2018.

Quem liderava os protestos eram a frente de oposição M5-RFP, cujo nome faz referência ao dia 5 de junho, data de início das manifestações, e o clérigo muçulmano Mahmoud Dicko.

Segundo fontes ouvidas pela Folha, nenhum dos líderes da junta militar era conhecido fora do Exército e eles não tinham ligações diretas com a frente de oposição M5-RFP ou com o imã.

Apesar de os protestos serem heterogêneos, unindo diferentes grupos religiosos e políticos, Dicko era visto como a força que galvanizava os atos. O religioso, um ex-apoiador do presidente Keita, sempre afirmou que não tinha intenção de assumir qualquer cargo político.

Nesta quarta, ele se encontrou com a junta que liderou o golpe. Não há informação sobre o que foi tratado, mas, segundo a agência Reuters, o porta-voz do imã afirmou que ele decidiu se afastar da política.

Dicko ganhou notoriedade no Mali a partir de 2009. Então presidente do Alto Conselho Islâmico do país, ele liderou manifestações contrárias a leis que ampliariam o direito das mulheres no país.

Ele se manteve no cargo por uma década e, durante o período, liderou negociações com jihadistas do norte do país.Também promoveu manifestações que derrubaram outro primeiro-ministro de Keita em 2019.

O seu alegado afastamento da política pode sinalizar que Dicko conseguiu o que queria, ao menos até o momento.

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