Após 3ª morte entre manifestantes, líder autocrata da Belarus ordena repressão a protestos

Há 10 dias, atos na capital bielorrussa pedem renúncia de Lukachenko e atraem atenção internacional

Minsk | Reuters

O líder autocrata da Belarus, Aleksandr Lukachenko, ordenou nesta quarta-feira (19) que as forças de segurança do país acabem com os protestos contra seu governo que ocorrem há mais de dez dias na capital, Minsk.

À noite, no entanto, centenas de pessoas se reuniram mais uma vez no centro da cidade e não houve registro de repressão.

Manifestantes gritavam para os policiais distribuídos em diversos carros: "Renuncie!" e "Liberte-os", em referência aos milhares de presos desde o início dos atos contra o contestado resultado eleitoral que deu nova vitória a Lukachenko.

"Não deveria mais haver qualquer tipo de desordem em Minsk", disse Lukachenko em declarações divulgadas pela Belta, agência de notícias estatal. “As pessoas estão cansadas. As pessoas exigem paz e sossego."

Além de pedir providências contra os atos ao Ministério do Interior (responsável pela segurança interna do país), o autocrata determinou um reforço na segurança das fronteiras para impedir a entrada de "combatentes e armas".

Na manhã desta quarta, morreu a terceira vítima que se tem registro da violenta repressão policial aos atos.

Gennady Shutov, 43, estava hospitalizado desde o dia 11, quando recebeu um tiro na cabeça, na cidade de Brest. Segundo testemunhas, ele não resistiu aos policiais nem os atacou. O tiro teria vindo do telhado de um prédio.

O Ministério do Interior bielorrusso havia confirmado que a polícia usara munição letal em Brest, segundo o governo em defesa própria; manifestantes negam que tenham ameaçado a tropa de choque. Mais de cem pessoas ficaram feridas e 23 foram hospitalizadas na cidade entre os dias 9 e 11.

Manifestantes protestam contra o governo de Lukachenko em Minsk, capital da Belarus - Sergei Gapon - 18.ago.20/AFP

O primeiro morto registrado por causa dos protestos foi Alexander Taraikovsky, 34, no dia 10, em Minsk, durante reação policial. O atestado de óbito indica como causa principal da morte perda expressiva de sangue por “uma ferida aberta no peito”.

O governo diz que um artefato explosivo que ele tentava arremessar contra a polícia havia explodido em suas mãos, embora isso não apareça em imagens do caso.

Já Alexander Vikhor, 25, foi detido em Gomel quando dirigia no dia 9 e morreu sob custódia do governo, no dia 11. Segundo o relatório oficial, ele teve problemas cardíacos.

A oposição teme que, além de voltar a usar a polícia de forma ostensiva contra movimentos, o governo esteja agindo nas sombras para punir opositores.

Nesta quarta, em Vawkavysk, no sudoeste do país, foi encontrado o corpo de um diretor de museu de 29 anos que se recusara a assinar o relatório de sua seção eleitoral afirmando que ele havia sido fraudado. Segundo a polícia, ele se enforcou.

Ele havia desaparecido no sábado (15), primeiro dia de trabalho após as eleições do dia 9. Seu último contato com a família foi um telefonema para a mulher dizendo que não trabalharia mais no museu e estava voltando para casa.

Embora tenha havido recuos na violência da repressão, o governo ensaiou alguns avanços desde o último domingo. Policiais da tropa de choque impediram uma concentração de trabalhadores da fábrica de tratores MTZ na manhã desta quarta (19) em Minsk e chegaram a deter alguns deles.

Funcionários que haviam pedido licença no dia anterior para apoiar a greve da MZKT, outra importante indústria do país, foram impedidos de entrar na fábrica. Sob chuva, moradores da região e trabalhadores de outras fábricas tentam impedir que os policiais façam mais prisões.

O uso da polícia é um passo além da tentativa de intimidar grevistas com ameaças de demissão, que vinha sendo contrabalançada por iniciativas de apoio a demitidos em várias cidades.

Um fundo de solidariedade para atingidos pelo governo desde as eleições havia superado US$ 1 milhão (R$ 5,5 milhões) na noite de terça (18).

Segundo a Belta, Lukachenko disse nesta quarta que um grupo de trabalhadores da mídia estatal que entrou em greve como parte dos protestos não teria permissão para retornar aos seus empregos.

Atores de um dos principais teatros do país, Kupalovsky, também foram impedidos de entrar no edifício. Uma bandeira branca e vermelha (símbolo adotado pelos oposicionistas), pendurada no teatro na segunda-feira, foi retirada.

O Kupalovsky tornou-se um foco de protestos quando seu diretor, um ex-diplomata bielorrusso, foi demitido depois de se pronunciar a favor dos comícios da oposição.

No início da noite desta quarta-feira (início da tarde, no horário de Brasília), centenas de manifestantes se reuniram em frente à sede do Ministério do Interior. Um grande número de policiais estava no local, mas não houve nenhuma operação para dispersar o protesto.

"Claro, por ser uma menina eu tenho medo", disse uma manifestante à agência de notícias Reuters. "Tenho medo todas as vezes. Mas tenho ainda mais medo de que nada mude. Portanto, temos medo, mas saímos [às ruas]."

Além das pressões contra greves, o governo procurou mostrar que também tem apoio popular. Uma manifestação a favor de Lukachenko reuniu milhares de pessoas em Gomel, no sudeste do país. Cerca de 50 ônibus oficiais levaram manifestantes, segundo fotos publicadas em sites jornalísticos.

Na mesma cidade houve também protesto pela saída do líder bielorrusso, sem confronto entre os dois grupos. Manifestações pedindo a renúncia de Lukachenko e novas eleições aconteceram em dezenas de cidades, e em algumas delas, como Grodno, no oeste do país, governos locais atenderam a reivindicações como soltar todos os presos políticos e permitir protestos em qualquer lugar da cidade, sem autorização prévia.

Na noite de terça, a principal candidata de oposição, Svetlana Tikhanovskaia, divulgou um vídeo em que se dirige diretamente aos líderes dos 27 países-membros da União Europeia (UE), que se reuniram nesta quarta.

"Lukachenko perdeu toda a legitimidade aos olhos de nossa nação e do mundo", diz Tikhanovskaia no vídeo, gravado na Lituânia, onde ela se exilou após o resultado das eleições.

Os vários movimentos que a apoiaram formaram na terça um conselho de transição, do qual faz parte uma de suas principais aliadas durante a campanha, a musicista Maria Kalesnikava.

A ativista bielorrussa Veronika Tsepkalo também planeja se encontrar com Tikhanovskaia, a quem considera "a única presidente legítima" na Belarus.

O marido de Tsepkalo, Valeri, um ex-embaixador em Washington, foi impedido de concorrer nas eleições e fugiu para a Rússia com os dois filhos antes da votação.

Depois de assumir o lugar do marido no pleito, Tsepkalo também decidiu fugir da Belarus ao receber ameaças de prisão. Atualmente, ela está na Polônia, mas indicou que não pretende voltar à Belarus tão cedo, devido às chances de ser presa, que ela considera "muito, muito altas".

"Eu gostaria de me sentar com Svetlana e discutir o que faremos em um futuro próximo, porque entendemos que o movimento que iniciamos continuará por algum tempo", disse à Reuters. "Nosso principal alvo é fazer Lukachenko sair."

Com o conselho de transição e o vídeo dirigido ao Conselho Europeu, a oposição ao governo da Belarus tenta encontrar caminhos institucionais para obter resultados concretos da insatisfação popular.

A UE, por sua vez, quer evitar uma repetição da violência na vizinha Ucrânia, onde um líder pró-Moscou foi deposto em um levante popular há seis anos, que desencadeou uma intervenção militar russa e um dos conflitos mais severos da história recente do continente.

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, defendeu que não haja interferência externa na Belarus e disse que não vê a si mesma como uma possível mediadora na crise. A alemã contou que tentou telefonar para Lukachenko, mas ele se recusou a falar com ela.

"Para nós, é claro que a Belarus deve encontrar seu próprio caminho, isso deve acontecer por meio do diálogo no país e não deve haver nenhuma intervenção de fora", disse Merkel.

Nesta quarta, Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, que reúne os governos nacionais da UE, disse que a reunião do bloco tem o objetivo de "discutir a melhor forma de responder à evolução da situação na Belarus".

"Nossa mensagem é clara. A violência deve parar, e um diálogo pacífico e inclusivo deve ser lançado", escreveu Michel, em uma rede social. "A liderança da Belarus deve refletir a vontade do povo."

Durante a cúpula de emergência, Michel afirmou que UE não reconhece o resultado das eleições na Belarus e que o bloco "vai impôr sanções em breve a um número substancial de indivíduos responsáveis por violência, repressão e fraude eleitoral".

"Deixei claro para [o presidente da Rússia, Vladimir] Putin que acreditamos que é a população bielorrussa que deve decidir sobre seu futuro." Segundo Michel, o Kremlin concordou que deve evitar interferências na Belarus.

Ao dizer que as eleições bielorrussas não foram livres, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, foi questionada se isso significava que a UE estava exigindo a realização de um novo pleito.

A líder do braço executivo da UE respondeu que essa exigência é uma demanda da população bielorrussa, e que cabe à Belarus decidir sobre seu próprio futuro.

Entre as medidas adotadas pela UE está o direcionamento de 53 milhões de euros (R$ 347 milhões) para Belarus. De acordo com o anúncio feito por Von der Leyen, a ajuda milionária será destinada à assistência de vítimas de repressão e violência do Estado, ao apoio à sociedade civil e à mídia independente e funcionará como suporte de emergência contra os efeitos da pandemia do coronavírus na saúde e na economia do país.

Além da rejeição expressiva da população à tentativa de Lukachenko de se manter no poder pelo sexto mandado consecutivo, desde 1994, há demissões constantes de oficiais da polícia, funcionários da mídia estatal e membros da administração.

A atitude do líder bielorrusso de condecorar 300 pessoas na terça, entre elas centenas de policiais, foi lida por oposicionistas como uma tentativa de intimidação das forças de segurança contra eventuais deserções.

Ao premiá-los, o governo publicou no Diário Oficial os nomes de todos os condecorados, expondo-os aos grupos de direitos humanos que tentavam identificar os autores da repressão violenta que começou no dia da eleição, 9 de agosto, e se estendeu até o dia 12.

No programa de TV russo "60 Minutos", o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, afirmou, na manhã desta quarta, que as eleições em Belarus "não foram as ideais".

"Claro que não. Existem muitas evidências disso. Isso também é reconhecido pela liderança bielorrussa, que está tentando entrar em um diálogo com os cidadãos que protestam contra o que consideram uma violação de seus direitos", afirmou.

Lavrov declarou também que a Rússia está preocupada "com a tentativa de usar as dificuldades internas enfrentadas pela Belarus para impôr visões externas".

"Espero sinceramente que os bielorrussos consigam resolver seus assuntos e não sigam o exemplo daqueles que promovem a conhecida lógica destrutiva 'ou você é da Federação Russa ou da Europa' para tentar dominar o espaço geopolítico", disse ele.

Na semana passada, Lukachenko apelou ao presidente russo, Vladimir Putin, sob o argumento de que o impacto dos atos contra seu governo poderia se espalhar para além das fronteiras bielorrussas.

Nesta quarta, o primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, e seu homólogo na Belarus, Roman Golovchenko, conversaram por telefone e concordaram em aprofundar os laços entre os dois países.

De acordo com um comunicado divulgado pelo Kremlin, eles "discutiram desafios concretos relacionados à expansão do comércio russo-bielorrusso, aos laços econômicos e ao aprofundamento da cooperação em energia, indústria e outros campos."

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