Descrição de chapéu Televisão Maratona

Minissérie mostra dor de famílias atingidas pelo separatismo no País Basco

'Pátria', nova produção da HBO, segue personagens que têm vidas atravessadas pelo ETA

São Paulo

País Basco, anos 1970. Um homem de meia-idade se despede da mulher, que cochilava na poltrona da sala. Ela pergunta se ele quer café, ainda relutando em acordar. Diante da negativa dele, volta a pregar os olhos. Mas o sono logo é interrompido novamente, dessa vez por três tiros. Ela levanta, assustada, mas parece já saber o que encontraria —o marido, estirado na rua, coberto de sangue.

Apesar de o assassinato servir de faísca para a narrativa, essa é “uma história sem mocinhos nem vilões”, como sintetiza a orelha do livro “Pátria”. A tragédia familiar escrita pelo espanhol Fernando Aramburu agora é adaptada à TV, numa minissérie homônima que a HBO estreia neste domingo (27).

A trama alterna passado e um quase presente para acompanhar a relação de duas famílias num vilarejo do País Basco. A primeira delas sofre uma perda traumática, quando o pai é morto por membros do ETA —o Euskadi Ta Askatasuna, ou Pátria Basca e Liberdade—, milícia que por décadas pegou em armas para tentar libertar a região dos governos espanhol e francês.

A outra família, antes muito próxima dessa primeira, se vê obrigada a romper a amizade, já que um dos filhos é membro do grupo separatista. Aos poucos, os pais dele também se tornam defensores da causa.

“Não acredito que existam pessoas boas e más —todos somos às vezes bons e às vezes maus. Seres humanos são assim. E, nos filmes, séries ou novelas, é importante que os personagens tenham nuances”, diz Aitor Gabilondo, 46, criador e roteirista da minissérie.

“Os personagens de ‘Pátria’ são complexos e foram obrigados pelas circunstâncias a se expressarem diante de um conflito que é muito maior que eles. Acho que isso vai chamar a atenção do espectador, porque ele vai refletir sobre o que faria em uma situação como essa.”

Gabilondo é hoje um dos criadores e roteiristas mais requisitados da TV espanhola, com séries de grande sucesso regional no currículo, como “El Príncipe” e “O Sucessor”, que chegou ao Brasil pela Netflix.

Ataque a bomba do ETA em 1973 matou o premiê Luis Carrero Blanco, em Madri
Ataque a bomba do ETA em 1973 matou o premiê Luis Carrero Blanco, em Madri - Europapress/AFP

No cerne da minissérie, diz ele, está uma história com a qual qualquer pessoa pode se identificar. É uma trama que fala sobre como duas mulheres comuns precisam lidar com as tragédias geradas pelo conflito.

Gabilondo tem uma característica em comum com Fernando Aramburu, o autor de “Pátria”. Ambos nasceram em San Sebastián, uma cidade costeira no País Basco. Assim como as duas mulheres que guiam a trama, eles também foram, em algum nível, impactados pelo conflito.

“Creio que qualquer pessoa que tenha a minha idade ou mais e que viveu na região foi atravessada por essa realidade que nós não escolhemos, mas que simplesmente existia”, explica. “Todos nós estamos condicionados, emocionalmente, àquelas circunstâncias. Conheço muitas pessoas, familiares ou amigos, que estiveram relacionados ao conflito de uma forma mais direta.”

O roteirista, no entanto, esquiva-se ao ser questionado sobre a própria visão do separatismo basco e salienta que qualquer posicionamento é legítimo, desde que a violência não seja usada para defendê-lo. “Não tenho opinião política, a minha proximidade com essa história se dá num nível emocional."

Gabilondo já não mora no País Basco há anos, mas diz que costuma visitar a família com frequência. Ele afirma ter sentido um grande alívio quando o ETA anunciou, em 2018, sua dissolução, encerrando um ciclo de seis décadas que provocou a morte de mais de 800 pessoas.

“Mais do que iniciar uma polêmica, gostaria que a minissérie abrisse um debate. Essa é uma pretensão grande para uma pequena série de TV, mas é importante falar sobre como lidamos com essa dor e sobre como precisamos avançar —documentando a memória e seguindo em frente."

Pátria

  • Quando Estreia neste domingo (27), às 21h, na HBO e na HBO Go
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