Descrição de chapéu Venezuela

'Se Maduro quer roubar, tem que ser diante dos olhos do mundo', diz líder opositor na Venezuela

Henrique Capriles defende escolha de participar de eleições legislativas, diferentemente de Guaidó

Buenos Aires

"Se não fizermos nada, não vai acontecer nada. Precisamos, pelo menos, dar trabalho a Nicolás Maduro para que ele tenha que cometer uma fraude nas eleições. Não pode ser que tudo seja fácil para a ditadura."

Assim o ex-candidato a presidente e ex-governador do estado de Miranda Henrique Capriles Radonski, 48, justifica sua posição de participar das eleições legislativas na Venezuela, marcadas para 6 de dezembro. Mesmo que ainda esteja inelegível, atua nos bastidores para que parte da oposição participe do pleito.

A convocação marca um racha entre Capriles e o atual líder da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, cujo mandato terminará em 5 de janeiro. Guaidó, que se proclamou presidente interino e tem o apoio de mais de 50 países, convocou um "pacto de unidade" com 37 partidos que pretendem boicotar o pleito.

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Você estava apoiando Guaidó. Agora não mais. O que aconteceu? Quero deixar claro que o que estou fazendo não é lutar pelo protagonismo nem pela liderança da oposição. O tempo passou, a estratégia de Guaidó não funcionou. A política muda. Não há plano da oposição para enfrentar a ditadura, e precisamos de um. Entre o realismo, que é a ditadura, e o ilusionismo, que é essa "presidência na internet", de Guaidó, precisamos ser realistas.

A Constituição diz que deve haver uma eleição legislativa a cada cinco anos. Então temos que fazer essa eleição, não porque Maduro quer, mas porque é hora de fazer. Não acho que não vai haver fraude. Mas não podemos deixar de participar da luta. Temos de subir no ônibus para dizer que ele não funciona. Não adianta nada ficarmos parados no ponto e, depois que o ônibus passar, sem a gente a bordo, nós ficarmos gritando que o ônibus está com problemas.

O opositor Henrique Capriles Radonski durante entrevista em Caracas, na Venezuela
O opositor Henrique Capriles Radonski durante entrevista em Caracas, na Venezuela - Oscar Gonzalez Grande - 29.jul.17/Folhapress

Mas Guaidó conseguiu avanços, também, ao obter apoio internacional e conseguir mais sanções a funcionários da ditadura. Como fica isso? São elogiáveis os resultados que obteve, e por isso estive apoiando. Mas as sanções têm limite. Se não conseguem derrubar a ditadura, começam a causar dano à população. E é o que está acontecendo. O que Guaidó conseguiu não bastou. Eu também quero, como ele, eleições livres. E não quero polarizar com ele. Temos conversado. Mas creio que temos de ser realistas. Aqui temos um tema de utilidade. Os avanços que ele conseguiu não serviram para o objetivo final, que era tirar Maduro do poder.

Então, precisamos de outra estratégia. Foi o fato de termos participado da eleição de 2015 que deu espaço e projeção para Guaidó lançar sua proposta. A legitimidade dele veio pelas urnas. Maduro não tirou a legitimidade da Assembleia Nacional. Teve de ter o trabalho de esvaziar seu poder por outros meios, porque não pôde derrubá-la. Temos de continuar dando esse trabalho a Maduro. Não entregar-lhe a Assembleia assim, de bandeja.

Em 2005 ocorreu isso. Foi um erro? Esse é o melhor exemplo. Tanto foi um erro que demoramos mais de dez anos para voltar à política. A oposição boicotou aquelas eleições, e [o ex-presidente Hugo] Chávez ficou com grande poder. Ditou leis, projetos, foi contra a Constituição.

Mas a oposição tentou participar das eleições depois da Constituinte: as regionais, a de governadores e a presidencial de 2018, e houve fraude em todas... Sim, e eu também não acho que essa eleição vá resolver as coisas, mas há uma brecha para fazer algo. E temos de pressionar para que a comunidade internacional venha, que a União Europeia esteja aqui para observar. Se Maduro quer roubar, tem de fazer isso diante dos olhos do mundo. E tem de perceber que, cada vez que ele quiser fraudar uma eleição, vai ter um custo, vai ser um desgaste a mais para ele.

Além disso, todos os países descartam a ação militar, até os EUA. Então, o que nos resta? Participar do jogo político como for. Aproveitar as oportunidades, por pequenas que sejam. Temos de deixar claro que o arbitrário aqui é Maduro, e que democráticos somos nós. Não podemos posar de intransigentes.

Guaidó agora fala em uma consulta popular, mas ela já existiu, em 2017. Você acha válida? Não creio que votações simbólicas nos ajudem mais em nada. Guaidó pode realizá-la, eu o respeito. Mas de que serve? A de 2017 havia dado força à oposição e, semanas depois, tivemos de engolir a Assembleia Nacional Constituinte a seco. Talvez funcione como símbolo, mas não será útil na prática. A política de símbolos, como a ideia de Presidência interina não funcionou, esgotou-se.

E qual a proposta dos mais de 200 candidatos que sua aliança [Fuerza del Cambio] lançará nessa eleição? É justamente a de voltar à política real. E mostrar ao mundo que queremos estar numa política real, não simbólica. Queremos que, com a ajuda da comunidade internacional, Maduro entenda que é melhor ele jogar o jogo democrático que o da força. O discurso da força e da repressão não conta com todos os apoios dentro do chavismo, há com quem dialogar aí. Com o agravamento da situação econômica, com a pandemia, essas vozes do diálogo podem ser mais numerosas.

Foi com elas que dialogou para a liberação dos 110 presos políticos, no final de agosto? A política é feita de diálogos, e eu estive lutando pela liberação de [Juan] Requesens por muitos meses. Esse tipo de liberação não ocorre sem política. É preciso tentar liberar todos. É preciso que se entenda que a política é feita com pessoas. Eu falei com pessoas, não tenho vetos a falar com ninguém.

E como ainda não conseguiu a sua própria liberação? Porque você ainda está inelegível. Para que se veja que não é simples e que não deixarei de expôr Maduro sempre que for possível. Ele nos últimos dias disse que [o ex-presidente boliviano] Evo Morales e [o ex-presidente equatoriano] Rafael Correa são perseguidos políticos e que por isso a Justiça da Bolívia e do Equador não os deixa concorrer. E o que Maduro fez comigo? Foi exatamente a mesma coisa. Eu gostaria de ter sido candidato em 2018. Vamos continuar lutando pela liberação de todos.

Você também propôs uma nova data para a eleição. Acha que a pandemia está piorando? Sim, aqui começamos depois, porque estamos mais isolados do mundo. Mas agora começou a pegar forte, embora o governo tente esconder isso. Não sou médico, mas pela observação dos outros países, creio que em dezembro é possível que isso aqui esteja muito pior. Além disso, não há como fazer campanha eleitoral com quarentena. Para mim, o ideal seria que fosse no começo do ano que vem. Mas creio que Maduro quer resolver logo. Ou seja, será outra luta que teremos de enfrentar, sem perder de vista que ele desejará que o mandato da atual Assembleia Nacional termine de fato em 5 de janeiro, desarticulando a oposição que está no parlamento.


Henrique Capriles, 48

Formado em direito, foi eleito deputado federal em 1998, aos 26 anos, pela democracia cristã. Em 2000, deixou a sigla para fundar um novo partido, o Primeira Justiça, pelo qual se elegeu prefeito de Baruta e depois governador do estado de Miranda. Foi o candidato da oposição nas eleições presidenciais de 2012 e 2013, mas perdeu respectivamente para Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Em 2017 teve seus direitos políticos cassados pelo regime.

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