Descrição de chapéu The New York Times

Trump vira figura cult e inspiradora para extrema direita alemã

Neonazistas se identificam com nacionalismo, tolerância com supremacistas e ceticismo com pandemia de presidente americano

Berlim | The New York Times

​Momentos antes de centenas de ativistas de extrema direita tentarem invadir a sede do Parlamento alemão, recentemente, uma das líderes procurou mobilizar a multidão falando o nome de Donald Trump.

“Trump está em Berlim!”, gritou a mulher de cima de um pequeno palco, como se estivesse dedicando a invasão iminente ao presidente americano.

Ela foi tão convincente que vários grupos de ativistas de extrema direita compareceram à embaixada dos EUA mais tarde para pedir uma audiência com Trump. “Sabemos que ele está aí dentro!”, insistiram.

Manifestantes participam de protesto em Berlim contra as medidas de restrição do governo alemão para tentar barrar o coronavírus
Manifestantes participam de protesto em Berlim contra as medidas de restrição do governo alemão para tentar barrar o coronavírus - Christian Mang - 29.ago.20/Reuters

Trump não estava na embaixada naquele dia, nem na Alemanha —mas estava presente, mesmo assim.

Seu rosto estampava faixas, camisetas e até mesmo a bandeira imperial alemã pré-1918, popular entre os neonazistas presentes na multidão de 50 mil pessoas reunidas para protestar contra as restrições impostas no país para combater a pandemia. Seu nome foi evocado por muitos com fervor messiânico.

Foi apenas a prova mais recente de que Trump vem emergindo como uma espécie de figura cult no cenário cada vez mais diversificado da extrema direita alemã.

A Alemanha, cuja população de modo geral apoia um governo que vem lidando com a pandemia melhor do que a maioria dos países, pode parecer um lugar improvável para Trump adquirir esse tipo de status. Poucos outros países ocidentais têm tido um relacionamento mais contencioso com o americano.

Cientista por formação e filha de um pastor, a líder alemã, Angela Merkel, é o oposto de Trump em seus valores e temperamento. Pesquisas de opinião indicam que Trump é profundamente impopular entre a maioria dos alemães.

Mas sua mensagem de ruptura —seu nacionalismo declarado e sua tolerância com supremacistas brancos, aliada a seu ceticismo em relação aos perigos da pandemia— vem se propagando para muito além das fronteiras dos Estados Unidos, dizem observadores do extremismo.

Em um universo de desinformação que cresce em ritmo acelerado, essa mensagem encerra riscos reais para as democracias ocidentais, dizem os observadores, na medida em que ela confunde a linha divisória entre notícias reais e falsas, permitindo a grupos de extrema direita estender seu alcance para além de suas bases tradicionais, semeando o potencial de radicalização violenta.

A atração que Trump exerce sobre as margens do espectro político acrescenta um elemento novo e imprevisível à política alemã, isso em um momento em que a agência de inteligência doméstica identificou o extremismo e o terrorismo de extrema direita como os maiores riscos à democracia alemã.

Apenas recentemente é que as autoridades tomaram consciência de um problema de infiltração da extrema direita na polícia e nas forças armadas.

Nos últimos 15 meses, terroristas de extrema direita assassinaram um político regional na entrada de sua casa perto da cidade de Kassel, na região central do país, atacaram uma sinagoga em Halle, no leste da Alemanhã, e mataram a tiros nove pessoas de origem imigrante em Hanau, no oeste do país.

Trump foi citado no manifesto do assassino de Hanau, que elogiou a política de “América em Primeiro Lugar” do presidente americano.

Na Alemanha, assim como nos EUA, Trump virou fonte de inspiração para esses grupos marginais.

Entre eles figuram não apenas movimentos de direita radical e neonazistas estabelecidos de longa data, como também, mais recentemente, seguidores da QAnon, teoria conspiratória propagada na internet e popular entre alguns dos seguidores de Trump nos EUA, que encara o presidente como herói e libertador.

A comunidade QAnon na Alemanha mal existia quando a pandemia chegou ao país, em março, mas hoje, ao lado da britânica, talvez seja a maior do mundo fora dos EUA, dizem analistas que monitoram seus canais online mais populares.

Matthias Quent, especialista na extrema direita alemã e diretor de um instituto que estuda a democracia e a sociedade civil, descreve o que vem ocorrendo como “a trumpificação da extrema direita alemã”.

“Trump conseguiu atrair setores diferentes, e é o que estamos vendo acontecer também neste país”, disse. “Temos pessoas de todas as vertentes, desde proponentes do movimento antivacinas até neonazistas, participando de marchas contra as medidas de combate ao coronavírus. O denominador comum é que são pessoas que estão abandonando o mainstream, que estão enfurecidas com o establishment.”

Trump, acrescentou ele, “é o cara que está combatendo o establishment democrático liberal”.

A mensagem do republicano tem sido especialmente bem-vinda para alguns membros da extrema direita num momento em que o partido nacionalista Alternativa para a Alemanha (AfD) vem tendo dificuldade em explorar a pandemia e viu sua base de apoio cair para cerca de 10%, segundo especialistas.

Não é de hoje que os populistas nacionalistas alemães veem como bons olhos a presença de um correligionário, na visão deles, na Casa Branca.

A NewsGuard, organização americana que monitora a desinformação, constatou que em toda a Europa as contas em YouTube, Facebook e Telegram que promovem a conspiração QAnon têm 448 mil seguidores.

Apenas na Alemanha, disse Dittrich, o número de seguidores de contas ligadas ao QAnon passa de 200 mil. O maior canal QAnon em alemão no YouTube, Qlobal-Change, já foi visto mais de 17 milhões de vezes, e seus seguidores no Telegram quadruplicaram para mais de 124 mil desde o "lockdown", em março.

“Há uma comunidade Q enorme na Alemanha”, disse Dittrich, com novos posts e memes que dominam os fóruns nos Estados Unidos sendo imediatamente traduzidos e interpretados para o alemão.

Outra razão da propagação do QAnon é que várias celebridades alemãs viraram multiplicadoras da conspiração, entre as quais um ex-apresentador de notícias, um rapper e um ex-jurado no equivalente alemão ao “American Idol”.

Uma das figuras mais conhecidas a disseminar a conspiração QAnon é Attila Hildman, celebridade, chef vegano e influencer de extrema direita que tem mais de 80 mil seguidores no aplicativo de mensagens Telegram.

Hildman tem comparecido a todas as principais marchas convocadas em Berlim contra as medidas de combate ao coronavírus, protestando contra máscaras, Bill Gates e a família Rothschild –e pedindo a Trump que liberte a Alemanha.

“Trump é alguém que combate o ‘Estado profundo’ global há anos”, disse Hildmann em entrevista na semana passada. “Trump se tornou uma figura de luz neste movimento, especialmente para o QAnon, precisamente porque combate essas forças globais.”

A agência de inteligência doméstica alemã já alertou sobre o risco de extremistas de direita utilizarem a pandemia para finalidades próprias. Na semana passada o chefe da agência, Thomas Haldenwang, disse que “elementos agressivos e subversivos” são a força motriz dos protestos contra as restrições.

Mas legisladores e especialistas em extremismo temem que os serviços de segurança não estejam dando atenção suficiente ao potencial de violência no misto de campanhas de desinformação do QAnon e a ideologia de extrema direita nascida no país.

Nos Estados Unidos, alguns proponentes do QAnon foram acusados de crimes violentos. Um deles foi acusado de assassinar um chefão mafioso em Nova York no ano passado, e outro foi preso em abril depois de ter alegadamente ameaçado assassinar Joe Biden, que desde então tornou-se o candidato presidencial democrata. O FBI avisa que o QAnon representa um potencial risco de terrorismo doméstico.

Na Alemanha, linguagem que remete à do QAnon foi usada no manifesto do atirador que matou nove pessoas de origem imigrante na cidade de Hanau, em fevereiro.

“Já vimos que esta conspiração tem o potencial de radicalizar as pessoas”, disse Dittrich.

Há estimados 19 mil Reichsbürger —grupo que organizou o protesto recente no Parlamento e que não vê a Alemanha como um país soberano, mas um território ocupado por globalistas.

Cerca de mil deles são classificados como extremistas de direita pelo serviço de inteligência doméstico. Muitos deles possuem armas.

“Em um momento em que algumas pessoas estão determinadas a destruir o discurso democrático, usando de todos os meios possíveis, temos que encarar esse fenômeno com muita seriedade”, comentou o legislador Konstantin von Notz, vice-presidente do comitê de supervisão de inteligência.

Tradução de Clara Allain

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