Descrição de chapéu Financial Times China

Choque entre China e Jack Ma expõe movimentos periódicos de repressão ao setor privado no país

Impasse pode ser momento de definição para futuro das empresas na gestão de Xi Jinping

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Tom Mitchell Yuan Yang Ryan McMorrow
Singapura e Pequim | Financial Times

Quatro anos atrás, quando o principal fundo de mercado monetário do Grupo Ant se aproximava rapidamente de um pico de mais de US$ 260 bilhões (R$1,3 trilhão) em ativos administrados, muitos dos bancos estatais chineses e seus reguladores começaram a ficar agitados.

Em uma série de telefonemas e reuniões com Jack Ma, fundador do Grupo Ant, executivos de bancos e autoridades regulatórias exigiram que o fundo Yu’E Bao fosse controlado.

“O Yu’E Bao estava tirando muito dinheiro dos bancos”, explicou uma pessoa que acompanhou as discussões. “Os bancos estavam preocupados com o impacto sobre a liquidez e queriam que o Ant tomasse medidas para minimizar esse impacto. As conversas foram tensas.”

O empresário e executivo chinês Jack Ma em uma conferência em Xangai
O empresário e executivo chinês Jack Ma em uma conferência em Xangai - Aly Song - 17.set.18/Reuters

No final, Jack Ma teve que ceder, e o Yu’E Bao impôs tetos aos depósitos que as pessoas podiam fazer. Entre março e dezembro de 2018, seus fundos administrados caíram em um terço, para US$ 168 bilhões (R$ 890 bilhões). Em setembro passado estavam em US$ 183 bilhões (R$ 969 bilhões).

Esse confronto seria o prelúdio de um enfrentamento muito maior que agora opõe o Partido Comunista e Xi Jinping a não apenas o Grupo Ant, mas também ao Alibaba, o grupo comercial fundado por Jack Ma.

O impasse, que vem alimentando especulações amplas sobre o paradeiro de Ma, pode se configurar como um momento de definição para o futuro das empresas privadas na China de Xi Jinping.

Em 24 de dezembro, o órgão chinês que regula os mercados anunciou a abertura de uma investigação antitruste sobre o Alibaba e enviou investigadores à sede do grupo em Hangzhou, a cidade natal de Ma, no leste da China. O anúncio foi feito apenas 15 dias depois de o principal órgão dirigentedo partido declarar que vai tomar medidas contra empresas monopolistas, para impedir “a expansão desordenada do capital”.

E o ataque ao Alibaba foi lançado dois meses depois de reguladores financeiros, em uma iniciativa dramática, terem cancelado a oferta pública inicial (IPO) de US$ 37 bilhões (R$ 196 bilhões) planejada pelo grupo Ant, que seria a maior do mundo. Tomadas em conjunto, as medidas equivalem a um arrocho sem precedentes contra um império comercial cujos serviços onipresentes são fundamentais para o funcionamento da pioneira economia online chinesa.

O grupo Ant diz que o Airplay, seu aplicativo de pagamentos, é utilizado regularmente por 700 milhões de pessoas —metade da população chinesa— e 80 milhões de comerciantes, tendo processado US$ 18,2 trilhões (R$ 96 trilhões) no último ano financeiro do grupo.

Desde que o impasse regulatório começou, no final de outubro, o valor das ações do Alibaba caiu quase 30%, prejudicando fortemente o valor líquido de Jack Ma, que não é visto em público desde então.

Nesse mesmo período sua fortuna caiu de US$ 62 bilhões (R$ 328 bilhões) para US$ 49 bilhões (R$ 259 bilhões), segundo dados da Bloomberg. A lista Hurun dos Chineses Mais Ricos estimou que Ma era o homem mais rico do país ainda em 20 de outubro, mas hoje ficaria em quarto lugar. Seu lugar no topo foi tomado por um magnata de água mineral, Zhong Shanshan.

Os resultados do confronto dirão muito sobre o tipo de economia que a China está desenvolvendo.

Se o Ant e o Alibaba forem restritos pelos órgãos reguladores —ou se seu fundador virar alvo pessoal de investigadores—, isso será um momento decisivo no relacionamento inconstante do Partido Comunista com o setor privado chinês, apesar de, ironicamente, o próprio Jack Ma ser membro do partido.

Desde que Deng Xiaoping lançou a era da “reforma e abertura”, 40 anos atrás, o PC passou a depender cada vez mais das empresas do setor privado para garantir crescimento econômico, geração de empregos e receita fiscal. Mas a fixação que o partido tem pelo controle, especialmente desde que Xi chegou ao poder, quase dez anos atrás, também gera movimentos periódicos de repressão ao setor privado e a empreendedores destacados.

Existe, porém, outro desenlace potencial que apontaria para um relacionamento menos tenso entre o partido-Estado e o setor das empresas privadas.

As investigações sobre o grupo Ant e o Alibaba podem levar ao tipo de acordo não dessemelhante dos que são fechados nos Estados Unidos e na União Europeia contra grandes grupos financeiros e de tecnologia.

Isso enfraqueceria um pouco as duas empresas principais de Jack Ma, mas elas continuariam ainda assim a ser poderosas e altamente lucrativas representantes do empreendimento privado chinês.

Contudo, uma mensagem política forte teria sido transmitida. “Os magnatas chineses da internet podem continuar a desfrutar de negócios em expansão e fortunas enormes se conseguirem convencer a liderança nacional de sua lealdade”, diz Chen Long, da consultoria Plenum, sediada em Pequim.

“A alta liderança quer garantir que nem Ma nem ninguém mais jamais volte a passar do limiar proibido de tentar exercer influência pessoal sobre as políticas governamentais —ou, pelo menos, que não o faça publicamente. O governo apoiará os empresários sob a condição de eles priorizarem o interesse nacional.”

Revolução das fintechs

Jack Ma não aparece em público desde 24 de outubro, quando fez um discurso em que criticou os bancos estatais com os quais se desentendera em relação ao crescimento rápido do Yu’E Bao e também os órgãos reguladores, que, segundo ele, frequentemente sacrificam a inovação em nome da estabilidade.

Segundo pessoas envolvidas na IPO, o discurso provocou a ira de Xi Jinping, que tomou a decisão final de bloquear a IPO do grupo Ant. “Inovar sem correr riscos é estrangular a inovação”, disse Ma. “Não existe inovação sem riscos em lugar algum do mundo. Um esforço para minimizar o risco completamente em muitos casos constitui o maior risco de todos.”

Ma estava discursando no mesmo fórum em que Wang Qishan, o poderoso número 2 de Xi e ex-czar do combate à corrupção, havia destacado antes a importância primordial da estabilidade do sistema financeiro. “É preciso fazer esforços para prevenir e reduzir os riscos financeiros”, disse Wang.

“A segurança sempre vem em primeiro lugar. Enquanto as novas tecnologias financeiras aumentaram a eficiência e proporcionaram conveniência, os riscos financeiros cresceram.”

Dois meses mais tarde, em 26 de dezembro, numa reprimenda pública sem precedentes ao grupo Ant, o banco central chinês criticou o grupo por suposta indiferença em relação ao risco financeiro e por aproveitar-se de brechas regulatórias. Mas, por mais que os reguladores estejam frustrados com o Ant, não podem ignorar os efeitos benéficos da revolução financeira sobre a China.

Em seus comentários de outro modo críticos, Pan Gongsheng, vice-diretor do Banco Popular da China, disse que “o grupo Ant vem exercendo um papel inovador no desenvolvimento de tecnologia financeira e melhoria da eficiência e inclusividade dos serviços financeiros”.

Em um gesto em direção a empreendedores assustados, acrescentou que o Banco Central é “inabalável” em seu compromisso com “a proteção dos direitos de propriedade e a promoção do empreendedorismo”.

Ma conta há muito tempo com o apoio de autoridades de vários ministérios do Conselho de Estado, além dos principais órgãos de regulamentação financeira, que apreciam as contribuições do Ant, Alibaba e seus rivais, que transformaram a economia chinesa e converteram o setor de serviços online em líder mundial.

Quando seu status de membro do partido foi confirmado inicialmente, apenas dois anos atrás, foi no contexto de um prêmio que ele estava recebendo do Comitê Central por “fazer da China uma líder na indústria internacional do comércio eletrônico, finanças na internet e computação na nuvem”.

Os serviços de comércio eletrônico e pagamento online do Alibaba e do Ant se mostraram ainda mais cruciais no auge da batalha chinesa bem-sucedida para conter o coronavírus, na medida em que prestaram serviços essenciais a centenas de milhões de pessoas isoladas em lockdowns draconianos.

“Há visões diferentes dentro dos órgãos reguladores”, diz Chen. “Até o discurso de Jack Ma, o pessoal favorável ao crescimento era mais forte. Mas Xi achou que o discurso passou dos limites, e um segundo grupo, avesso a riscos, assumiu a dianteira. Se o discurso não tivesse ocorrido, estaria tudo bem.”

Desaparecer das vistas do público é algo incomum para Ma, que também deixou de comparecer à final, em novembro, de seu reality africano, “Africa’s Business Leaders”. Ele costuma fazer apresentações musicais chamativas em eventos do Alibaba e circula na companhia de chefes de Estado e líderes governamentais.

Como o empreendedor mais bem-sucedido da China, Ma goza de um status ímpar no país e também no exterior. Seu domínio fluente do inglês o converteu em celebridade enorme no circuito de conferências internacionais, e ele possui um carisma inigualado por qualquer de seus pares no setor privado ou público.

Quando Xi Jinping recebeu os líderes do G20 numa cúpula em Hangzhou, em 2016, alguns dos convidados também visitaram Jack Ma –fato que irritou o líder chinês, segundo um diplomata envolvido e outras pessoas familiarizadas com o assunto.

Entre os VIPs que visitaram Ma estiveram o presidente indonésio, Joko Widodo, o premiê canadense, Justin Trudeau, e o então premiê italiano, Matteo Renzi. Foram oferecidos horários de visita limitados a líderes internacionais, e o Ministério do Exterior chinês foi em grande medida excluído do processo.

Rumores sobre o paradeiro de Ma vêm fervilhando na última semana nas redes sociais chinesas, cuidadosamente monitoradas, e os veículos domésticos receberam instruções rigorosas dos censores quanto às notícias que podem veicular sobre os problemas do Ant e do Alibaba com órgãos reguladores.

Muitos dos amigos e colegas de Ma contestam fortemente qualquer sugestão de que ele pessoalmente esteja enfrentando qualquer tipo de problema com a Justiça, muito menos que esteja foragido. “Está na China e não está se deslocando devido à Covid. Está se protegendo”, diz um amigo de Ma.

Outro amigo que se comunica regularmente com Ma acrescentou: “Todo o mundo anda me perguntando se ele está correndo perigo, mas ele está ótimo. Ele responde rapidamente a mensagens e ligações e passa a impressão de estar animado. As discussões com os órgãos reguladores continuam, então ele só precisa ficar fora dos holofotes até que elas sejam resolvidas”.

Erros da liderança

Amigos de Ma dizem que, embora ele hoje possa se arrepender das consequências do discurso que fez em outubro, ele falou a sério e ainda acredita firmemente no que vê como sendo a missão do grupo Ant de converter a prestação de serviços financeiros na segunda maior economia do mundo.

O fundo Yu’E Bao, cujo nome significa “tesouro no saldo da conta”, foi aberto em 2013, permitindo que qualquer pessoa na China, desde empregados de restaurantes até yuppies urbanos, deposite valores que podem ser tão baixos quanto US$ 0,15 (R$ 0,79) em um fundo no mercado monetário, ganhando mais juros do que poderiam em uma conta de poupança chinesa.

Em quatro anos, o Yu’E Bao se convertera no maior fundo de mercado monetário no mundo, superando o fundo de mercado monetário governamental americano do JPMorgan.

O sucesso do fundo foi uma demonstração cabal do potencial do grupo Ant. Mas também representou uma ameaça a um dos grupos mais poderosos de interesses especiais da China: os bancos estatais e os funcionários que os regulamentam.

Também o banco central ficou preocupado. Em seu relatório anual de estabilidade financeira publicado no final de 2018, o Banco Popular da China disse, sem citar nominalmente o Yu’E Bao, que iria “fortalecer a regulamentação de fundos do mercado monetário sistematicamente importantes”.

“Quando um motorista de táxi pode depositar um renminbi [unidade básica da moeda chinesa] em um fundo de mercado monetário e obter juros, isso é um avanço importante”, disse um ex-executivo do Alibaba. “Jack considera que o grupo Ant está beneficiando a sociedade.”

As empresas de Ma já se recuperaram bem de disputas anteriores, embora o Ant e o Alibaba nunca antes tenham sido submetidos a escrutínio tão intenso. Por exemplo, a desavença do Ant com bancos e reguladores em torno do fundo Yu’E Bao não chegou a prejudicar seus negócios ou influência maiores.

O setor de crédito do Ant alcançou proporções tão grandes que hoje facilita cerca de um décimo de todos os empréstimos ao consumidor feitos na China, excluindo os financiamentos de imóveis.

O grupo também alinhou seus interesses com os de investidores poderosos. O primeiro esforço de levantamento de fundos do Ant, em 2015, atraiu grande número de acionistas com bons contatos, todos os quais seriam recompensados regiamente na IPO.

O fundo de previdência social chinês e um grupo de seguradoras estatais tinham participações acionárias no Ant avaliadas em respectivamente 48 bilhões (R$ 38 bilhões) e 45 bilhões de renminbi (R$ 36 bilhões), segundo o preço da IPO.

As ações pertencentes a um veículo de investimentos montado pela Boyu Capital, cujos executivos já incluíram o neto do ex-presidente chinês Jiang Zemin, foram avaliadas em 15 bilhões de renminbi (R$ 12 bilhões). Mesmo a emissora estatal China Central Television possuía ações do Ant no valor de 3 milhões de renminbi (R$ 2,4 bilhões).

“Os reguladores financeiros estão muito preocupados com o poder crescente do Ant e sua capacidade de resistir a quaisquer tentativas de ser controlado”, diz um assessor do governo chinês.

“As tentativas anteriores de impor mais controles ao Ant não estavam funcionando realmente, porque o grupo era grande e poderoso demais. Está claro que agora ocorreu uma mudança dramática.”

Bill Deng, ex-executivo do Ant e co-fundador da plataforma de pagamentos internacionais Xtransfer, diz que Jack Ma pode ter ficado confiante demais. “Durante muito tempo, os órgãos reguladores deixaram o Ant se expandir, e acho que a direção da empresa ficou complacente demais”, diz ele.

“Você pode ficar otimista demais quando há centenas de pessoas que o estão elogiando. As políticas de restrição do poder de alavancagem financeira são uma tendência que estamos vendo em ação há vários anos agora, e o governo é extremamente cuidadoso quando se trata do setor financeiro.”

Crescimento saudável

O cancelamento da IPO da Ant desencadeou uma enxurrada de críticas ao grupo de fintech por parte da mídia oficial e pública. Os reguladores também deixaram claro que querem que o grupo transfira muitos de seus negócios –incluindo pagamentos, crédito, seguros e gestão de ativos— para um veículo de holding novo e mais fortemente regulado. Isso vai elevar os requisitos de capital do Ant e reduzir seu valor.

As autoridades encaram o modelo de uma holding como maneira de restringir o poder de grandes conglomerados financeiros e ao mesmo tempo aumentar sua transparência.

Também querem que o Ant compartilhe com o banco central seu enorme banco de dados de consumidores, algo que o grupo se negou a fazer até agora.

Serem obrigados a prever um retorno inferior àquele que estava quase garantido alguns meses atrás será decepcionante para os investidores do Ant, mas existem alternativas piores. “O governo chinês não quer matar o Ant, mas certificar-se que ele cresça de modo sadio”, diz Deng. “O Ant pode superar seus obstáculos atuais. Se tiver paciência, poderá voltar a crescer.”

Quanto à investigação antitruste sobre o Alibaba, um resultado aceitável para o grupo incluiria o fim dos acordos de exclusividade que impedem comerciantes de vender em plataformas rivais. O Alibaba poderia também ser obrigado a pagar uma multa grande –o valor máximo permitido seria de 10% de sua receita no ano anterior—, se for avaliado que ele violou a lei antimonopólios chinesa.

“As discussões sobre exclusividade vêm acontecendo há anos –é um mercado competitivo”, diz o ex-executivo do Alibaba. “Não acredito que o Alibaba será dividido em grupos menores. Só o que vai acontecer é que os métodos que utiliza para lutar pelo mercado serão mais regulamentados.”

Tradução de Clara Allain

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