Descrição de chapéu China

Em nova provocação à China, EUA retiram restrições a contatos com autoridades de Taiwan

Anúncio foi feito por Mike Pompeo, secretário de Estado; decisão pressiona Biden

Washington | Reuters

Na reta final do governo de Donald Trump, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, anunciou o fim das restrições a contatos entre autoridades dos EUA e de Taiwan, decisão que deve irritar os chineses ao mesmo tempo em que complica a relação com Pequim no início da gestão do democrata Joe Biden.

Em um comunicado, Pompeo afirmou que por muitas décadas o departamento criou restrições internas complexas nas interações de diplomatas americanos e outras autoridades com seus pares taiwaneses.

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo
O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo - Jacquelyn Martin - 10.nov.20/Reuters

“O governo dos EUA tomou essas ações unilateralmente em uma tentativa de apaziguar o regime comunista de Pequim”, diz o texto. “Hoje eu anuncio que estou retirando essas restrições autoimpostas.”

Pompeo conclui afirmando que a declaração deste sábado “reconhece que a relação EUA-Taiwan não precisa e não deve estar acorrentada a restrições de nossa permanente burocracia”.

O anúncio parece ser parte do esforço do secretário de Estado e da gestão Trump de adotar uma abordagem dura com a China antes que Biden tome posse em 20 de janeiro.

Bonnie Glaser, especialista em Ásia no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington, afirmou que as restrições citadas por Pompeo incluem a proibição da entrada de autoridades taiwanesas no Departamento de Estado americano, fazendo com que reuniões fossem realizadas em hotéis.

"A gestão Biden certamente não ficará feliz que uma decisão como essa tenha sido tomada nos dias finais da administração Trump", afirmou Glaser.

Uma pessoa ligada à equipe de transição do democrata afirmou que, uma vez no cargo, Biden continuará a apoiar uma resolução pacífica das questões de Pequim e Taipé que sejam consistentes com as vontades e os interesses dos taiwaneses.

Por outro lado, o Escritório de Representação Econômica e Cultural de Taiwan nos EUA, que funciona como uma embaixada não oficial do país, viu com bons olhos o anúncio e afirmou que a decisão mostra "a força e a profunidade" da relação de Washington com Taipé.

"Decadas de discriminação, removidas. Um grande dia em nossa relação bilateral. Eu vou valorizar cada oportunidade", escreveu no Twitter Hsiao Bi-khim, embaixador de facto de Taiwan em Washington.

Um alto funcionário do governo da ilha próximo ao plano de segurança taiwanês afirmou à agência de notícias Reuters, sob condição de anonimato, que esse foi o maior ajuste dos EUA em sua política relacionada a Taipé nos últimos anos, enfatizando que ambos os partidos americanos sempre apoiaram fortemente as relações entre os países.

A China reivindica a ilha como parte de seu território e frequentemente descreve a situação como o tema mais sensível em suas relações com os americanos. Ainda que os EUA, como a maioria dos países, não mantenham relações oficiais com Taiwan, a gestão Trump aumentou o apoio à ilha, com vendas de armas e leis para ajudar Taipé a lidar com a pressão de Pequim.

Taiwan tem sido ponto central da postura cada vez mais linha-dura em relação à China que Pompeo adotou durante seu período como secretário de Estado –chegando a dizer que Pequim é a prinicpal ameaça de longo prazo enfrentada pelos EUA.

Em novembro, ele questionou a "política de uma só China" adotada pelos EUA, afirmando em entrevista a uma rádio que Taiwan não fazia parte da China. Pequim reagiu e alertou que esse comportamento minava "os interesses centrais da China" e interferia nos assuntos internos do país e "seriam recebidos com um contra-ataque resoluto".

Outro passo que dificulta as relações com Pequim é a visita da terceira autoridade americana à ilha nos últimos meses. A embaixadora dos EUA na ONU, Kelly Craft, irá a Taiwan na próxima semana para reuniões com líderes da ilha, o que levou a China a avisar, na quinta (7), que os EUA estavam brincando com fogo.

No segundo semestre do ano passado, Washington enviou outras duas altas autoridades para a ilha. À época, os chineses responderam com ameaças militares a Taipé, enviando aviões e navios em atitudes de confronto no estreito.

Isso elevou uma tensão militar já evidente no mar do Sul da China, que Pequim diz ser 85% seu, algo que os americanos afirmam ser ilegal. Se lá o risco é de um confronto acidental entre chineses e americanos ou aliados, no estreito a questão é ainda mais séria. Houve um aumento brutal na atividade militar em toda a região ao longo do ano passado, o que trouxe problema práticos para os taiwaneses.

Segundo divulgou o Ministério da Defesa em setembro de 2020, o país já havia gasto US$ 1 bilhão (R$ 5,6 bilhões) no ano só para mobilizar caças para interceptar aviões chineses perto de seu espaço aéreo.

Taiwan vive de sua indústria de alta tecnologia e tem feito muitas compras militares dos americanos. De 2017 para cá, foram US$ 15 bilhões (R$ 84 bilhões) gastos, pouco mais do total dispendido na década anterior a esse período.

Os EUA são os maiores fornecedores de armamentos a Taipé, que conta com o apoio americano em caso de ataque, embora a maioria dos analistas militares considere a hipótese remota na prática.

A ajuda está implícita no Ato de Relações com Taiwan, de 1979. Ele foi um instrumento do governo de Jimmy Carter que buscou aplacar a reação negativa no Congresso ao estabelecimento de relações diplomáticas com a China.

Negociado desde o início daquela década, o reconhecimento da China comunista implicou jogar Taiwan num limbo diplomático. Assim, os EUA admitiram implicitamente a política de Pequim de considerar tudo uma só nação, mas também forneceram proteção militar e armamentos à ilha.

O orçamento de defesa de Tawian para 2021 recebeu um aumento de 10% e chegou ao recorde de US$ 15 bilhões, ainda uma fração (menos de 10%) do que a China gasta. Os EUA são líderes incontestes no mundo, deixando Pequim em segundo lugar, com uma despesa quase quatro vezes maior.

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