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Como será o mundo após o coronavírus?

Em vez de erguer regime de vigilância, não é tarde para reconstruir confiança na ciência, autoridades e imprensa

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Yuval Noah Harari
Financial Times

A humanidade está diante de uma crise global. Possivelmente a maior crise de nossa geração. As decisões que as pessoas e os governos tomarem nas próximas semanas provavelmente vão moldar o mundo por muitos anos futuros. Vão definir a forma não apenas de nossos sistemas de saúde, mas de nossa economia, política e cultura.

Precisamos agir rápida e decisivamente. Também precisamos levar em conta as consequências de longo prazo de nossos atos. Quando optamos entre diferentes alternativas, devemos nos perguntar não apenas como superar o perigo imediato, mas também que tipo de mundo vamos habitar depois que a tempestade passar. Sim, a tempestade vai passar, a humanidade vai sobreviver, a maioria de nós ainda estará viva —mas habitaremos um mundo diferente.

Muitas medidas emergenciais tomadas para o curto prazo vão se tornar um aspecto fixo da vida. Essa é a natureza das emergências. Elas aceleram processos históricos. Decisões que em tempos normais poderiam levar anos de deliberações são aprovadas em questão de horas. Tecnologias imaturas e até perigosas são adotadas em regime de urgência, porque os riscos de não fazer nada seriam maiores.

Enfermeira prepara dose de vacina na Tailândia - Rachen Sageamsak -28.fev.2021/Xinhua

Países inteiros servem de cobaias em experimentos sociais em grande escala. O que acontece quando todos trabalham de casa e se comunicam apenas à distância? O que acontece quando escolas e universidades inteiras passam a funcionar online? Em tempos normais, governos, empresas e conselhos de educação jamais concordariam em realizar experimentos desse tipo. Mas estes não são tempos normais.

Neste tempo de crise estamos diante de duas escolhas especialmente importantes. A primeira é entre a vigilância totalitária e o empoderamento cidadão. A segunda é entre o isolamento nacionalista e a solidariedade global.

Para interromper a pandemia, é preciso que populações inteiras sigam certas diretrizes. Há duas maneiras principais de alcançar isso. Um método requer que o governo monitore as pessoas e puna aquelas que desrespeitam as regras. Hoje, pela primeira vez na história humana, a tecnologia possibilita o monitoramento de todos, o tempo todo.

Cinquenta anos atrás a KGB não podia vigiar 240 milhões de cidadãos soviéticos 24 horas por dia, nem a KGB poderia processar efetivamente todas as informações que colhia. A KGB dependia de agentes e analistas humanos. Simplesmente não tinha condições de colocar um agente humano para seguir cada cidadão. Hoje, porém, os governos podem recorrer a sensores onipresentes e algoritmos poderosos, em lugar de espiões de carne e osso.

Vários governos já começaram a usar as novas ferramentas de vigilância em sua batalha contra a epidemia de coronavírus. O caso mais notável é o da China. Monitorando estreitamente os smartphones das pessoas, fazendo uso de centenas de milhões de câmeras de reconhecimento facial e obrigando as pessoas a checar e informar sua temperatura corporal e condição médica, as autoridades chinesas não apenas podem identificar rapidamente os suspeitos portadores do coronavírus como rastrear seus movimentos e identificar qualquer pessoa com quem eles tenham entrado em contato. Vários aplicativos de celular alertam os cidadãos sobre sua proximidade com pacientes infectados.

Esse tipo de tecnologia não está limitada à Ásia oriental. Recentemente, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, autorizou a Agência de Segurança de Israel a utilizar tecnologia de vigilância normalmente reservada para o combate a terroristas para rastrear pacientes com coronavírus. Quando o subcomitê parlamentar relevante se negou a autorizar a medida, Netanyahu a impôs com um decreto emergencial.

Você pode argumentar que não há nada de novo em tudo isso. Nos últimos anos, tanto governos quanto grandes empresas vêm empregando tecnologias cada vez mais sofisticadas para rastrear, monitorar e manipular pessoas. Mesmo assim, se não tomarmos cuidado, a epidemia pode se tornar um importante divisor de águas na história da vigilância.

Não apenas porque ela pode normalizar o emprego de ferramentas de vigilância de massas em países que até agora as haviam rejeitado, mas também, mais ainda, porque assinala uma transição marcante de vigilância “por cima da pele” para vigilância “por baixo da pele”.

Até agora, quando seu dedo tocava a tela de seu smartphone e clicava sobre um link, o governo queria saber exatamente o que seu dedo estava clicando. Com o coronavírus, porém, o foco de atenção se desloca. Agora o governo quer saber qual é a temperatura de seu dedo e a pressão sanguínea por baixo desse dedo.

Um dos problemas que enfrentamos para decidir como nos posicionamos em relação à vigilância é que nenhum de nós sabe exatamente como estamos sendo vigiados nem o que pode acontecer nos próximos anos. A tecnologia de vigilância está sendo desenvolvida a uma velocidade vertiginosa, e coisas que dez anos atrás pareciam ficção científica hoje já estão ultrapassadas.

A título de experimento mental, considere um governo hipotético que exija que cada cidadão use uma pulseira biométrica que monitora sua temperatura corporal e frequência cardíaca 24 horas por dia. Os dados resultantes são armazenados e analisados por algoritmos do governo. Os algoritmos saberão que você está doente antes mesmo de você saber. Também saberão por onde você andou e com quem se encontrou. As cadeias de infecção podem ser drasticamente encurtadas e até cortadas por completo. Tal sistema poderia concebivelmente interromper a epidemia em questão de dias. Soa maravilhoso, certo?

O lado negativo, é claro, é que ele legitimaria um sistema de vigilância novo e assustador. Se, por exemplo, você sabe que eu cliquei sobre um link da Fox News em vez de um link da CNN, isso pode lhe informar alguma coisa sobre minhas opiniões políticas, talvez até sobre minha personalidade.

Mas se você puder monitorar o que acontece com minha temperatura corporal, pressão sanguínea e frequência cardíaca enquanto assisto ao videoclipe, poderá saber o que me faz rir, o que me faz chorar e o que me deixa realmente furioso.

É crucial lembrar que raiva, alegria, tédio e amor são fenômenos biológicos, exatamente como febre ou tosse. A mesma tecnologia que identifica a tosse também pode identificar o riso. Se corporações e governos começarem a colher nossos dados biométricos em massa, terão como nos conhecer muito melhor do que nós mesmos nos conhecemos.

Então poderão não apenas prever nossos sentimentos, mas também manipular nossos sentimentos e nos vender qualquer coisa que quiserem, quer seja um produto ou um político. O monitoramento biométrico pode fazer as táticas de hacking de dados da Cambridge Analytica parecer algo saído da Idade da Pedra. Imagine a Coreia do Norte em 2030, quando cada cidadão tiver que usar uma pulseira biométrica 24 horas por dia. Se você ouvir um discurso do Grande Líder e a pulseira captar os sinais que relevam raiva, você estará acabado.

É claro que podemos defender o uso de vigilância biométrica como medida temporária tomada durante um estado de emergência. Ela acabaria quando a emergência terminasse. Mas medidas temporárias têm um hábito desagradável de perdurar mais que emergências, mesmo porque sempre há uma nova emergência à nossa espera.

Meu país natal, Israel, por exemplo, declarou estado de emergência durante sua Guerra de Independência em 1948. O estado de emergência justificou a adoção de uma série de medidas temporárias, desde a censura da imprensa e o confisco de terras até regras especiais sobre o preparo de pudins (não estou brincando!). A Guerra de Independência foi ganha há muito tempo, mas Israel nunca chegou a declarar o fim da emergência e não aboliu muitas medidas “temporárias” de 1948 (o decreto emergencial sobre o pudim foi abolido em 2011, felizmente).

Mesmo quando as infecções com o coronavírus tiverem caído para zero, alguns governos sedentos de dados podem argumentar que precisam conservar os sistemas de vigilância biométrica em operação porque temem uma segunda onda de coronavírus, ou porque há uma nova cepa de ebola surgindo na África central, ou porque... você entendeu a ideia.

Uma grande batalha vem sendo travada nos últimos anos em torno de nossa privacidade. A crise do coronavírus pode representar o ponto de inflexão dessa batalha. Isso porque, quando é dada às pessoas a possibilidade de optar entre privacidade e saúde, elas geralmente escolhem a saúde.

Na verdade, pedir às pessoas que optem entre privacidade e saúde está à própria raiz do problema. Porque é uma escolha falsa. Podemos e devemos desfrutar tanto de privacidade quanto de saúde. Podemos escolher proteger nossa saúde e barrar a epidemia de coronavírus não com a instituição de regimes de vigilância totalitária, mas com o empoderamento dos cidadãos.

Nas últimas semanas, alguns dos esforços mais bem-sucedidos para conter a epidemia de coronavírus foram orquestrados pela Coreia do Sul, Taiwan e Singapura. Embora esses países tenham feito algum uso de aplicativos de rastreamento, eles têm apostado muito mais em testes extensos, notificação honesta e na cooperação voluntária de um público bem informado.

Vigilância centralizada e punições ásperas não são a única maneira de levar as pessoas a seguir diretrizes benéficas. Quando são informados dos fatos científicos e confiam nas autoridades públicas para lhes transmitirem esses fatos, os cidadãos podem fazer a coisa certa, mesmo sem ter um Grande Irmão vigiando-os constantemente. Uma população automotivada e bem informada geralmente é muito mais poderosa e efetiva do que uma população policiada e ignorante.

Considere, por exemplo, a lavagem de mãos com sabonete. Ela foi um dos maiores avanços de todos os tempos na higiene humana. Esse simples ato salva milhões de vidas todos os anos. Hoje enxergamos isso como algo certo e inequívoco, mas foi apenas no século 19 que cientistas descobriram a importância de lavar as mãos com sabão.

Até então, até mesmo médicos e enfermeiras passavam de uma operação cirúrgica para a seguinte sem lavar as mãos. Hoje bilhões de pessoas lavam as mãos diariamente, não por terem medo da polícia do sabonete, mas porque entendem os fatos. Lavo minhas mãos com sabonete porque já ouvi falar de vírus e bactérias, compreendo que esses microorganismos causam doenças e sei que o sabonete pode removê-los.

Mas para alcançar esse nível de cooperação e conformidade, é preciso confiança. As pessoas precisam confiar na ciência, confiar nas autoridades públicas e confiar na imprensa. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis enfraqueceram intencionalmente a confiança das pessoas na ciência, nas autoridades públicas e na imprensa. Hoje esses mesmos políticos irresponsáveis podem ceder à tentação de seguir o caminho do autoritarismo, argumentando que não dá para confiar que o público faça a coisa certa.

A confiança que foi erodida ao longo de anos normalmente não pode ser reconstruída da noite para o dia. Mas estes não são tempos normais. Em um momento de crise, também as opiniões das pessoas podem mudar rapidamente. Você pode passar anos discutindo amargamente com seus irmãos, mas, quando ocorre alguma emergência, de repente descobrir que há todo um manancial oculto de confiança e boa-vontade, e vocês correm para ajudar um ao outro.

Em vez de erguer um regime de vigilância, não está tarde demais para reconstruir a confiança das pessoas na ciência, nas autoridades públicas e na imprensa. Devemos sem dúvida alguma fazer uso de novas tecnologias também, mas essas tecnologias precisam empoderar os cidadãos. Sou totalmente a favor de monitorar minha temperatura corporal e pressão sanguínea, mas esses dados não devem ser utilizados para criar um governo todo-poderoso. Em vez disso, esses dados devem me capacitar a fazer escolhas pessoais mais informadas e também a responsabilizar o governo por suas decisões.

Se eu pudesse rastrear minha condição médica 24 horas por dia, não apenas descobriria se me tornei um perigo à saúde de outras pessoas como aprenderia quais hábitos contribuem para minha saúde. E, se eu pudesse acessar e analisar estatísticas confiáveis sobre a propagação do coronavírus, poderia avaliar se o governo está me dizendo a verdade e se está adotando as políticas certas para combater a epidemia.

Sempre que as pessoas falam em vigilância, lembre que a mesma tecnologia de vigilância geralmente pode ser utilizada não apenas por governos para monitorar indivíduos, mas também por indivíduos para monitorar governos.

Assim, a epidemia de coronavírus é um importante teste de cidadania. Daqui em diante, cada um de nós deve optar por confiar em dados científicos e especialistas em saúde, não em teorias conspiratórias infundadas e políticos que defendem apenas seus interesses próprios. Se não fizermos a escolha certa, podemos acabar entregando nossas liberdades mais preciosas de mão beijada, pensando que essa é a única maneira de proteger nossa saúde

A segunda escolha importante que enfrentamos é entre o isolamento nacionalista e a solidariedade global. Tanto a própria epidemia quanto a crise econômica resultante são problemas globais. Eles só poderão ser resolvidos efetivamente com cooperação global.

Em primeiro lugar, para derrotar o vírus precisamos compartilhar informações globalmente. Essa é a grande vantagem que os humanos têm em relação aos vírus. Um coronavirus na China e um coronavírus nos EUA não podem trocar sugestões sobre como infectar humanos. Mas a China pode ensinar aos EUA muitas lições valiosas sobre o coronavírus e como combatê-lo.

Algo que um médico italiano descobre em Milão numa manhã pode muito bem estar salvando vidas em Teerã até a noite do mesmo dia. Quando o governo britânico hesita entre diferentes políticas a seguir, pode ouvir conselhos dos sul-coreanos, que já enfrentaram um dilema semelhante um mês atrás. Mas, para que isso aconteça, precisamos de um espírito de cooperação e confiança global.

Os países devem se dispor a compartilhar informações abertamente e a buscar conselhos com humildade. Devem estar dispostos a confiar nos dados e insights que recebem. Também precisamos de um esforço global para produzir e distribuir equipamentos médicos, especialmente os kits para testes e os aparelhos respiratórios.

Em vez de cada país tentar fazer isso localmente e acumular quaisquer equipamentos que puder obter, um esforço global coordenado aceleraria a produção em muito e garantiria uma distribuição mais justa de equipamentos que salvam vidas.

Do mesmo modo que os países nacionalizam indústrias chaves durante uma guerra, a guerra humana contra o coronavírus pode exigir que “humanizemos” as linhas de produção cruciais. Um país rico com poucos casos de coronavírus deve dispor-se a enviar equipamentos preciosos a um país mais pobre com muitos casos da doença, confiando que se e quando ele próprio precisar de ajuda no futuro, outros países virão socorrê-lo.

Podemos considerar a possibilidade de um esforço global semelhante para criar um "pool" de profissionais médicos. Países hoje menos afetados poderiam enviar profissionais médicos às regiões mais atingidas do mundo, tanto para ajudá-las em sua hora de maior necessidade quanto para ganharem experiência valiosa. Se o foco da epidemia se deslocar, mais tarde, a assistência poderia começar a fluir na direção contrária.

A cooperação global também é crucialmente necessária no front econômico. Dada a natureza global da economia e das cadeias de fornecimento, se cada governo agir por conta própria, sem levar em conta os outros, o resultado será o caos e o aprofundamento da crise. Precisamos de um plano de ação global, e precisamos disso já.

Outra necessidade é chegar a um acordo global sobre viagens. Suspender todas as viagens internacionais por meses provocará dificuldades tremendas e criará obstáculos à guerra contra o coronavírus. Os países precisam cooperar para permitir que pelo menos alguns poucos viajantes essenciais continuem a atravessar fronteiras: cientistas, médicos, jornalistas, políticos, pessoas que viajam a negócios.

Isso pode ser feito por meio de um acordo global para a pré-triagem de viajantes em seus países de origem. Se você souber que apenas passageiros que já foram testados cuidadosamente foram autorizados a embarcar num avião, estará mais disposto a aceitar que entrem em seu país.

Lamentavelmente, no momento os países não estão fazendo quase nada disso. Uma paralisia coletiva tomou conta da comunidade internacional. Parece que não há mais adultos na sala. Teríamos esperado ver já semanas atrás uma reunião emergencial de líderes globais para traçar um plano de ação comum. Os líderes do G7 conseguiram organizar uma videoconferência apenas esta semana, e ela não resultou em nenhum plano desse tipo.

Em crises globais anteriores —como a crise financeira de 2008 e a epidemia de ebola em 2014—, os EUA assumiram o papel de líder mundial. Mas a administração americana atual abdicou do papel de líder. Ela deixou muito claro que se preocupa com a grandeza da América muito mais do que com o futuro da humanidade.

Esta administração abandonou até mesmo seus aliados mais próximos. Quando proibiu a entrada no país de qualquer passageiro vindo da UE, nem sequer se deu ao trabalho de avisar a UE com antecedência, o que dirá consultá-la sobre uma medida tão drástica.

Ela escandalizou a Alemanha por ter alegadamente oferecido US$1 bilhão a uma empresa farmacêutica alemã para comprar os direitos de monopólio de uma nova vacina contra a Covid-19. Mesmo que a administração atual acabe mudando de direção e propondo um plano global de ação, poucos seguiriam um líder que jamais assume a responsabilidade, nunca reconhece seus erros e habitualmente assume o crédito por tudo que dá certo, atribuindo a culpa por tudo que dá errado a outros.

Se o vazio deixado pelos EUA não for preenchido por outros países, não apenas será muito mais difícil acabar com a epidemia atual, como o legado dela vai continuar a envenenar as relações internacionais por anos pela frente. No entanto, toda crise é também uma oportunidade. Precisamos esperar que a epidemia atual também ajudará a humanidade a tomar consciência do perigo agudo criado pela desunião global.

A humanidade precisa fazer uma escolha. Vamos seguir o caminho da desunião ou vamos adotar o caminho da solidariedade global? Se optarmos pela desunião, não apenas isso vai prolongar a crise como provavelmente resultará em catástrofes ainda piores no futuro.

Se optarmos pela solidariedade global, será uma vitória não apenas contra o coronavírus, mas contra todas as epidemias e crises futuras que podem assolar a humanidade no século 21.

Yuval Noah Harari é autor de “Sapiens”, “Homo Deus” e “21 lições para o século 21”. Tradução de Clara Allain

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