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Entenda como foi dado o golpe de Estado em Mianmar

Nesta segunda-feira, militares assumiram o poder à força no país, que fica no sul da Ásia

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Russell Goldman
The New York Times

Os militares derrubaram o frágil governo democrático de Mianmar em um golpe de Estado nesta segunda-feira (1º), quando prenderam líderes civis, fecharam a internet e cancelaram voos.

O golpe devolve o país ao pleno regime militar depois de uma curta experiência de quase democracia que começou em 2011, quando os militares, que estavam no poder desde 1962, passaram a implementar algumas reformas, incluindo a realização de eleições parlamentares.

O que levou ao golpe militar em Mianmar?

O Parlamento tinha marcado para esta semana sua primeira sessão desde as eleições em 8 de novembro, quando a Liga Nacional para a Democracia (LND), principal partido civil do país, ganhou 83% do assentos disponíveis.

Os militares se recusaram a aceitar os resultados da votação, que foi amplamente considerada um referendo sobre a popularidade de Aung San Suu Kyi, chefe da LND, que era a líder civil de fato do país desde que assumiu o cargo, em 2015.

O novo Parlamento deveria endossar os resultados da eleição e aprovar o próximo governo de Mianmar.

A possibilidade de golpe surgiu nos últimos dias. Os militares, que tinham tentado afirmar na Suprema Corte do país que os resultados da eleição foram fraudados, ameaçaram entrar em ação e cercaram as casas do Parlamento com soldados.

Como o golpe foi efetuado?

Os militares detiveram na segunda-feira (1º) os líderes do partido governante, LND, e a liderança civil de Mianmar, incluindo Suu Kyi e o presidente Win Myint, juntamente com ministros de gabinete, os ministros-chefes de várias regiões, políticos de oposição, escritores e ativistas.

O golpe foi anunciado efetivamente no canal de TV Myawaddy, de propriedade dos militares, quando um apresentador citou a Constituição de 2008, que permite que as Forças Armadas declarem emergência nacional. O estado de emergência, disse ele, ficará em vigor durante um ano.

Os militares rapidamente tomaram o controle da infraestrutura do país, suspendendo a maioria das emissões de televisão e cancelaram todos os voos domésticos e internacionais, segundo relatos.

O acesso a telefones e à internet foi suspenso nas grandes cidades. O mercado de ações e os bancos comerciais foram fechados, e longas filas se formaram diante de caixas eletrônicos em alguns lugares.

Em Rangoon, a maior cidade do país e sua antiga capital, os moradores correram para supermercados para armazenar comida e outros suprimentos.

Quem é Aung San Suu Kyi?

Suu Kyi chegou ao poder como conselheira de Estado em 2016, depois da primeira eleição totalmente democrática em Mianmar em décadas.

Sua ascensão à liderança foi considerada um momento crítico na transição do país antes conhecido como Birmânia, da ditadura militar para a democracia. Suu Kyi, filha do herói da independência, o general Aung San, passou mais de 15 anos em prisão domiciliar.

Seu tempo em detenção a transformou em um ícone internacional, e ela ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1991.

Aung San Suu Kyi, líder civil de Mianmar agora detida pelos militares, durante votação na última eleição do país
Aung San Suu Kyi, líder civil de Mianmar agora detida pelos militares, durante votação na última eleição do país - Thar Byaw - 29.out.20/Reuters

Desde que foi libertada, sua reputação foi manchada por ter cooperado com os militares e defendido com veemência a mortífera campanha contra os rohingya, um grupo étnico minoritário muçulmano. Em 2019, Suu Kyi representou o país em um julgamento no Tribunal Penal Internacional, no qual defendeu Mianmar das acusações de violência étnica.

Muitos acreditavam que a cooperação de Suu Kyi com os militares fosse uma medida pragmática para acelerar a evolução do país para a plena democracia. Mas sua detenção na segunda parece provar a que o compromisso dos militares com a democracia era falso.

Quem é o general Aung Hlaing?

Os militares disseram que entregaram o poder ao chefe do Exército, o idoso general Aung Hlaing, que deveria se aposentar neste verão. Sua rede de apoio, centrada em lucrativas empresas familiares, poderia ter sido minada por sua aposentadoria, especialmente se ele não conseguisse garantir uma saída limpa.

Sob o acordo anterior de partilha de poder, Hlaing presidia dois conglomerados empresariais e podia indicar três cargos chaves de gabinete que supervisionam a polícia e a guarda de fronteiras.

Os militares nunca passaram para o controle do governo civil. Em anos recentes, o Exército, com Hlaing no comando, supervisionou campanhas contra vários grupos étnicos minoritários do país, incluindo os rohingya, os shan e os kokang.

Cronologia da história política de Mianmar

  • 1948: Ex-colônia britânica, Mianmar se torna um país independente
  • 1962: General Ne Win abole a Constituição de 1947 e instaura um regime militar
  • 1974: Começa a vigorar a primeira Constituição pós-independência
  • 1988: Repressão violenta a protestos contra o regime m ilitar gera críticas internacionais
  • 1990: Liga Nacional pela Democracia (LND), de oposição ao regime, vence primeira eleição multipartidária em 30 anos e é impedida de assumir o poder
  • 1991: Aung San Suu Kyi, da LND, ganha o Nobel da Paz
  • 1997: EUA e UE impõem sanções contra Mianmar por violações de direitos humanos e desrespeito aos resultados das eleições
  • 2008: Assembleia aprova nova Constituição
  • 2011: Thein Sein, general reformado, é eleito presidente e o regime militar é dissolvido
  • 2015: LND conquista maioria nas duas Casas do Parlamento
  • 2016: Htin Kyaw é eleito o primeiro presidente civil desde o golpe de 1962 e Suu Kye assume como Conselheira de Estado, cargo equivalente ao de primeiro-ministro
  • 2018: Kyaw renuncia e Win Myint assume a Presidência
  • 2020: Em eleições parlamentares, LND recebe 83% dos votos e derrota partido pró-militar
  • 2021: Militares alegam fraude no pleito, prendem lideranças da LND e assumem o poder com novo golpe de Estado

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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