Raúl Castro anuncia aposentadoria e deixa comando do Partido Comunista de Cuba

Decisão encerra período de mais de 60 anos da família Castro no controle da instituição

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Havana | Reuters

Raúl Castro, 89, anunciou nesta sexta-feira (16) que está deixando o comando do Partido Comunista de Cuba (PCC), encerrando um período de mais de seis décadas em que ele e seu irmão mais velho, Fidel Castro (1926-2016), estiveram na liderança do país.

A decisão, que já era esperada, foi anunciada logo no discurso de abertura do congresso do partido, que deve durar quatro dias em Havana, em meio a protestos de grupos que pedem mudanças no regime cubano.

Em sua fala, Raúl disse que os novos líderes são figuras leais ao Partido Comunista, "cheios de paixão e espírito anti-imperialista", com décadas de experiência e trabalho para subir na hierarquia da instituição.

Raúl Castro, então primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba, durante discurso de abertura do congresso da legenda em Havana - Ariel Ley Royero/ACN - 16.abr.21/AFP

"Acredito fervorosamente na força, na natureza exemplar e na compreensão de meus compatriotas, e enquanto eu viver estarei pronto, com o pé nos estribos para defender a pátria, a revolução e o socialismo", disse Raúl a centenas de membros do partido reunidos em um centro de convenções na capital cubana.

A reunião, que acontece a cada cinco anos, é a mais importante para as lideranças do partido. Desta vez, ocorre a portas fechadas, mas trechos dos discursos e imagens do evento foram divulgados pelos meios de comunicação estatais.

No último congresso, em 2016, Raúl havia dito que aquele seria o último liderado pela "geração histórica" que lutou em Sierra Maestra, em referência à Revolução Cubana (1959). Após o levante guerrilheiro que derrubou o ditador Fulgêncio Batista, Raúl viu o irmão ocupar o poder como chefe de Estado e assumiu o Ministério da Defesa, no qual permaneceu por 57 anos.

Seu sucessor à frente do partido será Miguel Díaz-Canel, 60, que atualmente lidera o regime no cargo de presidente. No complexo sistema político cubano, duas estruturas coexistem: a do Estado e a do partido. Em 2018, Raúl cedeu a Díaz-Canel o comando oficial do país, mas manteve a liderança da sigla em suas mãos —até esta sexta-feira, quando pôs fim à era Castro, comprometendo-se a continuar no partido "como um simples militante até o dia de sua morte".

"Termino a minha tarefa como primeiro-secretário com a satisfação do dever cumprido e com a confiança no futuro da pátria, com a convicção ponderada de não aceitar propostas para me manter nos órgãos superiores da organização partidária", disse Raúl, que era primeiro-secretário do PCC desde 2011, ocupando o cargo após a saída de Fidel.

Antes da posição de liderança no partido, Raúl assumiu interinamente o comando do regime cubano em 2006, quando Fidel, ditador desde 1959, adoeceu. Por dois anos, não se sabia se ele seguiria no posto, até que Fidel renunciou, em 2008 —e morreu oito anos depois, aos 90.

Sem o mesmo carisma do irmão, Raúl perdeu oportunidades de se manter próximo dos cubanos. Em 2017, por exemplo, quando o furacão Irma devastou parte do litoral norte da ilha, deixando dez mortos, Raúl não visitou o local para prestar solidariedade —algo que Fidel dificilmente deixaria passar.

Raúl foi o responsável, contudo, por uma série de reformas econômicas e sociais que, de alguma forma, alteraram a cara do regime cubano. As mudanças permitiram, por exemplo, a abertura à iniciativa privada de um número limitado de setores, além da distribuição de subsídios para incrementar a produção para exportação. Atualmente, cerca de 600 mil cubanos trabalham no setor privado, o que corresponde a 13% da população economicamente ativa.

Mais recentemente, em janeiro, o regime unificou suas duas moedas e aumentou salários, pensões e aposentadorias. Mas a medida provocou uma desvalorização de 2.000% do peso. A inflação também disparou e alcançou 160%, enquanto tarifas como a de energia aumentaram 500%.

Também foi durante seu período de liderança no Partido Comunista que a relação entre Cuba e Estados Unidos passou por mudanças históricas. Em 2014, o então presidente americano Barack Obama anunciou a retomada dos laços diplomáticos com a ilha, rompidos desde 1961. Dois anos depois, o democrata visitou Cuba, quebrando uma marca de 88 anos sem que um líder americano fosse ao país.

Raúl foi um crítico das decisões de Donald Trump, que cancelou o acordo de reaproximação, endureceu sanções contra a ilha e, às vésperas de deixar a Casa Branca, recolocou Cuba na lista americana de países patrocinadores de terrorismo.

"Ratifico deste congresso do Partido a vontade de desenvolver um diálogo respeitoso e edificar um novo tipo de relação com os Estados Unidos sem renunciar aos princípios da revolução e do socialismo", disse Raúl, nesta sexta-feira, em um recado ao atual presidente americano, Joe Biden.

O democrata prometeu reverter algumas das medidas mais duras de Trump, mas, nesta sexta, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, questionada sobre a saída de Castro, disse que mudanças na relação dos EUA com Cuba não estão entre as prioridades de Biden para a política externa.

Segundo Psaki, a abordagem do governo será pautada por dois princípios-chave: apoio à democracia e aos direitos humanos e a crença de que os americanos são os melhores embaixadores da liberdade e da prosperidade.

Mais novo de três irmãos e o único ainda vivo —Ramón Castro morreu também em 2016, aos 91 anos—, Raúl nasceu em Holguín, a cerca de 745 quilômetros de Havana, filho de mãe cubana e pai espanhol.

Na juventude, abraçou o socialismo e ingressou em grupos de jovens comunistas, tendo participado, ao lado de Fidel, de uma tentativa malsucedida de depor Fulgêncio Batista em 1953, quando tinha 22 anos. Os dois irmãos ficaram presos até 1955, quando foram perdoados pelo ditador.

Nas décadas que se seguiram à Revolução Cubana, Raúl contou com forte apoio e lealdade de oficiais militares de alto escalão conhecidos como "raulistas" e sempre foi descrito como profundamente comprometido com a primazia política do Partido Comunista.

Sua influência excedeu em muito a de outros ministros de sua época e o levou a ocupar a segunda maior posição, atrás de Fidel, nos três principais órgãos de poder do regime —o Conselho de Estado, o Conselho de Ministros e o Partido Comunista de Cuba— até que assumiu a liderança em todos eles.

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