Descrição de chapéu União Europeia

Carta de 'militares da nova geração' pressiona Macron na França

Autores, que afirmam não poder se identificar para não ferir lei, criticam presidente francês por 'concessões ao islamismo' e falam em guerra civil

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Bruxelas

Uma segunda carta atribuída a militares franceses foi publicada na noite deste domingo (9), alertando para a possibilidade de uma guerra civil no país devido a “concessões ao islamismo” do governo de Emmanuel Macron.

Os autores do novo texto se descrevem como representantes da nova geração de militares. “Somos homens e mulheres, soldados ativos, de todas as Forças e de todas as classes, de todas as sensibilidades. (...) E se não podemos, por lei, nos expressar com o rosto descoberto, é igualmente impossível ficarmos calados”, escrevem.

O texto foi divulgado pela revista de direita Valeurs Actuelles, a mesma em que saiu uma primeira carta de teor semelhante, assinada por generais aposentados e militares da ativa, que ameaçavam com intervenção. Eles serão processados por isso, segundo o Estado-Maior das Forças Armadas.

De máscara preta, terna e gravata, o presidente junta as palmas das mãos como se rezasse
O presidente francês, Emmanuel Macron, durante a Conferência sobre o Futuro da Europa, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo - Frederick Florin - 9.mai.21/AFP

Na ocasião, a ministra encarregada das Forças Armadas, Florence Parly, disse que os autores desobedeceram a lei que proíbe reservistas ou militares em serviço de tornar públicas suas opiniões sobre política e religião.

O primeiro-ministro Jean Castex também criticou a primeira ameaça como "contrária aos princípios republicanos" e acusou a líder de ultradireita Marine Le Pen e seu partido, o Reunião Nacional, de explorar politicamente o caso.

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Não havia manifestações oficiais sobre a segunda carta até a tarde desta segunda (manhã no Brasil). Segundo o site da publicação, até as 12h (7h no Brasil) desta segunda (10), mais de 1,5 milhão de pessoas já tinham lido a carta, e as assinaturas de apoio superavam 100 mil.

“Soldados deram sua vida para destruir o islamismo ao qual vocês estão fazendo concessões em nosso solo”, escreveram os autores da segunda carta, que dizem ter servido em operações antiterrorismo na França e em países como Afeganistão, Mali e na República Centro-Africana.

Também criticaram o governo Macron por condenar a iniciativa do primeiro grupo de militares, afirmando que os ministros franceses “atropelam” a honra dos veteranos e “mancham” sua reputação, “quando seu único defeito é amar seu país e lamentar seu declínio visível”.

“Covardia, engano, perversão: esta não é a nossa visão da hierarquia. (...) Sim, a guerra civil está se formando na França, e você sabe disso perfeitamente bem", escrevem, dirigindo-se ao presidente francês e a seus ministros. A introdução à carta afirma que seu objetivo “não é minar as instituições, mas alertar as pessoas para a gravidade da situação”.

A nova investida contra Macron —e a comunidade islâmica, segundo ativistas— acontece num momento em que crescem as intenções de voto em Marine Le Pen para a eleição presidencial do ano que vem, e a maioria da população reprova o desempenho do governo no combate à violência.


Em pesquisa divulgada em dezembro, 74% afirmaram que ele deixou a desejar em segurança e policiamento —avaliação agravada pelos ataques terroristas do ano passado, que fizeram ao menos quatro mortos, entre os quais o professor Samuel Paty, decapitado em Paris, e a brasileira Simone Barreto, degolada em Nice.

Após os ataques de 2020, Macron reagiu com um projeto de lei inicialmente descrito como para “combater o separatismo islâmico" —objetivo depois alterado para “proteger os princípios republicanos”.

Segundo o professor de política francesa da Universidade de Warwick (Reino Unido) James Shields, o presidente francês já avançou para a direita nesse tema desde sua eleição, em 2017, mas quer evitar ser acusado de estar atacando o islamismo por motivos eleitorais.

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