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Ao lado de líder de ultradireita, militares pioram pesadelo de Macron

Para analistas franceses, cenários não excluem vitória de Marine Le Pen para a Presidência

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Bruxelas

A um ano das eleições presidenciais francesas, duas dezenas de generais aposentados e um grupo de militares da ativa se juntaram na semana passada à galeria de assombrações que perturbam os sonhos do presidente Emmanuel Macron.

Em carta publicada numa revista de ultradireita, ameaçaram intervir contra um "risco de guerra civil" que atribuem ao islamismo e ao ativismo antirracista. "Foi uma intrusão nos assuntos civis altamente significativa vinda de oficiais militares franceses que historicamente observavam um pacto de silêncio sobre questões políticas”, diz o professor de política francesa da Universidade de Warwick (Reino Unido) James Shields.

Shields tira da manifestação atípica duas conclusões. “Primeiro, ela mostra que o Islã e a questão racial fincaram uma cunha no centro do debate nacional francês, na esteira de atrocidades terroristas islâmicas cometidas na França desde 2015.”

O presidente francês, Emmanuel Macron, participa de cerimônia em homenagem ao fim da Segunda Guerra em Paris - Christian Hartmann/Reuters

Progressivamente secundários em países como a Alemanha, temas como xenofobia e repulsa à imigração continuaram proeminentes na política francesa, graças principalmente a Marine Le Pen, líder do partido de ultradireita Reunião Nacional e principal pesadelo de Macron no momento.

De acordo com as pesquisas mais recentes, 1 em cada 4 franceses declara que votará na herdeira de Jean-Marie Le Pen no primeiro turno da eleição presidencial, em abril de 2022, o que deve levá-la mais uma vez ao segundo turno. Mas mudanças na opinião pública em relação tanto a Marine Le Pen quanto a Macron já fazem cientistas políticos discutirem a sério se ela tem chances de se tornar presidente. E alguns acreditam que sim.

À medida que se consolida como principal rival do presidente no primeiro turno, a ultradireitista tem moderado suas mensagens, num processo batizado de “desdemonização”. Além de suavizar a retórica, ela expurgou do RN membros mais propícios a "escorregões" racistas ou falas extremistas, afirmam os pesquisadores Antoine Bristielle, Tristan Guerra e Max-Valentin Robert, em análise para o Observatório da Fundação Jean-Jaurès.

Deu resultado: neste ano, 34% dos franceses disseram ter opinião "muito ruim" sobre Marine Le Pen, o nível mais baixo alcançado pela candidata e uma queda expressiva dos 50% de março de 2019. Em abril de 2016, um ano antes da eleição presidencial de 2017, essa taxa era de 46%.

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Isso leva à segunda observação de Shields sobre a carta dos militares: “É o sinal de uma nova militância de direita encontrando lugar no espaço deixado pelo discurso cada vez mais higienizado de Marine Le Pen”.

A tensão política revelada pela mensagem do grupo de militares encontrou eco na população: 58% disseram apoiar a carta em pesquisa da empresa LCI divulgada na semana passada, e 73% concordaram ainda com a ideia de que o país está se desintegrando.

São resultados que indicam “um humor público profundamente pessimista e ansioso e uma aceitação de passos dramáticos para proteger as regiões mais problemáticas do país de descerem ainda mais à ilegalidade”, afirma Shields.

Nesse ambiente, Marine Le Pen manteve estável sua base de apoio —89% de seus apoiadores no último pleito continuam dispostos a elegê-la— enquanto o presidente francês viu quase um terço de seus simpatizantes debandar.

“Macron tem uma necessidade mais urgente de renovar seu ‘centro duro’ de apoio se quiser reverter a desvantagem no primeiro turno”, afirma Shields. Embora ainda não tenha se lançado, é apontado como o mais provável candidato de seu partido República em Marcha (LREM).

Nessa renovação, não poderá mais se fiar na mensagem de “nem esquerda, nem direita” que lhe deu a vitória em 2017, não só porque no exercício do governo ele se inclinou para a direita mas também porque esse virou um dos principais slogans de Marine Le Pen.

Outro fantasma com o qual Macron luta agora é o espelho. Suas tentativas de impor reformas de cima para baixo —como a da Previdência, que detonou protestos e greves em 2019— lhe pregaram uma imagem de elitista e arrogante. “No figurino de presidente jupiteriano, ele se tornou a personificação perfeita de uma elite insensível, com comentários desastrados que transmitiam desconsideração com quem está na base da escada social.”

Foi preciso a revolta inflamada dos coletes amarelos —contra um imposto sobre combustíveis— para que a ficha caísse e o presidente tentasse adotar dose um pouco maior de humildade. “O problema é que Macron tem muito mais talento para a arrogância que para a simpatia —e as primeiras impressões, como sabemos, podem ser duradouras”, afirma Shields.

Num levantamento divulgado em março, quatro emoções negativas se destacaram quando franceses responderam o que sentem ao ouvir ou ver Macron: raiva (28%), desespero (21%), nojo (21%) e vergonha (21%). O professor de Warwick cita também pesquisa da Odoxa divulgada em dezembro, na qual só 28% o consideram próximo da população e 25% o descrevem como humilde.

Também preocupam outros números dessa mesma pesquisa: 57% desaprovam sua gestão em geral, 62% consideram que ele administrou mal a pandemia e 74% julgam que deixou a desejar em segurança e policiamento —avaliação agravada pelos ataques terroristas do ano passado, que fizeram ao menos quatro mortos, entre os quais o professor Samuel Paty, decapitado em Paris, e a brasileira Simone Barreto, degolada em Nice.

“Como candidato à Presidência em 2017, ele equilibrou o policiamento e a segurança com ênfase nas liberdades individuais e uma abertura para os benefícios da diversidade étnica e religiosa da França”, diz Shields. Após os ataques terroristas, o foco se deslocou para a manutenção da ordem pública e a repressão ao islamismo radical.

Uma das medidas foi o projeto de lei anti-extremismo, que no longo prazo "quer privar Marine Le Pen dos direitos exclusivos sobre a questão crítica de segurança”, afirma Shields. Tenta assim se antecipar à estratégia da candidata de ultradireita de arrastar o debate eleitoral nos campos da violência, da imigração e da identidade nacional, que não são o terreno natural do presidente centrista.

Conforme esquentar a campanha de 2022, Marine Le Pen deve elevar o tom anti-imigração, enquanto Macron buscará trilhar uma linha mais cautelosa, opina Shields. “Ele tentará evitar a crítica de exploração da ameaça islâmica para fins políticos —daí a mudança retórica no nome do projeto de lei, de ‘combater o separatismo islâmico’ para ‘proteger os princípios republicanos’.”

​os riscos no segundo turno

Nenhuma pesquisa até agora apontou vitória de Marine Le Pen contra Macron no segundo turno, mas um levantamento do dia 17 de março fez pipocar mensagens de alerta: o atual presidente aparece vencendo com 53% dos votos —há quatro anos, ele levou dois terços do apoio da população.

Para o professor de Warwick, a grande esperança da líder do RN não está nos que votam, mas naqueles que não votam. “Há fortes indícios de que um grande número de eleitores de centro-esquerda e esquerda, que foram tão cruciais para a vitória de Macron em 2017, poderiam se recusar a elegê-lo agora e optar pela abstenção”, diz.

Shields considera improvável que isso seja suficiente para empurrar a balança eleitoral para a ultradireita, mas a conclusão da análise da Fundação Jean-Jaurès é menos confortável.

“Se em 2017 Marine Le Pen conquistou um terço dos votos no segundo turno apesar de uma campanha calamitosa, a pouco mais de um ano da próxima eleição presidencial, devemos considerar a vitória final de Marine Le Pen como uma possibilidade não desprezível”, escrevem os analistas.

Para isso, eles consideram necessária ao menos uma de três condições: 1) que o eleitorado de direita moderada tenha se voltado concentradamente para ela, 2) que a "desdemonização" de Le Pen seja suficiente para deixar de assustar eleitores resistentes, ou 3) que Macron tenha levantado uma rejeição semelhante à da ultradireitista fora de seu bloco de apoio.

A primeira é a menos provável, dizem, com base na pesquisa Fraturas Francesas. Eleitores da direita moderada compartilham ideias culturais da ultradireita —97% deles concordam que "é preciso um verdadeiro líder na França para restaurar a ordem"—, mas divergem fundamentalmente nas questões econômicas.

“Os Republicanos são muito mais liberais em questões como flexibilidade do mercado de trabalho, livre comércio ou redistribuição de renda. O único ponto de convergência é a assistência social: 82% dos republicanos e 73% dos apoiadores de Le Pen consideram-na excessiva na França”, afirmam.

Já no segundo ponto, o relativo "abrandamento" no extremismo xenofóbico ajudou a tranquilizar esses direitistas moderados.

Num “índice de demonização” criado pelos pesquisadores levando em conta itens como proximidade com os interesses do eleitor, avaliação sobre capacidade de governar, percepção sobre radicalismo de direita e sobre risco para a democracia, o Reunião Nacional tem melhorado persistentemente.

“A ‘desdemonização’ é inegável”, concluem. “O Reunião Nacional ainda amarga imagem muito negativa, mas em queda drástica desde meados da década de 2010, e Marine Le Pen suavizou o estigma que a ultradireita lhe dava no passado.”

A principal ameaça a Macron no segundo turno parece estar em sua rejeição, que se aproxima da de Marine Le Pen quando se analisam os eleitores de outros partidos. Os pesquisadores da Fundação Jean Jaurés consideram surpreendente que, no eleitorado de direita moderada, as emoções negativas estejam mais associadas ao presidente francês que à candidata do RN.

“Há um risco significativo de que eleitores dos candidatos derrotados no primeiro turno se abstenham por detestar tanto Macron quanto Le Pen”, concluem.

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