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Epicentro dos protestos da Colômbia, Cali decreta estado de emergência

Das 24 mortes registradas nas manifestações, 17 foram na região onde fica a cidade

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Cali e Bogotá | AFP e Reuters

Após mais de uma semana de protestos que deixaram ao menos 24 mortos na Colômbia, a cidade de Cali, epicentro das manifestações, está sob estado de emergência —o prefeito Jorge Iván Ospina decretou a medida por três meses, na noite desta quarta-feira (5), e anunciou que ela pode ser prorrogada.

Desde 28 de abril, as manifestações contra o presidente Iván Duque foram duramente reprimidas, e a cidade, uma das mais afetadas, mergulhou em violência. Em resposta ao fechamento de ruas e aos bloqueios de estradas, que provocaram desabastecimento de combustível e de medicamentos em meio à pandemia de coronavírus, o governo enviou o Exército a Cali. De acordo com a Defensoria Pública, 17 das mortes contabilizadas nos protestos ocorreram no departamento de Valle del Cauca, onde fica a cidade.

Pessoas se reúnem em torno de velas que dizem "pelos nossos mortos" durante uma vigília em Cali, na Colômbia, em homenagem aos manifestantes que morreram durante protestos contra o governo do presidente Iván Duque
Vigília em Cali presta homenagem a manifestantes mortos durante protestos contra o presidente Iván Duque - Luis Robayo - 5.mai.2021/AFP

O estado de emergência permite que a administração faça alterações no orçamento e na destinação de recursos públicos e relaxa regras de contratos que normalmente exigem licitação.

A medida está prevista no Estatuto da Contratação da Administração Pública para tratar de situações excepcionais que afetem “o fornecimento de bens ou a prestação de serviços ou a execução de obras”.

Segundo o prefeito, o decreto tem como objetivo “satisfazer as necessidades da população e fortalecer as ações que visam a proteção dos moradores de Cali”. A nova medida se soma ao toque de recolher —entre 20h e 5h— e à lei seca instituídos na cidade, que seguem em vigor até pelo menos 14 de maio.

A violência dos protestos contra o governo colombiano estourou na cidade chamada de “capital do pós-conflito”, uma das mais pobres do país, onde o acordo de paz assinado com a ex-guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), em 2016, não trouxe a calma esperada.

A situação foi agravada pela crise econômica desencadeada pela pandemia —que afetou a indústria, o comércio e a agricultura. Em Cali, a pobreza atinge 36,3% da população, e a taxa de homicídios é de 43,2 mortes por 100 mil habitantes, contra 23,79 no país.

Kevin Agudelo, 22, participou na segunda (3) de uma vigília em Siloé, uma favela de Cali. Sua mãe, Angela Jiménez, lembra que ele prometeu não chegar perto dos "tumultos", mas foi a última vez que ela viu o filho. Segundo depoimentos à agência AFP, a tropa de choque e as forças especiais atacaram o protesto pacífico. Agudelo foi morto com outras duas pessoas, todas baleadas, de acordo com fotos e vídeos.

"Tivemos que nos esconder porque ficamos com medo", conta um dos participantes do evento que pediu para não revelar sua identidade. "O que fiz foi correr para tentar salvar minha vida.”

Na mesma noite, Daniela León foi pega no meio de confrontos entre as forças de segurança e os manifestantes que tentavam tomar um pedágio em Palmira. "O confronto aconteceu quando [os manifestantes] estavam a cerca de 500 metros do pedágio, e todo o pelotão atacou", descreveu a ativista.

Segundo León, as pessoas "começaram a entrar no mato para se proteger dos gases". Dezessete dos que fugiram entre os canaviais continuam desaparecidos, segundo números que coincidem com os oficiais.

Lá Fora

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A tensão na Colômbia gerou manifestações da ONU, da União Europeia, dos EUA e de ONGs de direitos humanos, que denunciaram o uso desproporcional de força pela polícia para controlar os protestos.

Nesta quinta-feira (6), grupos menores de manifestantes foram às ruas novamente. Depois de uma noite violenta em Bogotá no início desta semana, a situação se acalmou, disse a prefeita Claudia López em um comunicado, acrescentando que mais 23 civis e seis policiais ficaram feridos, mas sem gravidade.

Pequenos grupos também marcharam em Medellín, mas se dissiparam em meio a fortes chuvas, disse um porta-voz do gabinete do prefeito à agência de notícias Reuters. Em meio à pressão das ruas, o governo do presidente Iván Duque prometeu que vai ouvir os manifestantes para buscar um consenso que ponha fim à crise, mas acusou grupos criminosos de estarem por trás da violência nas ruas.

Nesta quinta, o conselheiro presidencial Miguel Ceballos, mediador do governo com manifestantes, disse querer ouvir todos os setores do país, incluindo “aqueles que marcham” e “aqueles que não marcham”.

As conversas começaram nesta quarta sob a liderança de Ceballos e a participação do Ministério Público, Defensoria do Povo e sindicatos. Ele disse que se reunirá com os líderes dos protestos na próxima segunda-feira (10), mas não confirmou a participação de Duque.

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