Descrição de chapéu Guerra na Ucrânia Rússia

Ameaçado por Biden, Xi critica sanções a Putin devido à guerra na Ucrânia

Chinês alerta para crise global se punições aumentarem; americano disse que apoio ao russo terá consequências

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São Paulo

Na primeira conversa entre os líderes das maiores economias do mundo sobre a guerra na Ucrânia, o Xi Jinping criticou as sanções impostas à Rússia a Joe Biden e defendeu o fim rápido do conflito. O americano, por sua vez, disse que a China arcaria com "consequências" se ajudar Vladimir Putin.

De olho no temor de um dia ser alvo de algo semelhante, caso por exemplo use a força para reabsorver a ilha autônoma de Taiwan, o chinês alertou para o risco de crise global se as punições forem ampliadas.

Fotos mostram o líder chinês Xi Jinping e o presidente americano, Joe Biden
Fotos mostram o líder chinês Xi Jinping e o presidente americano, Joe Biden - Nicolas Asfouri - 3.jul.2019 e Nicholas Kamm - 8.jun.2021/AFP

Aliado de Vladimir Putin, Xi está sob pressão de Washington para não apoiar financeira ou militarmente o esfoço de guerra do russo, cujo país foi submetido a duras sanções que limitaram o acesso ao sistema mundial de pagamentos e às suas próprias reservas cambiais.

"Sanções amplas e indiscriminadas apenas fazem as pessoas sofrer. Se escaladas, podem levar a crises globais sérias de comércio, finança, energia, alimentos e cadeias logísticas, paralisando a já definhante economia mundial e causando perdas irreparáveis", disse o chinês.

A conversa de Xi e Biden, feita virtualmente, durou quase duas horas na manhã desta sexta (18), noite em Pequim. Segundo a chancelaria chinesa, o líder disse que os EUA e a China têm responsabilidade conjunta para manter a paz mundial.

"Todos os lados precisam apoiar a Rússia e a Ucrânia em ter um diálogo e negociação que irá produzir resultado e levar à paz", disse o comunicado chinês, que não citou a cobrança de Biden. Segundo a versão da Casa Branca, o presidente explicou "as consequências se a China der apoio material à Rússia enquanto ela leva a cabo ataques brutais".

Ambos os países vêm em rota de conflito desde 2017, quando o governo de Donald Trump deu a primeira salva da Guerra Fria 2.0, com a adoção de barreiras tarifárias contra produtos chineses, vistos como predatórios da economia americana.

A realidade é mais complexa, e a ascensão chinesa desde o estabelecimento de relações entre a ditadura comunista e os EUA em 1979 é um produto da simbiose econômica com o Ocidente. Os investimentos cruzados e a interdependência dão nuances à competição entre ambos os lados que não existia, por exemplo, na Guerra Fria original entre americanos e soviéticos.

Mas ela se espraiou por quase todos os campos, e Biden deixou claro ao assumir que iria priorizar o enfrentamento com a China, potência emergente, um padrão clássico que remete à antiguidade grega, quando Atenas desafiou Esparta no século 5º antes de Cristo.

Segundo os chineses, Biden disse que não quer uma nova Guerra Fria ou mudar o sistema político chinês, e sim revitalizar os laços entre os países.

Seja como for, Putin atravessou os planos americanos com sua guerra na Ucrânia, que ameaça ultrapassar fronteiras e envolver países da Otan, a aliança militar criada pelos EUA em 1949 para conter a União Soviética.

Ao longo da preparação para a guerra, Xi demonstrou apoio a Putin e chegou a dizer que ambos os países deveriam se unir contra as pressões do Ocidente. Vinte dias antes da invasão, em 4 de fevereiro, o russo visitou o chinês na abertura dos Jogos de Inverno de Pequim e selou um pacto de "amizade sem limites".

Não é uma aliança militar, que colocaria todo o desenho das sanções ocidentais em outro esquadro, mas uma carta de intenções. Desde então, Xi vem sendo questionado no Ocidente. Os EUA chegaram a dizer que haveria "sérias consequências" caso o apoio que dizem ter identificado em Pequim a Moscou se concretizasse em armas ou dinheiro.

China e Rússia deram de ombros. Para Xi, a guerra trouxe duas certezas. Primeiro, de como poderá ser a reação ocidental caso resolva usar armas para executar o plano anunciado de incorporar a ilha autônoma de Taiwan à ditadura continental, e talvez se preparar para tal. Os EUA e seus aliados no entorno chinês já até advertiram Pequim sobre isso.

Na conversa desta sexta, contudo, Biden disse a Xi que não apoia a independência da ilha ou busca conflito com a China. "Eu levo essas colocações muito a sério", disse o chinês, que ao mesmo tempo criticou os EUA por sinalizar tal apoio aos movimentos pró-democracia taiwaneses. "Isso é muito perigoso", afirmou Xi.

A segunda certeza é de que qualquer resultado que não seja uma derrota humilhante e eventual deposição de Putin será bom para a China. Uma vitória militar, retumbante ou mediana, fará o russo consolidar seu poder talvez de forma ditatorial, mas ele permanecerá isolado e dependente da China, além de manter a percepç​ão de inocuidade das pressões ocidentais.

Ainda não está certo como isso se daria em relação ao regime de sanções, mas é possível especular que Pequim antevê uma Rússia como sua província energética e fornecedora de tecnologia militar sensível.

A versão mais extrema disso é um apoio mais incisivo de Xi a Putin, transformando em fato a retórica de ambos dos últimos anos, de criação de um bloco real de desafio ao que chamam de ordem hegemônica de Washington. Os laços econômicos de Pequim sugerem que isso é difícil na versão radical, mas o mundo também já viu uma globalização incipiente desabar com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914.

Na contramão dessa lógica, há a possibilidade de todo o cenário desandar contra a China, levando-a a algum tipo de acomodação com os EUA, em especial sob o risco de sanções. É nesse contexto que precisa ser lida a crítica de Xi ao instrumento.

Na hipótese está inserida a ideia de que Putin possa escalar sua guerra, usando armas de destruição em massa na Ucrânia, o que deixaria Xi obrigado a condená-lo. Por isso, nesse momento as palavras-chave de Pequim são discrição e cautela, à espera dos acontecimentos em solo.

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