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Alberto Mussa: A crise narrativa das escolas de samba   

Criadores de enredo precisam estudar mais, explorar novos horizontes temáticos

Alberto Mussa

Escolas de samba são, na essência, uma forma particular de rancho. Apesar de terem música e coreografia peculiares, herdaram de seus antepassados, entre outros elementos, a ideia fundamental que justifica um desfile: o enredo.

Na base de um conjunto complexo de artes plásticas, musicais, dramáticas e coreográficas, está a narrativa, que contém três níveis superpostos: a letra do samba; a figuração do enredo (por meio de alegorias, fantasias, adereços); e um roteiro, peça literária (obrigatória para o júri) que define a tese e esboça a sequência do desfile.

Embora seja a porta de entrada para as ideias contidas no enredo, a letra do samba é secundária, como parâmetro da criatividade narrativa, pois seu alcance estético sempre dependeu do enredo.

 Primeiro dia de desfile do grupo especial em São Paulo
Primeiro dia de desfile do grupo especial em São Paulo

No que denominamos (Luiz Antonio Simas e eu) de período clássico do samba de enredo, as letras, em si, não tinham beleza.

Foram as melodias que atingiram patamares de extraordinária sofisticação, talvez para compensar o inventário imutável de vultos e efemérides extraído de insossos manuais escolares: muitas Iracemas, múltiplos Guaranis, incontáveis bandeirantes, Santos Dumonts e Rui Barbosas, além da interminável Guerra do Paraguai.

Só a partir dos anos 1960, com uma ampliação do espectro temático (mitos indígenas e africanos, cultura popular e regional, obras literárias, episódios históricos e personagens não canônicos), as letras se desenvolveram.

Boas composições poéticas, portanto, dependem de um bom enredo. E esse enredo entrou em crise, em meados dos anos 1990. Uma das razões talvez seja o relativo esgotamento daquele manancial, depois de 30 anos de exploração.

Creio, no entanto, que o motivo dominante seja outro: sinto (com poucas exceções) certa preguiça intelectual nos criadores de enredo, que podem ser os próprios carnavalescos. E isso é ainda mais grave hoje, quando o tema nacional deixa de ser obrigatório.

Não se justifica, assim, que o enredo, depois de involuir ao nível de simples tema, tenha se apequenado ainda mais, para chegar a mero mote. Como, por exemplo, num hipotético "petiscos brasileiros". Pessoalmente, ficaria em dúvida sobre qual alegoria pôr na frente: se a do croquete ou a do bolinho de bacalhau.

Houve também uma profusão de enredos irrelevantes, em geral vinculados a patrocinadores, como gás ou iogurte. Não há como exigir dos compositores um bom samba. Não há como fazer exibição plástica que emocione.

Outro problema grave, de natureza intelectual, é a permanência de uma certa teoria das três raças, segundo a qual o índio é guerreiro e o negro lutou, mas trouxe samba, acarajé e Iemanjá. O branco, naturalmente, é o responsável pelo resto. No século 21, sinceramente, chega a ser constrangedor.

Do ponto de vista estritamente semiótico, a figuração do enredo sofre a limitação imposta pelo espaço e por sua natureza sequencial, embora não necessariamente cronológica. Como os enredos e as abordagens estão muito estagnados, a narrativa plástica não tem como se renovar, salvo no que possui de menos relevante: os suportes.

O fenômeno tomou impulso com a chamada verticalização de carros alegóricos; e culmina hoje com o emprego abusivo da tecnologia, como homens voadores ou efeitos de luz e fumaça, que podem ser um espetáculo em si, mas nada acrescentam de substancial à narrativa.

Criadores de enredo precisam estudar mais, explorar novos horizontes temáticos e investir na dramatização propriamente dita.

Se sucumbirem à tecnologia, em detrimento da arte (que é humana), as escolas de samba perderão seu sentido. Na concorrência há coisa bem melhor.

ALBERTO MUSSA é escritor. Publicou, entre outros, os livros A Primeira História do Mundo, O Senhor do Lado Esquerdo e Samba de Enredo: História e Arte, este último coescrito com Luiz Antonio Simas 

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