À espera da política

BC manter a taxa básica de juros é digno de nota, pois reflete sua maior insegurança quanto ao futuro

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Com instabilidade econômica, famílias postergam as compra - Alberto Rocha/Folhapress

Em sua última reunião antes das eleições, o Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu manter a taxa básica de juros em 6,5% ao ano, mas desta vez apontou concretamente para o risco de alta no custo do dinheiro.

Por ora, um novo arrocho monetário permanece improvável. A divulgação mais recente do IPCA, relativa aos 30 dias encerrados em 15 de setembro, registrou variação de apenas 0,09%, a menor para o período desde 2006. Em 12 meses, a alta ficou em confortáveis 4,28%.

Isso ocorre porque a ampla ociosidade da economia —com taxa de desemprego na casa de 12%, o dobro da que vigorava antes da recessão de 2014-2016— contribui para reduzir pressões sobre os preços normalmente mais resistentes, como os dos serviços.

Mas o alerta do BC é digno de nota, pois reflete sua maior insegurança quanto ao futuro. O ambiente mundial não se mostra fácil para países ditos emergentes. A bonança dos EUA continua a impulsionar os juros internacionais e valorizar o dólar, prejudicando os que dependem de financiamento externo, como Argentina e Turquia.

O Brasil, nesse quesito, está em posição muito melhor, dado que suas contas com o exterior estão equilibradas. Mas o real tem se desvalorizado mesmo assim, em sintonia com o movimento global e em razão das incertezas domésticas, que cresceram nos últimos meses e devem determinar o rumo da política monetária adiante.

Apesar de insuficiente para deteriorar gravemente o quadro para a inflação, a queda do real ante o dólar —cerca de 10% desde agosto— já teve algum impacto. Nas novas simulações do BC, com taxas de juros e câmbio nos níveis atuais o IPCA ficaria em 4,5% (a meta oficial) no ano que vem, contra 4,1% calculados antes.

Em outras palavras, extinguiu-se a folga com que a instituição operava. Daí a mudança gradual no viés do comitê nos últimos meses: até março, considerava-se que o balanço de riscos era favorável, o que poderia levar até a uma nova queda dos juros; depois, essa hipótese foi deixada de lado; agora, fala-se na possibilidade de alta.

Evitar que isso se concretize dependerá de ações críveis e tempestivas após as eleições. Em especial, não haverá tempo a perder na agenda de reformas para estabilizar a dívida pública, que hoje cresce de maneira explosiva.

Isso pressupõe a combinação de um programa econômico consistente e capacidade de execução política. Infelizmente, não é o que os presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas têm oferecido.

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