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Embate na Caxemira

Devolução à Índia de piloto capturado pelo Paquistão é correta em contexto em que erro de cálculo pode resultar em embate desastroso

É sem dúvida auspiciosa, diante do quadro de acirramento que se formava, a devolução à Índia de um piloto de caça capturado pelo Paquistão. No entanto o ato de boa vontade, se arrefece a crise atual, está longe de encerrar as tensões entre as duas potências nucleares.

Na última semana, a desde sempre conflituosa relação entre os países vizinhos atingiu um de seus níveis mais críticos. Pela primeira vez em quase 50 anos, os dois rivais travaram um embate aéreo.

Aviões paquistaneses realizaram ataques na região da Caxemira e abateram dois caças indianos, além de aprisionar um dos pilotos das aeronaves. A Índia, por sua vez, derrubou um caça paquistanês.

Populares seguram cartazes onde se lê "diga não à guerra" e "guerra não é a resposta" durante vigília em Lahore, no Paquistão, após acirramento de tensões entre o país e a Índia
Populares seguram cartazes onde se lê "diga não à guerra" e "guerra não é a resposta" durante vigília em Lahore, no Paquistão, após acirramento de tensões entre o país e a Índia - Arif Ali/AFP

Foi o apogeu das escaramuças iniciadas em 14 de fevereiro, quando a facção terrorista Jaish-e-Mohammad, baseada no Paquistão, matou, num atentado suicida, 40 militares indianos na Caxemira.

Essa área fronteiriça é alvo de disputa entre as duas nações desde 1947 —quando ambas emergiram da Índia britânica— e já foi o centro de três das quatro guerras travadas entre elas.

A Índia reagiu ao atentado bombardeando o território vizinho. Segundo Nova Déli, o ataque teve como objetivo destruir o maior campo de treinamento de terroristas paquistanês. Islamabad, entretanto, contestou essa versão, afirmando que nenhum campo jihadista havia sido atingido.

Após a captura do piloto pelo Paquistão, vídeos nos quais ele aparecia agredido por uma turba furiosa ou sendo interrogado vendado e com ferimentos aparentes passaram a circular em redes sociais, aumentando o clamor popular por uma represália.

Em meio a esse contexto efervescente, a libertação do militar foi a atitude mais sensata —embora não tenha evitado que os combates continuassem. Se isso não ocorresse logo, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, poderia se ver compelido a agir novamente, aumentando as chances de deflagrar um conflito aberto.

A menos de três meses de uma eleição que se afigura difícil para seu partido, Modi enfrenta forte pressão interna devido ao elevado desemprego e à desaceleração do crescimento econômico —e o apoio paquistanês a grupos extremistas é um tema que galvaniza o eleitorado indiano.

Embora seja tentador para o premiê insuflar em alguma medida o sentimento popular nacionalista, a fim de granjear apoio e desviar o foco dos problemas, um erro de cálculo pode resultar em um embate desastroso não só para os dois países como para toda a região.

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