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Alain Fresnot

A Petrobras e a Geni

Audiovisual não é culpado por desmandos na empresa

O cineasta e produtor Alain Fresnot - Zanone Fraissat - 29.mar.18/Folhapress
Alain Fresnot

Antes que me acusem de advogar em causa própria, antecipo que já fui, sim, financiado pela Petrobras. Com o recurso (R$ 1,8 milhão) obtido completei um orçamento de R$ 6 milhões e realizei em 2003 “Desmundo”, épico histórico baseado no livro de Ana Miranda que retrata o Brasil dos primeiros anos da colonização.

Este filme é usado até hoje por inúmeros professores de história por todo o país e é sempre lembrado nas listagens de melhores filmes brasileiros para a educação.

Além desta honra, outra alegria que a obra me proporcionou foi ter sido mencionado como exemplo de administração de filme de longa metragem em acórdão feito pelo TCU (Tribunal de Contas da União) quando da análise dos procedimentos de administração e controle da Ancine, agência nacional que rege a nossa atividade.

Este preâmbulo é para destacar a importância que teve o apoio da Petrobras à cultura e o quanto vai fazer falta —a se confirmar a orientação atual que parece ser a de interromper qualquer intervenção nesta área.

A cultura acaba sendo uma espécie de Geni, é a primeira a ser atacada. Fala-se em revanchismo, pois os artistas e intelectuais, em sua maioria, não apoiaram a eleição do atual presidente. Além da Petrobras, a Caixa e o próprio BNDES estão interrompendo sua carteira de investimentos em audiovisual.

Não posso crer neste cenário, apesar de termos tido um precedente no governo Collor com o desmonte total da atividade. O liberalismo “puro e duro” transformaria o país em deserto de criação e em mercado exclusivo para os velozes e furiosos de Hollywood. Curiosamente, foi no tempo dos militares que o “market share” das telas brasileiras foi mais favorável ao nosso cinema.

A orientação atual da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual tem sido a de privilegiar produções com vocação comercial; daí a importância de termos na Petrobras uma outra fonte de recursos para filmes mais ambiciosos cultural e artisticamente.

Não há como não elogiar o esforço de moralização que foi e está sendo feito na Petrobras. O loteamento político de suas diretorias, a serviço do financiamento de partidos, foi uma tragédia. E, quando começou a vir a público, a primeira vítima foi a cultura! Espantoso, não?

Nada tínhamos a ver com os desmandos. Nossa atividade, cujo investimento era irrisório na escala de operação da empresa, foi sumariamente interrompida.

Nesse sentido, o atual governo não está só. Esquerda ou direita no poder? Corta-se a cultura na Petrobras! Somos a tal da Geni!

A troca do apoio à cultura pela educação da primeira infância, no caso do cinema, é falacioso e não se sustenta, uma vez que a Lei do Audiovisual (3% do imposto devido), como o próprio nome indica, só pode ser usada no audiovisual.

Esperamos que o bom senso prevaleça e que, a exemplo de EUA e Europa, defendamos nossa produção e o mercado de audiovisuais. Volta, Petrobras!

Alain Fresnot

Diretor e produtor de filmes como 'Desmundo', 'Ed Mort' e 'Família Vende Tudo'

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