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José Lira

Arquitetura, acervos e barbárie

Fabuloso desfalque na obra de Paulo Mendes da Rocha é preocupante

José Lira

Professor titular da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Paulo)

O Brasil arquitetônico está perplexo. Os meios acadêmicos e patrimoniais foram pegos de surpresa. Inclusive no exterior: o arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha, Prêmio Pritzker em 2006, Leão de Ouro em 2016, doa todo o acervo de seu escritório à Casa da Arquitectura em Portugal (CA). Uma instituição nascida em 2007 com grandes ambições —e um programa de visitas às obras de Álvaro Siza em Matosinhos— e refundada em 2017 com nova sede e polpudo orçamento.

São inúmeros os questionamentos que o fato suscita. Por que um arquiteto consagrado escolhe depositá-lo em jovem instituição sem acervo de importância nem política de ensino e pesquisa? Por que a obra de um arquiteto brasileiro torna-se alvo de cobiça de um centro especializado em acervos portugueses? Porque levá-lo para o exterior quando praticamente toda a sua obra construída está no Brasil? A decisão terá algum impacto nas relações entre projeto, ensino e pesquisa de arquitetura no país?

José Lira, professor da FAU-USP
José Lira, professor da FAU-USP - Marcus Leoni - 9.jan.18/Folhapress

De fato, apesar da pretensão do diretor-executivo e os capitais a ele confiados, as credenciais da CA são modestas. Suas únicas coleções de peso são a de Eduardo Souto de Moura, em consignação desde maio, e agora a de Paulo Mendes da Rocha. No fim, nem o acervo de Siza foi para lá, dividindo-se por três instituições melhor estabelecidas em Portugal e, sobretudo, no Canadá.

O arquiteto brasileiro afirmou à Folha que a CA digitalizaria o conteúdo, e que a USP, naturalmente cogitada, não teria condições de acolhê-lo. No senso comum, a decisão se justifica pela fragilidade e incertezas atuais das instituições culturais brasileiras.

É verdade que universidades, museus e bibliotecas do país ressentem-se de investimentos públicos e de um mecenato cultural forte, sofrendo perdas e ataques sistemáticos nos últimos anos. Mas não se pode ignorar a excelência de muitos deles. Nem subestimá-los. Entre os quais o IEB-USP (Instituto de Estudos Brasileiros) e especialmente a FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), que desde os anos 1970 vem constituindo um dos maiores acervos de projetos do país, objeto de escrutínio por muitas gerações de pesquisadores, alicerce de teses, livros, exposições e novos horizontes de interpretação, apreciação e transmissão da cultura arquitetônica no Brasil.

Entre os acervos originais ali guardados estão os de toda a geração de Paulo Mendes da Rocha em São Paulo, e de dezenas de colegas notáveis. Foi na escola, nesta geração, nesta cidade, que o arquiteto se tornou uma liderança para centenas de profissionais, estudantes e professores, parceiro de projetos de muitos deles e esteio de pranchetas, salas de aula, pesquisas e debates Brasil afora.

É certo que o imaginário dos arquitetos ainda opera com ideias de gênio, mestre, obra autônoma, autoria individual e outros vícios. Mas se há algo de elementar na historiografia e na crítica contemporâneas é a necessidade de entender a arquitetura como elaboração de problemáticas, encargos e outras circunstâncias através de ferramentas operativas e intelectuais, padrões de intenção e campos de escolhas linguísticas partilhados. E mais: que sua elucidação atravessa de ponta a ponta o processo do desenho e o transborda, absorvendo-o no antes e no depois, em sua demanda, concretização, fruição e perecimento na cultura e na sociedade.

A obra de Rocha não foge à regra. Será que restará compreensível aos que tiverem a ventura —além do interesse e do dinheiro— de examinar seus traços e margens em Matosinhos? Será que o fabuloso desfalque documental não abalará também o julgamento e a preservação de sua obra? Não prejudicará pesquisas, publicações e exposições aqui, seja pela distância dos originais, seja pela impossibilidade de cruzá-los com outros acervos e temas afins?

O tempo dirá. Até porque razões científicas, éticas, políticas, simbólicas e afetivas não convenceram o mestre. Tampouco a estatura de seu trabalho o demoveu. Paulo Mendes da Rocha decidiu. Resta-nos esperar que a comunidade acadêmica e profissional portuguesa tire da coleção tanto valor quanto seus comissários e investidores; tanto significado e inspiração quanto temos sabido nela encontrar desde 1958. Nesse país onde foi sempre difícil vencer a barbárie. De dentro e de fora.

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