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Filipe Campello

Apocalypse now

Continuaremos a lidar com um governo cuja previsibilidade é deprimente

Filipe Campello

Doutor em filosofia pela Universidade de Frankfurt, é professor de filosofia da Universidade Federal de Pernambuco

A aposta mais acertada em torno de previsões é que elas vão errar. Raras conseguiram antever o que, de fato, seria o ano de 2020.

Mas previsões se referem ao tempo cronológico. Os gregos tinham ainda uma outra noção de tempo —”Kairós”—, que trazia o sentido de oportunidade: um diagnóstico que vai além de previsões.

Filipe Campello -  Doutor em filosofia pela Universidade de Frankfurt, pós-doutorado pela New School for Social Research (Nova York) e professor de filosofia da Universidade Federal de Pernambuco
O professor de filosofia da UFPE Filipe Campello - Helder Tavares

O ano que passou trouxe com ele uma janela histórica para buscar novas formas de lidar com os problemas do presente. Destaco quatro delas. Na agenda ambiental, vê-se cada vez mais a urgência de tratar questões de produção e consumo como indissociáveis do seu impacto ecológico; na esfera política, viu-se que os impactos desses problemas não se restringem a fronteiras nacionais, demandando mecanismos de cooperação transnacionais mais eficientes; no âmbito econômico, a lógica da autorregulação do mercado deu espaço ao crescente debate sobre renda básica e demais medidas de proteção social; e, no plano ético, a consciência de que qualquer pessoa pode ser vetor de transmissão do coronavírus redimensionou a liberdade individual como indissociável de laços sociais de solidariedade. Essas não são apenas alternativas contingentes, senão ideias, como diz o líder indígena Ailton Krenak, para adiar o fim do mundo.

Mas nada disso está na agenda do governo Jair Bolsonaro. Pelo contrário, ele é a antítese perfeita dos desafios que se impõem de maneira incontornável. Encerramos o ano beirando a trágica marca de 200 mil mortos pela Covid-19 não apenas sem plano de vacinação, mas com um presidente que nega desde a vacina até a tortura durante a ditadura militar. O bolsonarismo é o sintoma que melhor representa um passado obsoleto que não traz qualquer resposta diante do presente. Ele representa o “antitiming”, com soluções que lembram aquele meme dos dinossauros que, em nome da mudança, votam no meteoro.

Mas é preciso reconhecer que não há nada neste governo que se possa chamar de imprevisível. Bolsonaro é um caso raro de previsibilidade: todas as suas cartas já estavam claramente dadas antes de sua eleição. O que esperar então de novo em 2021?

Neste ano que começa, sentiremos de maneira ainda mais dramática os efeitos econômicos da pandemia, que, com o fim do auxílio emergencial e o aumento da inflação, atingirão sobretudo os mais pobres. Mas continuaremos a lidar com um governo cuja previsibilidade chega a ser deprimente.

A democracia, porém, pode continuar mostrando seu papel, sobretudo como poder de veto. O fato de Donald Trump ter sido a primeiro presidente em 28 anos a não se reeleger é sinal de que a reação a aventuras iliberais e a posturas beligerantes balizadas pelo ódio dá sobrevida à democracia. O que vai definir que os próximos anos possam romper com este presente obsoleto vai depender da capacidade criativa de articulação de novas alternativas que ainda não estão dadas.

O ano de 2020 nos colocou diante do inadiável, mas o tempo cronológico da democracia dificilmente fará com que este ano seja diferente do que passou. Já em 2022, meu pessimismo esperançoso me leva a ver também a oportunidade para ampliarmos nosso imaginário político diante do seu esgotamento no presente. Até lá, o verso bíblico que melhor representa esse cenário apocalíptico é o do livro de Jeremias: “passou o tempo da colheita, acabou o verão e não estamos salvos”.

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