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José Romero

O holocausto social do negacionismo

Consequências são imprevisíveis tanto para a saúde pública como para a economia e a política

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José Romero

Escritor humanista e professor de língua estrangeira

Viver em sociedade implica, geralmente, compreender sua realidade em seus mais diversos matizes. Uns enxergam a realidade da vida de uma maneira, e outros a compreendem totalmente diferente, bem seja na sua forma relativa, sensata, obscura, positivista, negacionista etc.

A realidade em si nunca se mostra aos olhos como realmente é —já que se disforma nos conceitos e ideias que possamos elaborar sobre ela, podendo chegar a conclusões erradas.

De fato, as ideias que podemos ter sobre a realidade não a representam, não se moldam a nossos conceitos... É o que sempre tem sido e o que sempre será. Para que cheguem a nós essas realidades, ocultas a nossos olhos, se transformam em percepções sensoriais, permitindo-nos conviver em sociedade de acordo com a cultura, a idiossincrasia e a época em que se vive.

Essas realidades podem ser recusadas ou aceitas e, quando empiricamente suas verificações são cabíveis, não tendo como refutá-las, os conceitos se rendem perante os fatos. Se ainda são negadas, não cabe a menor dúvida de se tratar da máxima expressão de um negacionismo cético e materialista, que não permite enxergar o mais elemental das realidades incontestáveis: como o fato de a Terra ser redonda, como as mudanças climáticas, a chegada do homem à Lua, o Holocausto, os incêndios na selva amazônica, a negação das vacinas e das medidas restritivas contra a pandemia como meio de conter sua propagação etc.

Essa escolha da negação da realidade como forma de escapar de verdades que lhes causam desconforto a distorce, provocando uma desinformação na sociedade, justificando o injustificável.

Essa rejeição de conceitos básicos evidentes e incontestáveis tem provocado através da história sérias catástrofes sociais.

Lembremos a catástrofe provocada pelo Khmer Vermelho no Camboja nos anos 1970. Religiosos, intelectuais, professores, qualquer pessoa que dominasse uma arte ou conhecimento era sumariamente executada. O lema desse regime era: “Não existe benefício em mantê-lo vivo. Não existe prejuízo em destruí-lo”. Era a negação ao conhecimento.

Lembremo-nos do Holocausto provocado por Hitler na Segunda Guerra Mundial, onde milhões de judeus foram sacrificados das mais distintas e perversas maneiras nos campos de concentração. Hitler chegou a dizer: “Não vejo porque o homem não deveria ser tão cruel como a natureza” e “O Holocausto é a solução final para os judeus”. Eis como negar a existência de um povo provocou uma catástrofe mundial jamais imaginada por qualquer ser humano.

Hoje em dia estamos a caminho de um holocausto social, com consequências imprevisíveis não somente desde o ponto de vista da saúde pública como também econômicas e políticas. Refiro-me enfaticamente à pandemia de Covid-19. São incontestáveis os diversos procedimentos negacionistas da pandemia em alguns países, de norte a sul. Nos Estados Unidos, o governo anterior não tomou as devidas providências, e mais de meio milhão de pessoas morreram até agora. A atual administração se debruça para conter essa tragédia.

Aqui no Brasil não podemos dizer o mesmo. As tardias providências das vacinas e a inexistência de uma coordenação governamental em nível nacional —assim como sua falta de cooperação nos procedimentos do distanciamento social, a utilização de um "kit covid", com medicamentos não comprovados cientificamente, e a disseminação das mais diversas fake news— têm atrapalhado e sabotado um combate efetivo desta catástrofe, que se intensifica a cada momento e a cada instante.

O holocausto social dessa pandemia se encontra no colapso dos hospitais, onde em muitas cidades os leitos nas UTIs estão 100% ocupados. O holocausto social dessa pandemia se encontra no dilema dos médicos, que terão de escolher entre quem será internado nos hospitais e quem ficará na fila de espera, enquanto seus familiares terão de suportar a agonia da liberação de um leito.

O holocausto social dessa pandemia é morrer no seco por falta do insumo do oxigênio nos hospitais. O holocausto social dessa pandemia estriba na implosão da educação nas escolas e universidades. O holocausto social dessa pandemia é que, quanto mais demorar a recuperação econômica, por consequência a peste também demorará mais para acabar. O holocausto social dessa pandemia se encontra na continuidade de sua negação!

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