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O que a Folha pensa

O papa no Iraque

Em viagem criticada pelo risco sanitário, Francisco buscou fortalecer diálogo

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Fiéis se aglomeram para ouvir o papa Francisco perto de ruínas em Mosul, no Iraque - Vincenzo Pinto/AFP

Após passar 12 meses encerrado no Vaticano devido à pandemia, o papa Francisco quis marcar sua volta ao cenário mundial com uma viagem de peso simbólico e histórico.

Com o giro de quatro dias pelo Iraque, concluído na segunda (8), Francisco tornou-se o primeiro pontífice a visitar o país do Oriente Médio, uma terra repleta de vestígios da antiguidade bíblica, mas ferida nos últimos anos pelo sectarismo, pela desastrosa ocupação estrangeira e pela cruenta perseguição a minorias religiosas.

Seus dois últimos predecessores haviam tentado a empreitada, mas terminaram desistindo ante os conflitos no país e as dificuldades de negociação com o governo local.

Não obstante sua importância, a viagem mereceu justas críticas em razão do momento escolhido.

O Iraque vive um renovado surto de contaminações pelo coronavírus e alguns dos sermões papais ocorreram em locais abarrotados, onde a ventilação deficiente e a falta de protocolos eficazes de prevenção tendem a atuar como facilitadores do contágio.

Para Francisco, contudo, a imprudência se justificaria pelos objetivos da visita, definida por ele como um dever em relação a uma terra martirizada por tantos anos.

Dentre suas principais missões, o papa buscou oferecer apoio à acuada minoria cristã da região.

Lar de algumas das comunidades mais antigas do cristianismo, o Iraque viu a população cristã cair drasticamente a partir da invasão americana, em 2003, num movimento exacerbado pela ascensão dos terroristas do Estado Islâmico, em 2014. Do cerca de 1,5 milhão de fiéis do começo do século restam hoje menos de 250 mil —boa parte se refugiou em países vizinhos.

Em paralelo, Francisco buscou fortalecer o diálogo entre a Igreja Católica e o Islã, um dos temas centrais de seu papado, ao se tornar o primeiro pontífice a encontrar o grande aiatolá Ali Al-Sistani, considerado a principal autoridade dos muçulmanos xiitas, predominantes no Iraque e no Irã.

Tendo escolhido para a viagem o lema “Vós sois todos irmãos”, extraído do Evangelho de Mateus, o papa defendeu uma frente inter-religiosa em prol da fraternidade e contra o fanatismo e a violência.

Num momento em que cristãos ainda são perseguidos no Oriente Médio e o preconceito contra muçulmanos viceja no Ocidente, trata-se de mensagem necessária.

editoriais@grupofolha.com.br

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