O Brasil está doente

A pandemia expôs mazelas que assolam o país e que destroem conquistas sociais e humanitárias

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Marcia Castro

Professora de demografia e chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard

“O Brasil é ainda um imenso hospital.” Essas palavras, ditas pelo médico Miguel Pereira em 1916, descreviam a situação insalubre das áreas rurais do Brasil, assoladas por doenças infecciosas, com precárias condições de moradia e carentes de assistência governamental.

Foi graças a expedições do Instituto Oswaldo Cruz que essa situação foi escancarada. O contexto rural era considerado um problema econômico e social, cuja mitigação impulsionou o movimento sanitário e a criação de centros de profilaxia rural e do Departamento Nacional de Saúde Pública, em 1920. Àquela época, a elite política e intelectual entendeu que não haveria desenvolvimento econômico sem saúde.

Desde 1920, o Brasil enfrentou desafios sociais, políticos e econômicos e obteve conquistas em direitos humanos e melhoria das condições de saúde. Implementou um sistema universal de saúde, invejado por muitos países, que se tornou o maior mecanismo de redução de desigualdades no país.

Entretanto, cem anos depois, o Brasil está doente. A pandemia de Covid-19 interrompe vidas, destrói sonhos e famílias e deixa sequelas entre os sobreviventes. Nas últimas sete décadas, a expectativa de vida ao nascer aumentou, em média, 5 meses por ano, porém perdeu 1,3 ano de 2019 a 2020. A rede hospitalar foi ao colapso e ficou sem oxigênio.

Além disso, a pandemia expôs outras mazelas que assolam o país. Mazelas de caráter, que destroem conquistas sociais e humanitárias.

Se no começo do século 20 as expedições e o conhecimento científicos impulsionaram mudanças nas políticas sanitárias, hoje a ciência é ignorada e negada, o incentivo à pesquisa científica é tolhido e parte do potencial intelectual da nação não vê outra solução a não ser buscar um futuro mais saudável em outras terras.

A Amazônia agoniza, tem sua cobertura vegetal arrancada, o solo queimado, os recursos minerais extraídos sem lei, e a população local e indígena tem seus direitos violados. A desinformação impera, ilude e mata. A voz de lideranças políticas é rude, de baixo calão e desprovida de empatia. Qual a cura para todas essas doenças?

Uma charge publicada na revista ilustrada O Malho, em 1910, retrata Oswaldo Cruz na cruzada contra os micróbios e, ao ser questionado se poderia destruir outras mazelas, tais como o banditismo, responde ser impossível, pois “são micróbios da politicagem”, que só podem ser eliminados através de protestos.

Além de protestos, cada cidadão pode (e deve) contribuir para a cura com o mais poderoso “remédio” que existe: o voto! Este, entretanto, tem data marcada para uso. Até que a data chegue, o tratamento paliativo inclui muita dose de coragem, porque é isso que a vida quer da gente, como disse Guimarães Rosa.

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